terça-feira, 6 de setembro de 2011

Wake me up ‘cause I’m dreaming

Kazuo Ishiguro


"Na manhã em que avistei Tony Gardner sentado na esplanada entre turistas, a Primavera tinha acabado de chegar a Veneza. Tínhamos completado a nossa primeira semana de trabalho na piazza - um verdadeiro alívio, deixem-me que lhes diga, depois de todas aquelas horas a tocar no ar abafadiço das traseiras do café e a atrapalhar o trânsito dos clientes que queriam usar as escadas. A manhã estava ventosa e a nossa tenda, novinha em folha, adejava à nossa volta, mas sentíamo-nos um pouco mais frescos e animados, e creio que este estado de espírito se reflectia na nossa música. 
Mas olhem para mim, a falar como se fosse um membro efectivo de uma orquestra. Na realidade, sou apenas um dos "ciganos" (é assim que os outros músicos nos chamam), um desses tipos que circulam pela praça, a ajudar esta ou aquela das três orquestras permanentes."

Desassossego

 Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.
     Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência... Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui, eu, assim!...


Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Elias Canetti


"Às seis em ponto da manhã, o professor levantava-se do seu sofá-cama. Vestir-se e lavar-se era questão de pouco tempo. Para a noite, antes de se deitar, ela arranjava-lhe o divã e empurrava a mesita-lavatório, que tinha rodas, até ao centro do escritório. Podia ficar ali toda a noite. Um biombo com quatro bastidores, pintado por fora com caracteres estranhos, encontrava-se instalado de tal forma que lhe poupava o lamentável espectáculo. Kien não podia suportar os móveis. Inventara o lavatório com rodas-, como ele próprio lhe chamava, para que o repugnante artefacto desaparecesse mais depressa da sua vista mal ele se tivesse servido dele. Às seis e um quarto abria a porta e empurrava com força o lavatório rolante: o impulso fazia-o rodar pelo corredor até embater violentamente contra a parede, junto à porta da cozinha. Teresa esperava-o ali; o seu quartito era contíguo. Abria a porta e gritava-lhe: - Levantado? - Contudo, ele não respondia e voltava a fechar-se por dentro. Depois ficava em casa até às sete. O que fazia ele naquele intervalo de tempo? Mistério! O resto do tempo passava-o sentado à sua secretária, a trabalhar.
A enorme secretária, escura e pesada, estava cheia até cima de manuscritos e, ainda por cima, carregada de livros. Se alguém mexesse, ainda que com as máximas cautelas, em qualquer das suas gavetas, ela deixava escapar um silvo agudo."

Just because you've forgotten That don't mean you're forgiven


domingo, 4 de setembro de 2011

Pedro S. Martins


"Um grito
anuncia
a envolvência


de todos os sentidos
na causa. Danças a valsa
lenta
da epilepsia
sem par. E, tal como
o O'Neill inaugurou a palavra amigo


mal te conheceu, tu trespassas
idas involuntárias


a momentos e lugares
passados,
regressando


sempre a este poema."

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Telhados de Vidro (7)


Este Choro Que Arranha e Lava


2
"Era assim que agora lhe saíam as palavras. Como pedras das mãos espantadas. Como gritos, como facas subitamente desferidas contra a página onde se calavam. Longe ia o tempo dos ofícios desesperados. Longe ia o tempo também das crenças iluminadas. As palavras, essas que sem querer continuava a escrever, já não sabia procurá-las, chamar por elas, vagarosamente prendê-las no seu redil. E era sem que o esperasse mais feliz assim. Lábios nos lábios com a forma da sua boca fechada. 


3
"Toda a vida tentara entender a vida, vivê-la como ideia que pudesse pensar. Só agora percebia que a vida era outra realidade. Uma brisa inesperada na face. Uma areia encravada sob a pálpebra. Nada que alguma vez tivesse pensado. Esta lágrima. Este choro que arranha e lava."


Jorge Roque




*Telhados de Vidro nº12 da (fabulosa) Averno

Like the leaf clings to the tree


Fernando Pessoa

Chove ? Nenhuma Chuva Cai...Chove? Nenhuma chuva cai... 
Então onde é que eu sinto um dia 
Em que ruído da chuva atrai 
A minha inútil agonia ? 

