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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Desassossego (19)

  "É nobre ser tímido, ilustre não saber agir, grande não ter jeito para viver.
     Só o Tédio, que é um afastamento, e a Arte, que é um desdém, douram de uma semelhança de contentamento a nossa.
     Fogos-fátuos que a nossa podridão geral, são ao menos luz nas nossas trevas.
     Só a infelicidade elementar e o tédio puro das infelicidades contínuas, é heráldico como o são descendentes de heróis longínquos.
     Sou um poço de gestos que nem em mim se esboçaram todos, de palavras que nem pensei pondo curvas nos meus lábios, de sonhos que me esqueci de sonhar até ao fim.
     Sou ruínas de edifícios que nunca foram mais do que essas ruínas, que alguém se fartou, em meio de construí-las, de pensar em que construía.
     Não nos esqueçamos de odiar os que gozam porque gozam, de desprezar os que são alegres, porque não soubemos ser, nós, alegres como eles... Esse sonho falso, esse ódio fraco não é senão o pedestal tosco e sujo da terra em que se finca e sobre o qual, altiva e única, a estátua do nosso Tédio se ergue, escuro vulto cuja face um sorriso impenetrável nimba vagamente de segredo.
     Benditos os que não confiam a vida a ninguém."

Bernardo Soares (Fernando Pessoa) 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Jorge Roque (11)



"Músculos tensos, grito parado, a inquirição prossegue
por entre camadas de angústia cerrada. Fura, brita, escava,
alonga túneis por onde avança o corpo cerrado. Por vezes
tem a espessura de montanhas, muros sobre muros que
não acabam. Outras abre-se inesperadamente em naves
onde o eco é mais largo e o som ampliado vibra a ilusão da
interminável viagem. Uma a uma, as palavras emergem
da pedra informe, brilham contra o aço quente das brocas.
Agarra-as com as mãos feridas, confunde-as com o tacto,
mistura-as com o sangue, enquanto a tinta regista a negro
o seu traçado. Há quem lhe chame poesia. Eu só lhe posso
chamar combate.

-

"Agilidade técnica, destreza na rima, ouvido para o ritmo,
instinto harmónico - e a morte, Doutor, e a morte? Como
nas teclas os dedos do pianista, a posição exacta, momento,
peso, a ascensão e queda de cada nota, o seu trajecto contra
o silêncio que a revela - e a morte, Doutor, e a morte?
Conhecimento dos poetas de outras épocas, genealogia
da língua, amplitude e precisão do léxico - e a morte,
Doutor, e a morte? Domínio pleno do instrumento, no fundo
é disto que se trata, claridade da articulação, objectividade
expressiva, intensidade interior, saturação lírica - e a morte,
Doutor, e a morte?"

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Desassossego (18)


 "A minha imagem, tal qual eu a via nos espelhos, anda sempre ao colo da minha alma. Eu não podia ser senão curvo e débil como sou, mesmo nos meus pensamentos.
Tudo em mim é de um príncipe de cromo colado no álbum velho de uma criancinha que morreu sempre há muito tempo.
Amar-me é ter pena de mim. Um dia, lá para o fim do futuro, alguém escreverá sobre mim um poema, e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino."

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

Ana Teresa Pereira (8)


"- Quer dizer que o amor é a procura de uma imagem.
 - Não sei - disse Tom - o que amamos quando amamos alguém.
Levantou-se, encostou-se à porta da varanda, ficou a olhar para fora. Parecia muito magra, quase frágil, no vestido cinzento.
Tom aproximou-se, tocou-lhe ao de leve no ombro nu, sem que ela reagisse.
Ele murmurou:
 - Eu só quero alguém entre mim e o escuro. Entre mim e a noite."

sábado, 17 de novembro de 2012

Desassossego (17)

"A humanidade tem medo da morte, mas incertamente; o homem normal bate-se bem em exercício, o homem normal, doente ou velho, raras vezes olha com horror o abismo do nada que ele atribui a esse abismo. Tudo isso é falta de imaginação. Nem há nada menos de quem pensa que supor a morte um sono. Por que o há-de ser se a morte se não assemelha ao sono? O essencial do sono é o acordar-se dele, e da morte, supomos, não se acorda. E se a morte se assemelha ao sono, deveremos ter a noção de que se acorda dela. Não é isso, porém, o que o homem normal se figura: figura para si a morte como um sono de que não se acorda, o que nada quer dizer. A morte, disse, não se assemelha ao sono, pois no sono se está vivo e dormindo; nem sei como pode alguém assemelhar a morte a qualquer coisa, pois não pode ter experiência dela, ou coisa com que a comparar."

