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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Nunca um grafite ficou tão bem numa parede (8)



Liberdade

"Ai que prazer 
Não cumprir um dever, 
Ter um livro para ler 
E não fazer! 
Ler é maçada, 
Estudar é nada. 
Sol doira 
Sem literatura 
O rio corre, bem ou mal, 
Sem edição original. 
E a brisa, essa, 
De tão naturalmente matinal, 
Como o tempo não tem pressa... 

Livros são papéis pintados com tinta. 
Estudar é uma coisa em que está indistinta 
A distinção entre nada e coisa nenhuma."

Fernando Pessoa

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Nunca um grafite ficou tão bem numa parede (6)



Sangue

"Versos 
escrevem-se 
depois de ter sofrido. 
O coração 
dita-os apressadamente. 
E a mão tremente 
quer fixar no papel os sons dispersos... 

É só com sangue que se escrevem versos." 

Saúl Dias, in Sangue


*(a cidade por vezes consegue ser bela)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Nunca um grafite ficou tão bem numa parede (4)


Escrevias pela Noite Fora


"Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava 
o que ia ficando nas pausas entre cada 
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas, 
faz de conta que não sei as coisas que não queres 
que saiba, acabei por te pensar com crianças 
à volta. Agora há prédios onde havia 
laranjeiras e romãs no chão e as palavras 
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua 
que foi comum, o quarto estreito. Um livro 
é suficiente neste passeio. Quando não escreves 
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio 
é maior. Decerto te digo o que penso 
baixando a cabeça e tu respondes sempre 
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso 
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria 
prender-te, tornar a perder-te, achar-te 
assim por acaso no meu dia livre a meio 
da semana. Mantêm-se as causas iguais 
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina 
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono 
custa. Porque estou contigo e me deixas 
a tua imagem passa pelas noites sem sono, 
está aqui a cadeira em que te sentaste 
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te 
vida menos igual, outras iguais obrigações. 
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal."

Helder Moura Pereira

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Nunca um grafite ficou tão bem numa parede (2)




Movimento"Se tu és a égua de âmbar 
                  eu sou o caminho de sangue 
Se tu és o primeiro nevão 
                  eu sou quem acende a fogueira da madrugada 
Se tu és a torre da noite 
                  eu sou o cravo ardendo em tua fronte 
Se tu és a maré matutina 
                  eu sou o grito do primeiro pássaro 
Se tu és a cesta de laranjas 
                  eu sou o punhal de sol 
Se tu és o altar de pedra 
                  eu sou a mão sacrílega 
Se tu és a terra deitada 
                  eu sou a cana verde 
Se tu és o salto do vento 
                  eu sou o fogo oculto 
Se tu és a boca da água 
                  eu sou a boca do musgo 
Se tu és o bosque das nuvens 
                  eu sou o machado que as corta 
Se tu és a cidade profunda 
                  eu sou a chuva da consagração 

Se tu és a montanha amarela 
                  eu sou os braços vermelhos do líquen 
Se tu és o sol que se levanta 
                  eu sou o caminho de sangue" 

Octavio Paz

terça-feira, 3 de maio de 2011

Nunca um grafite ficou tão bem numa parede




Nos teus olhos altamente perigosos 
vigora ainda o mais rigoroso amor 
a luz dos ombros pura e a sombra 
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo 
à roda em que apodreço 
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila 
quase medita
e avança mugindo pelo túnel 
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira 
onde passo o dia burocrático 
o dia-a-dia da miséria 
que sobe aos olhos vem às mãos 
aos sorrisos
ao amor mal soletrado 
à estupidez ao desespero sem boca 
ao medo perfilado 
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca 
do modo funcionário de viver 

Não podias ficar nesta casa comigo em
trânsito mortal até ao dia sórdido 
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa 
puríssima da madrugada 
mas da miséria de uma noite gerada 
por um dia igual 

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão 
a esta pequena dor à portuguesa 
tão mansa quase vegetal 

Mas tu não mereces esta cidade não mereces 
esta roda de náusea em que giramos 
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual 
esta nossa razão absurda de ser 

Não, tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente 
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio 
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia 
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal 

Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura por ti 

Um adeus português, Alexandre O'Neill