Onde é que chove, que eu o ouço? 
Onde é que é triste, ó claro céu? 
Eu quero sorrir-te, e não posso, 
Ó céu azul, chamar-te meu... 

E o escuro ruído da chuva 
É constante em meu pensamento. 
Meu ser é a invisível curva 
Traçada pelo som do vento... 

E eis que ante o sol e o azul do dia, 
Como se a hora me estorvasse, 
Eu sofro... E a luz e a sua alegria 
Cai aos meus pés como um disfarce. 

Ah, na minha alma sempre chove. 
Há sempre escuro dentro de mim. 
Se escuro, alguém dentro de mim ouve 
A chuva, como a voz de um fim... 

Os céus da tua face, e os derradeiros 
Tons do poente segredam nas arcadas... 

No claustro sequestrando a lucidez 
Um espasmo apagado em ódio à ânsia 
Põe dias de ilhas vistas do convés 

No meu cansaço perdido entre os gelos, 
E a cor do outono é um funeral de apelos 
Pela estrada da minha dissonância... 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Não pretendo viver em vão


José Ángel Cilleruelo



"Nem sei porquê de vez em quando desço
às plataformas, sento-me e olho
como um viajante o grande relógio
e esses painéis nos quais às cidades
se dá o nome de «destino». Levo
um jornal no braço embora prefira
deixar que o meu olhar recrie mapas
com a gente que pouco a pouco entra,
se amontoa e olha o grande relógio:
breve cartografia do desejo
efémero. A agitação do ar
diz que vem; quando parte, já no túnel,
a luz rubra do último vagão
sei não estar a arruinar-me a vida."


*Da (fabulosa) Averno

Iris Murdoch (3)


"Só me lembro de, a seguir, estarmos no Mercado de Convent Garden a tomar café. Há lá um quiosque que abre de manhã cedo para os carregadores, mas pareceu-me que éramos os únicos clientes. Creio que estávamos em pleno dia há algum tempo. Estávamos naquela parte do mercado dedicado às flores. Olhando em redor e vendo muitas rosas, lembrei-me imediatamente de Anna. Resolvi levar-lhe umas flores nessa mesma manhã e disse-o a Dave. Vagueámos por uma avenida de flores metidas em grades. Havia tão poucas pessoas ali e tantas flores, que nos pareceu muito natural pegarmos nelas. Passei entre muralhas de rosas com longos caules ainda húmidas com o orvalho da noite e fiz um ramo de brancas, cor-de-rosa e amarelo-açafrão. Numa esquina encontrei Dave carregado de peónias brancas em botão com uma leve coloração vermelha no cimo. juntámos todas estas flores numa braçada. Como não havia qualquer motivo para ali pararmos, pilhámos caixas de madeira cheias de violetas e anémonas e atafulhámos os bolsos com amores-perfeitos até ensoparmos as mangas e ficarmos quase sufocados pelo pólen."

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sentir


Patrick Suskind


"Um pânico de morte: é assim, sem dúvida, como na hora teria descrito este momento, mas tal não correspondia à verdade, pois o medo apenas surgira mais tarde. Tratava-se antes de uma estupefacção de morte.
Durante uns cinco, talvez dez segundos - a nível pessoal pareceram-lhe eternos -, manteve-se com a mão na maçaneta, o pé levantado para dar o primeiro passo, como se tivesse ficado na ombreira da porta, sem poder avançar nem recuar. Seguiu-se um pequeno movimento. Fosse porque a pomba mudou de apoio de uma pata para a outra ou porque se sacudiu um pouco, a verdade é que de qualquer maneira um leve estremecimento lhe percorreu o corpo e ao mesmo tempo duas pálpebras se fecharam com um ruído seco sobre o olho, uma por baixo e outra por cima, sem que se tratassem realmente de verdadeiras pálpebras mas antes de quaisquer batentes em borracha e que engoliram o olho como dois lábios surgidos do nada. Por um momento desapareceu. E só então é que o medo assaltou Jonathan e lhe pôs os cabelos em pé."