Bernardo Soares (Fernando Pessoa) 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Al Berto (11)


"chove. vou sair para beber bicas e ver caras. e ficar em silêncio no meio do barulho. e ficar sozinho no meio das pessoas. já não consigo estar sozinho se não estiver rodeado de gente ruidosa e chata.

rua da ponte: mais uma morada que fica para trás neste percurso de me fugir constantemente (se ao menos conseguisse dormir bem e o sono fosse reparador dos cansaços!) estou imensamente cansado, cansado de mim. o mundo assusta-me e já não tenho curiosidade alguma em saber as razões de me assustar. sou um farol que o faroleiro abandonou à vertigem das tempestades, descontrolado, solitário, vai consumindo o pouco de energia que lhe resta. um dia serei uma ruína sem luz. um morto.

que bem que te fica a risca ao meio. não sei bem se continuo apaixonado, não sei bem se vale a pena continuar apaixonado por ti. não sei. vejo-te e todo eu tremo. todo o meu corpo é um lamento, e pede socorro ao teu olhar, às tuas mãos. a um simples sorriso. uma palavra que me descanse.

com o tempo, murcharam as palavras que guardava para te dizer... as afiadas sílabas já não rompem os papeis alicerces do coração. desce este silêncio sobre a casa, onde outro silêncio mais antigo já se instalara. 
com o tempo desfolham as ilusões, não voltarás aqui. mas se por acaso regressares de mim nada encontrarás.

estarei sozinho? em que espelho virá à superfície teu rosto? em que lado do coração rebentará o choro?"

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Hiromi Kawakami


"Entrei na loja de flores fronteira e comprei flores brancas. Aproximei-me da caixa com aquelas flores cujo nome ignorava, menos pesadas que os ramos de crisântemos, mas mais densas que os gladíolos, paguei com uma nota de mil yenes e pedi que mas embalassem. 
Lembro-me também de ter guardado o troco no porta-moedas.
Perdi a noção do tempo e, quando a recuperei, dei por mim sentada num banco. À volta desse banco, que se recortava no meio de grandes prédios, havia árvores muito altas e frondosas que tornavam mais densa a atmosfera já escura daquele lugar.
Anoitecera e não se via ninguém. Talvez naquele mesmo banco, tivessem vindo sentar-se empregados de escritório à hora do almoço, enquanto o som alegre dos pauzinhos e dos garfos se misturava com o das conversas. Mas, agora, tudo se tornara silencioso, e nem o vento se ouvia.
Era extremamente agradável ver cair as pétalas brancas no ar da noite. As pétalas tombavam lentamente. Arrancadas uma a uma.
Havia várias flores em cada haste, e o movimento dos meus dedos aos desfolhá-las parecia não ter fim."


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Yukio Mishima (3)


"Num abrir e fechar de olhos, o mundo tinha-se vingado no padre com uma força terrível. Aquilo que ele tinha imaginado estar completamente seguro tinha-se desfeito em ruínas.
Voltou para o templo, contemplou a Imagem Suprema de Buda e invocou o Nome Sagrado. Mas os pensamentos impuros assolavam-no com as suas sombras opacas. A beleza de uma mulher - dizia para si - não era senão uma passageira aparição, um fenómeno carnal temporário - em breve seria destruído. No entanto, por muito que ele tentasse esquecer, a inefável beleza que o tinha impressionado à beira do lago continuava a pressionar-lhe o coração com a força de qualquer coisa que vem de muito longe. O Venerável Padre já não era jovem, nem física nem espiritualmente, para acreditar que este sentimento era uma partida que a sua carne lhe tinha pregado. A carne humana, ele sabia-o bem, não se podia alterar tão rapidamente. Parecia antes que ele tinha estado imerso num veneno subtil que lhe tinha de repente transformado o espírito.
O Venerável Padre nunca tinha quebrado o seu voto de castidade."

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Carson McCullers (2)