domingo, 21 de agosto de 2011

A livreira (9)


Hoje percebi porque cantam os pássaros. 
A livreira não encontra forma de explicar a experiência que teve.
E digo que não existem palavras, frases nem livros que possam descrever algo assim. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Gao Xingjian


O templo


"Nadávamos numa felicidade perfeita, no desejo, no amor louco, na ternura e na doçura da viagem de núpcias que se seguira ao nosso casamento, embora só tivéssemos quinze dias de férias: dez dias concedidos para a ocasião e uma semana de férias normais. O casamento é uma questão para toda a vida, para nós nada poderia ser mais importante, como poderíamos não ter pedido alguns dias suplementares? Mas o meu chefe, tão avarento, regateava quase ao centavo cada vez que alguém pedia férias, era duro. Inicialmente, na autorização estava assinalada uma dispensa de duas semanas, mas ele transformara-a numa semana, e depois dissera-me um pouco embaraçado: "Espero que possa voltar a tempo". - "Certamente, certamente, respondera eu, o nosso pequeno salário não nos permitirá demorar a viagem." Então ele acabou por assinar de uma penada. As férias foram concedidas.
A partir daí deixava de ser solteiro. Tinha uma família. De facto tinha combinado esta viagem com Fangfang há muito tempo. A partir de agora, constituíamos uma família, já não poderia, ao receber o meu salário no princípio do mês, ir ao restaurante, convidar amigos, gastar à vontade e chegar ao fim do mês sem tostão, sem poder sequer comprar um maço de cigarros, obrigado a procurar nas algibeiras ou a virar gavetas para desencantar alguns trocos. É melhor nem falar nisso. Dizia que estávamos felizes. De facto, a felicidade é bastante rara na nossa vida tão curta."

domingo, 7 de agosto de 2011

And I think my head is burning And in a way I'm yearning


Milan Kundera


"Oh, como se passara tudo ao contrário do que ela quisera! Sonhara morrer misteriosamente. Fizera tudo para que ninguém pudesse saber se a sua morte fora um acidente ou suicídio. Quisera enviar-lhe a sua morte como sinal secreto, um sinal de amor vindo do além, só para ele compreensível. Fora tudo bem previsto excepto, talvez, o número de soníferos, excepto, talvez, a temperatura que, enquanto ela adormecia, subira. Pensara que o gelo a ia mergulhar no sono e na morte, mas o sono era demasiado fraco; abrira os olhos e vira o céu negro.
Os dois céus tinham dividido a sua vida em duas partes: o céu azul, o céu negro. Era sob este outro céu que ia em direcção à sua morte, a sua verdadeira morte, a morte longínqua e trivial da velhice. 
E ele? Ele vivia sob um céu que para ela não existia."

A livreira (8)

No meio do seu mundo de livros, a livreira, procura respostas.
As respostas não surgem. O tempo não pára, segue célere. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

I will rest my stupid head

Julio Ramón Ribeyro



89


"Durante dez anos vivi emancipado do sentido da propriedade, da profissão, da família, do domicílio, e viajei pelo mundo com uma mala cheia de livros, uma máquina de escrever e um gira-discos portátil. Mas era vulnerável e cedi a sortilégios tão antigos como a mulher, o lar, o trabalho, os bens. Foi assim que criei raízes, escolhi um lugar, o ocupei e comecei a povoá-lo de objectos e presenças. Primeiro de alguém a quem amar, depois do que este ser desejasse, em seguida dos adereços: uma cama, uma cadeira, um quadro, um filho. Mas tratou-se apenas do princípio, pois todos começamos por ser recolectores, tornamo-nos coleccionadores e acabamos como mais um elo da cadeia infinita de consumidores. De modo que, estando já velhos e gastos para o desfrute, vemo-nos circunscritos pelas coisas. Livros que não queremos ler, discos que não temos tempo de ouvir, quadros que não nos apetece contemplar, vinhos que nos fazem mal, cigarros que estamos proibidos de fumar, mulheres que nos falta a força para amar, recordações a que não queremos voltar, amigos para quem não temos perguntas e experiências que não há maneira de aproveitar. O tardio, o supérfluo  o que antes era cobiçado, amontoa-se em torno de nós, organiza-se naquilo a que poderíamos chamar de casa, mas tão-só quando já estamos a despedir-nos de tudo, pois esta vida cumulativa acaba por se edificar no umbral da nossa morte."

João Luís Barreto Guimarães (2)

1 de Agosto

"Escolhi um lugar à sombra nas mesas da esplanada. Uma pastilha elástica secou sob o tampo da mesa.
Não apetece escrever. A sombra resiste ao sol que vem lentamente a crescer, acendendo-a imperceptível centímetro após centímetro. Eu, que escolhera lugar escondido do sol de Agosto, brevemente me verei sem ter que me mudar, molhado pelo calor do Verão.
Talvez uma ideia então, ilumine esta caneta a tempo de salvar o poema." 

in Lugares Comuns 
Mariposa Azual

domingo, 31 de julho de 2011

John Cheever


Camponês de Verão


"É verdade, mesmo em relação aos melhores de entre nós, que se um observador nos surpreender a entrar num comboio num apeadeiro; se reparar na nossa cara, riscada pela ansiedade da determinação; se  considerar a nossa bagagem, a nossa indumentária, e olhar pela janela a ver quem nos conduziu à estação; se escutar as palavras duras ou ternas que dizemos se estamos com a nossa família ou reparar na maneira como pomos a mala na bagageira, verificamos a posição da carteira, o nosso molho de chaves, e como limpamos o suor da nuca, poderá colher uma imagem mais vasta das nossas vidas do que a maior parte de nós quereria." 

A feeling that will never die

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Gastão Cruz



Alteração

                     1
"Já então me faltava o sentido
do mundo já tudo me faltava ou
tudo havia já então a esperança
permitia o cansaço ou nada
permitia já nos braços
de novo me faltava ou tinha tudo o
que a dor prometia

Já nos braços havia o sentido
a tristeza havia a tarde
a noite e tudo o mais que o tempo
dava faltava-me o sentido
da tristeza tinha o tempo
e o medo da esperança que
o cansaço permitia

                     2
Está tudo como antes até esta
perfeita liberdade de perdermos
com a vinda da noite o que
ainda tivermos a vida
por exemplo se tudo pois
assim puder perder-se

Está tudo como antes até este
medo intacto de tudo
se perder até que a névoa a
neve a noite por exemplo
suspendam o que ainda
houver por suspender

Está tudo como antes até esta
completa suspensão da noite
por exemplo o desejo o prazer
a solidão por vezes a esperança
dos nervos está tudo como antes
até anoitecer"

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Rui Manuel Amaral (2)


Uma pessoa feliz


"Innocentius Prioris era, sem dúvida alguma, uma pessoa feliz. Muito feliz. Desde sempre, profundamente feliz. Por isso, esfregava as mãos e girava sobre si mesmo cantarolando velhas valsas. E enchia o peito aspirando o ar com prazer, consciente de que era iluminado por uma boa estrelinha. E abria os braços e batia com os pés no chão, e mostrava os dentes amarelos, e deitava a língua de fora, e fazia piruetas, e dava gritinhos, porque se sentia muito feliz. E adormecia satisfeito e tinha sonhos felizes, e acordava cheio de felicidade. E dava graças a Deus e a Santo Inácio, e a todos os santos, e a todas as santas pela alegria concedida. Oh, era feliz, feliz, feliz, feliz. E se multiplicássemos a sua boa fortuna por mil ainda ficaríamos longe da medida correcta da sua felicidade.
E pronto, é tudo.
Esperavam talvez que, de repente, alguma coisa conduzisse a história numa direcção totalmente diversa? Que irrompesse de algum lado um grão de areia, uma pedra, um vidrinho afiado que colocasse um ponto final em tanta felicidade? Compreendo. Mas não. Innocentius viveu e morreu feliz, muito, muito feliz. E não digo nada acerca da alegria com que foi recebido no Paraíso, por ser coisa óbvia."