"Durante toda a tarde Ken Harris estivera sentado diante de uma página em branco na máquina de escrever. Era Inverno e nevava. A neve abafava o som dos automóveis e o apartamento na Village era tão silencioso que o despertador o incomodava. Trabalhava no quarto de dormir porque o quarto e os objectos da mulher o acalmavam e faziam sentir menos sozinho. O efeito da bebida de antes do almoço (ou era uma bebida para acordar?) desaparecera depois de comer uma lata de chili com carne sozinho na cozinha. Às quatro horas pôs o relógio no cesto da roupa suja e voltou para a máquina de escrever. A folha ainda estava branca e a sua brancura parecia invadir-lhe o espírito. No entanto houvera uma altura (há quanto tempo?) em que uma canção na esquina, uma voz da infância, eram suficientes para que a paisagem da memória condensasse o passado, de forma que o acaso e o presente se transfiguravam num romance, numa história; houvera uma altura em que a página vazia evocava e seleccionava as memórias e ele sentiu um domínio fantasmagórico da sua arte. Uma altura, afinal, em que era um escritor e escrevia quase todos os dias. Trabalhando duro, dividia cuidadosamente as frases, rasurava frases mal escritas e substituía as palavras repetidas. Agora sentava-se ali, curvado e com círculos debaixo dos olhos azul-acinzentados, e um boca de lábios cheios e pálidos. Era no vento escaldante do Texas da sua infância que pensava ao observar pela janela a neve que caía em Nova Iorque. E de repente uma válvula da memória abriu-se e disse as palavras enquanto as escrevia:

Who has seen the wind?
Neither you nor I:
But when the trees bow down their heads
The wind is passing by.

Os versos da infância pareciam-lhe tão sinistros que, sentado a pensar neles, as palmas das mãos ficaram húmidas de suor."

*No Conto "Quem viu o vento?"

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Junichiro Tanizaki


"Ontem, apercebi-me de mais um sintoma, embora também possa tratar-se de um sintoma neurótico. Por volta das três da tarde, quando queria telefonar a Kimura, não consegui lembrar-me do número de telefone da escola dele, embora se trate de um número para onde costumo ligar quase todos os dias. É evidente que já tinha tido lapsos de memória, mas neste caso não se tratou de simples esquecimento: foi uma espécie de amnésia. Nem sequer consegui lembrar-me do número da central telefónica. Fiquei surpreendido e desconcertado. A medo, tentei pensar no nome da escola, mas também não serviu de nada. O que me surpreendeu mais foi o facto de me ter esquecido do nome de Kimura. Até recordar-me do nome da nossa empregada me parecia um esforço demasiado. (...) O pior é que nem sequer me lembrava do nome da nossa rua. A única coisa que sabia era que morávamos no bairro Sakyo de Quioto.
Fui tomado por uma enorme ansiedade. Se aquilo continuasse, se fosse piorando a pouco e pouco, não tardariam a retirar-me o meu cargo universitário." 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Yukio Mishima (2)


"E lá estava ele, mergulhado numa surpreendente quietude; com o seu interior forrado de um ouro velho que o sol de Verão, lá fora cobrindo as paredes, protegia como laca, parecia um móvel inútil e magnífico. Aquelas imensas e vazias prateleiras de bibelots ali pousadas, em frente da verdura incendiada das madeiras... Para estar à sua altura, seria preciso um perfumador de dimensões fabulosas, ou então um vazio colossal... O Templo Dourado perdera tudo isso, varrera de uma vez a sua substância, e erguia apenas uma forma estranha e oca. Ainda mais singular: esse Templo Dourado, que tantas vezes me ofuscara com a sua beleza, pareceu-me nesse dia mais deslumbrante do que nunca. Nuna manifestara uma beleza tão forte, planando mil léguas acima da imagem que eu tinha dele, acima do mundo das realidades, sem qualquer ligação com o presente. Nunca a sua beleza fora tão fulgurante, nunca se esquivara tanto a qualquer espécie de significado."

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Desassossego (16)

"Que há-de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço."

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

domingo, 7 de outubro de 2012

Thomas Mann (2)


"As observações e vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido." 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Franz Kafka (3)


"Por felicidade, havia apesar de tudo excepções; davam-se quando sofrias sem nada dizer, quando o amor e a bondade aplicavam a sua força em triunfar de tudo o que lhes era contrário e a embargá-lo imediatamente.  Era, por exemplo, quando estava calor no Verão e te via cabecear no armazém depois do almoço, o ar lasso, o cotovelo apoiado em cima do balcão; ou ao domingo, quando vinhas, com ar derreado, juntar-te a nós no campo; ou então quando te escondias na biblioteca dominado pelos soluços; ou ainda durante a minha última doença, quando entravas suavemente no quarto de Ottla para me ver, e ficavas no limiar, estendias o pescoço para te dares conta de mim na cama e te limitavas a saudar-me com a mão, respeitando a minha fadiga. Em tais momentos, deitava-me e chorava de felicidade, e choro agora enquanto o escrevo"

terça-feira, 10 de julho de 2012

Joseph Conrad




"Todas estas palavras eram acompanhadas de um olhar fixo, constante, que não largava, e que, combinando-se com a futilidade do seu discurso, sugeria uma impressão de loucura desolada e mansa. E quando fez um breve movimento mais brusco na cadeira, descendo a voz para um diapasão quase surdo de mistério, veio-me à cabeça num relâmpago a ideia de que uma reputação profissional de alto nível não é prova necessária de saúde mental."