terça-feira, 26 de julho de 2011

Quando uma só vida não chega para filmes assim (15)

This time it's goodbye

Miguel-Manso


Balada da Rua Damasceno Monteiro


"ardia de amor pela casa
numa confusão de silêncios ou
dizendo de outro modo


afundava-se numa líquida recordação cardíaca


ocultos pólen pólvora fósforos
a má reputação dos dedos
paixão cartografada remota
toponímia de enganos


braço a braço crescia alto
o incêndio no interior do peito
deliberado ritual de lâminas e pele
a transparente certeza
da cicatriz


mas ardia de amor pela casa soturna
silêncio dando para o saguão luz muitíssimo
extinta por sobre a larga extensão destruída


morrer, principalmente de amor, é
uma compendiosa tarefa doméstica


dentro do coração antigo
serei breve"

domingo, 24 de julho de 2011

Like Prometheus we are bound

Albert Camus


"A princípio, as pessoas tinham aceitado estarem isoladas do exterior, como teriam aceitado qualquer outro inconveniente temporário que apenas perturbasse alguns dos seus hábitos. Mas, subitamente conscientes de uma espécie de sequestro, sob a tampa do céu onde o verão começava a crepitar, sentiam confusamente que esta  reclusão lhes ameaçava toda a vida e, chegada a noite, a energia que eles recuperavam com a frescura lançava-os, por vezes, em actos de desespero.
Em primeiro lugar, e quer seja ou não efeito de uma coincidência, foi a partir desse domingo que houve na nossa cidade uma espécie de medo, bastante geral e bastante profundo, para que se pudesse suspeitar de que os nossos concidadãos começavam verdadeiramente a tomar consciência da sua situação. Sob este ponto de vista, a atmosfera da nossa cidade modificou-se um pouco. A questão, porém, é saber se, na verdade, a modificação estava na atmosfera ou nos corações."  

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Tchékhov


Os Papa-Jantares


"O velho septuagenário Mikhail Petrov Zótov, popular de condição, decrépito e solitário, acordou por causa do frio e da quebreira no corpo todo. Ainda estava escuro no quarto, mas a lamparina do ícone já não ardia. Zótov levantou a ponta da cortina e espreitou pela janela. As nuvens que cobriam o céu já começavam a esbranquiçar, o ar a tornar-se transparente - passaria das quatro, não mais.
Zótov gemeu, tossiu e encolhido de frio, saiu da cama. pelo seu costume de sempre ficou muito tempo diante do ícone, a rezar. Rezou o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, rezou por muita gente, um rol de nomes.  Havia muito que já não se recordava a quem correspondiam esses nomes, rezava só por hábito. Também por hábito, varreu o quarto e o vestíbulo e pôs a aquecer o pequeno e barrigudo samovar de cobre vermelho e quatro penas. Não tivesse Zótov estes hábitos e não saberia como preencher a velhice." 

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Raymond Guérin


"Há aqui cada número! Gente de toda a parte, e de toda a espécie! As refilonas e as cómicas. Mas eu é que não estava lá muito em forma. Sentia umas guinadas na barriga. Era uma metrite. Há meses que eu deveria ter começado a tratar-me. O médico que me viu bem mo recomendou. Aquilo ainda me ia pregar uma partida, a continuar assim. Mas eu estava sempre a adiar. Não é nada simpático, deixarmo-nos examinar. Põem-nos de cabeça para baixo e esgaravatam cá dentro com umas luvas de borracha. Além disso, sempre incomoda estar toda nua, naquela posição, ao pé de um homem que a gente não sabe quem é! Enfim, não sei quando é que irei continuar a tratar-me. Não é aqui que vou fazer as irrigações. Há lá um irrigador, na enfermaria. mas toda a gente se serviu dele e isso a mim mete-me nojo. Ir no fim de toda a gente, não, obrigada!" 