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Desassossego (15)

"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados"

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Albert Camus (2)



"Nunca tive necessidade de aprender a viver. Nesse ponto, já tudo eu sabia ao nascer. Há pessoas cujo problema consiste em resguardarem-se dos homens ou, pelo menos, acomodarem-se a eles. Quanto a mim a acomodação estava feita. Familiar quando era preciso, silencioso se necessário, capaz de desenvoltura como de gravidade, estava sempre ao nível. Era por isso grande a minha popularidade, e os meus êxitos na sociedade nem se contavam. Tinha boa figura, revelava-me simultaneamente bailarino infatigável e discreto erudito, chegava a amar ao mesmo tempo, o que não é nada fácil, as mulheres e a justiça, dedicava-me aos desportos e às belas artes, enfim, não digo mais, não vá suspeitar que me envaideço. Mas imagine, peço-lhe, um homem na força da idade, de perfeita saúde, generosamente dotado, hábil nos exercícios do corpo como nos do intelecto, nem pobre nem rico, de sono fácil e profundamente satisfeito consigo mesmo, sem que o mostrasse, a não ser por uma feliz sociabilidade. Admitirá, pois, que eu possa falar com verdadeira modéstia de uma vida em pleno êxito."

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Ana Teresa Pereira (7)



"Caía uma chuva miudinha quando John saiu do cinema. Levantou a gola do impermeável e afundou-se na rua submersa em nevoeiro.
Na sua mente continuavam a passar imagens do filme. Um filme de Alfred Hitchcock, com Cary Grant e Ingrid Bergman. Aquele beijo interminável, a mulher cambaleando junto ao banco de jardim, o baile, a chave escondida na mão, tudo lhe fazia lembrar um conto de fadas. Talvez porque, como Chesterton, tinha uma visão do mundo nascida dos contos de fadas...
O nevoeiro transformara-se numa leve neblina quando se aproximou do parque. As trevas tornaram-se menos frias, quase doces e um perfume de flores e terra molhada fê-lo respirar fundo. Inesperadamente, ouviu uma voz que cantava entre as árvores.
Deteve-se por instantes, sem saber o que fazer. Não se via ninguém e o mundo era um espaço nevoento que os candeeiros a gás, de longe a longe, tornavam ainda mais irreal.
Deu uns passos em frente e apercebeu-se de que a claridade do luar atravessava a folhagem das árvores, como se o jardim estivesse noutra dimensão, longe dos chuviscos e do nevoeiro de Londres.
Agora já percebia as palavras.
«I wish, I wish, but it's all in vain,
I wish I were a maid again;
But a maid again I never shall be
Till apples grow on a orange tree.»
A impressão de irrealidade acentuou-se quando viu a mulher.
Ela estava de pé, junto aos baloiços vazios, e tinha um vestido branco.
John aproximou-se e viu-a estender o braço para um baloiço que se pôs em movimento com um pequeno rangido.
«Um jardim para crianças mortas», pensou, olhando para a areia molhada."

terça-feira, 17 de abril de 2012

Lev Tolstói




"Quando entrou na sala de estar tudo lhe pareceu louco e antinatural. Ainda de manhã se levantara enérgico, com a firme decisão de acabar, de esquecer, de se proibir de pensar nela. Porém, contra a sua vontade, passou toda a manhã sem de interessar pelo trabalho, fazendo tudo para se libertar dele. O que havia pouco era importante para ele e lhe dava prazer parecia agora insignificante. Inconscientemente, tentava esquivar-se do trabalho, achava que só podia reflectir e analisar as coisas se se livrasse dele. Pôs então de lado todas as tarefas e isolou-se. Mal ficou sozinho, porém, foi vaguear pelo jardim, pela floresta. Sentia que todos os lugares por onde passava estavam emporcalhados pelas recordações, recordações que ao mesmo tempo o fascinavam. Deu por si a andar pelo jardim e a dizer a si mesmo que estava a reflectir em qualquer coisa, mas na verdade não pensava em nada, apenas esperava por ela numa ânsia louca, infundada, esperava por ela, por um qualquer milagre, percebesse como ele a desejava e aparecesse de repente, ali ou noutro sítio onde ninguém os visse, ou de noite, sem lua, e nem ela o veria, e ele tocaria o seu corpo..."

Desassossego (14)

"Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no infinito. Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair. Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contacto de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece - não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!"

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)