560 (9)

e. e. Cummings

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorrisoque o meu coração esteja sempre aberto às pequenas 
aves que são os segredos da vida 
o que quer que cantem é melhor do que conhecer 
e se os homens não as ouvem estão velhos 

que o meu pensamento caminhe pelo faminto 
e destemido e sedento e servil 
e mesmo que seja domingo que eu me engane 
pois sempre que os homens têm razão não são jovens 

e que eu não faça nada de útil 
e te ame muito mais do que verdadeiramente 
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse 
chamar a si todo o céu com um sorriso 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

João Luís Barreto Guimarães


21 de Dezembro


"Abro o caderno e escrevo que estou a escrever no caderno.
Por vezes a escrita dói, a tinta escorre e faz-se sangue, haver duas palavras amigas a pairar sobre o poema e ao soar da caneta só uma poder ter lugar.
Um rosto molhado aparece acenando pelo lado da chuva. 
Gesticula a pergunta se me encontro a escrever. Sorriu, aquiescendo. Deixa ficar um adeus e avança sobre os charcos, sem se ter apercebido que fiquei a escrever sobre isso, sobre aquele gesto dele, no fundo a escrever sobre ele. 
Não tivesse tocado no vidro não teria tocado no poema."

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (15)

Contado por um amigo livreiro.
Aconteceu durante uma feira do livro.


Um cliente pede um título muito especifico. O livreiro vai buscar o livro (este é um daqueles livros que mais parece uma lista telefónica, daqueles mesmo muito grandes e grossos). Segue-se esta conversa:


Livreiro: Este livro vem com um "brinde", dá para levar para a praia e fazer de almofada. (diz num tom de brincadeira e na mais perfeita inocência)
Cliente: É? Que bom. (aproxima-se da caixa para efectuar o pagamento)
Livreiro: São x euros.
Cliente: E o brinde?
Livreiro: Brinde?
Cliente: Sim o brinde! O senhor é que disse que o livro vinha com um brinde. Uma almofada para levar para a praia! 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Boris Vian





"Colin acabava de se vestir. Ao sair do banho envolvera-se numa toalha ampla de tecido felpudo, que apenas deixava à mostra as pernas e o tronco. Tirou o vaporizador da prateleira de vidro e pulverizou com óleo fluído e odorífero os cabelos claros. O pente de âmbar repartiu a cabeleira sedosa em compridos fios cor de laranja, semelhantes aos sulcos que o agricultor brincalhão traça com o garfo na compota de damasco."

I've been with everyone and no one

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Telhados de Vidro (6)


2


"Empate a zero de todas as razões. Vitória a nada de todos os nadas. Eu morro, tu morres, ele morre. Com poesia poderia dizer: eu pouco, tu pouco, ele pouco, e no entanto, tão mais do que ousaríamos esperar (embora fosse, é claro, nada mais do que a mentira que uso para me enganar). Eu morro, tu morres, ele morre (tenho de o repetir para que o poema, ora aí está a mentira, faça sentido). Mas de algum modo, também a poesia não resolve, e eu tenho de voltar ao princípio que cada uma das minhas palavras gastou e repetir de novo: eu morro, tu morrer, ele morre. Este o verbo universal sem rosto. Esta a carne absoluta sem razão. Como queres que te diga quem vence? (Como queres que acredite que há vencedor?)"


Jorge Roque


* Telhados de Vidro nº15 da (fabulosa) Averno

quinta-feira, 14 de julho de 2011

I can feel the emptiness inside me fade and disappear

Augusto Monterroso


A boa consciência


"Existiu no centro da Selva, há muito tempo, uma extravagante família de plantas carnívoras que, com o passar do tempo, tomaram consciência do seu estranho costume, principalmente devido aos constantes rumores que o bom Zéfiro lhes trazia de todos os cantos da cidade.
Sensíveis à crítica, pouco a pouco foram ganhando repugnância à carne, até que chegou o momento em que não só a repudiaram em sentido figurado, ou seja, sexual, como por último se negaram a comê-la, a tal ponto enjoadas que a sua simples visão lhes causava náuseas.
Então decidiram tornar-se vegetarianas.
A partir desse dia comem-se unicamente umas às outras e vivem tranquilas, esquecidas do seu passado infame."