quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Al Berto (15)

"regressei com a água das grandes catástrofes, quebrei portas de cidades
muradas. habitei no vento das pestes nocturnas, corri pelo coração das pedras
luminescentes e sonhei, inundei o olhar das estátuas com florescências de 
sangue e desapareci ao amanhecer.
fiquei deitado, talvez doente, junto à lareira. o lodo espesso da febre agarrado
ao peito. escrevi sem parar e nunca mais falei dele, nem mesmo quando os pássaros
cantaram ao confundirem a luz da lâmpada com a claridade limpa da alba.
lembro-me que era quase sempre noite. esperei que a maré cerzisse o sal
aos punhos acordados daquele que escreve e regressei. a noite persistia na
superfície dos espelhos, limpava definitivamente o fingimento das palavras.
hoje, muito pouco resta das casas caiadas de fresco. possuímos pouca
coisa, o indispensável para a travessia do deserto.
a espera, a espera de mim mesmo acabara. estou agora vivo na escrita que
me define, me evoca, e me esquece, mas soaria a falso o que tenho a dizer
sobre a morte, calo-me..."

in O Medo, Assírio & Alvim

José Tolentino Mendonça (6)

Grafito

"O poema pode conter:
coisas certas, coisas incorrectas, venenos para
manter fora do alcance
excursões campestres, falhas de memória
uma bicicleta caída junto às primeiras paixões
sombrias
Pode conter Le matin, Le midi, Le soir
audácias típicas de um visionário
uma guerra civil
um disco dos Smiths
correntes marítimas em vez de correntes literárias"

in O Viajante Sem Sono, Assírio & Alvim 

*to J.

Clouds seem to melt away


Nuno Júdice (10)

Poema

"Escrevo na linha dupla das estações:
o outono, o inverno; e ainda
a primavera, ou o verão - quando
o azul cai, ao fim da tarde,
ou não chega a nascer
das grandes névoas matinais.

Sei que, no fundo do poema,
um sentimento se arrasta;
e coincide com o tempo
que o inspirou, com esse lodo
de emoções que se juntou
na alma, submergindo na sua
monotonia o impulso divino.

Não perco tempo a ver
as árvores, os arbustos que se
enchem de flor com o primeiro
sol, ou as pedras molhadas como
dorsos de antigos animais. Volto
para mim próprio como quem
regressa de viagem; e não 
estava à minha espera,

intruso, visita
indesejável na minha vida."

in Poesia Reunida, Dom Quixote 

Renata Correia Botelho (5)


"foi então nessa noite
que amanhecemos, a nossa
nudez delatada pela cotovia

e a janela a abrir-se
para os primeiros ventos.

vem, meu amor, traz contigo lilases.
segue as pistas que te deixei
entre as pedras da memória.

vem guardar-nos do inverno"

in Um Circo no Nevoeiro, Averno

José Amaro Dionísio

Final

"Sente o coração bater contra o rio onde o rio já não existe. Que pode
fazer um homem que desloca a fronteira nos seus passos? São sons
que provocam corredores sem saída, e batem no ar, e roem, e voltam
para trás, e recomeçam, e por cima há um odor a cadáver no céu
em ruínas. Sim, nem de outrora um pouco de vida. É um esplendor
de luto, ponto final. E isso paga-se todos os dias, mesmo quando o
dia todo se gasta a fugir disso. Pelo caminho taberna a taberna há 
sempre uma toalha ferida pelo exílio, e a proximidade das vozes só
serve para esconder a manhã inútil."

in Telhados de Vidro nº9, Averno

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (31)

(a minha alma ainda está parva)

Cliente: Tem As palavras que nunca te direi do Almeida Garrett?
Eu: (... !!!??? como? o quê? wtf? o_O) Peço desculpa, não se importa de repetir?

A sudden sense of liberty


Tiago Araújo (6)

2.
"nos dias gelados e limpos os crepúsculos têm sido perigosos: abaixo
do horizonte tudo o que tem volume funde-se numa massa negra que
avança sobre o rio; na parte de cima a luz ganha mais cor antes de se
escapar para o espaço. o que há de sólido em nós também se torna
mais escuro com um desejo individual de extinção sem ruído no vácuo
de uma beleza indiferente aos nossos erros à nossa possível culpa ao
prazo de validade das relações humanas ao encanto quebrado pelo
foco de um candeeiro público a iluminar a face minguante do corpo a
metade que se opõe à metade do rosto que escurece."

in Telhados de Vidro nº9, Averno

Per Aage Brandt


"uma sombra sem peso desliza por uma parede,
nada a pode parar, como ninguém pode
impedir um nome ou um canto ou uma ausência
ou um contorno ou o teu rosto de existir"

in Livro da Noite, Quetzal

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

I never can sleep


*To J. ;)

Rui Miguel Ribeiro (3)


XIX - A Janela

"Rumor completo e impresso,
a morte ou a plenitude,
o mundo está além de uma fronteira.
Regressar? É essa a meta que se impõe? 
A cidade enche-se de noite
e a janela de onde olho torna-se
um ecrã que me deixa ver
os seus movimentos mais longínquos,
pequenas luzes, intermitências
de electricidade e betão sob
as formas regulares. Provas de vida
onde também me encontro.

Hoje ganhei uma nova data de aniversário"

in XX Dias, Averno

domingo, 16 de dezembro de 2012

Your chapters end so well


*to S.

José Angel Valente


El adiós

"Entró y se inclinó hasta besarla
porque de ella recibía la fuerza.

(La mujer lo miraba sin respuesta.)

Había un espejo humedecido
que imitaba la vida vagamente.
Se apretó la corbata,
el corazón,
sorbió un café desvanecido y turbio,
explicó sus proyectos
para hoy,
sus sueños para ayer y sus deseos
para nunca jamás.

(Ella lo contemplaba silenciosa.)

Habló de nuevo. Recordó la lucha
de tantos días y el amor
pasado. La vida es algo inesperado,
dijo. (Más frágiles que nunca las palabras.
Al fin calló con el silencio de ella,
se acercó hasta sus labios
y lloró simplemente sobre aquellos
labios ya para siempre sin respuesta."

in  A modo de esperanza

Did I?


*to C. thanks:)

Carta

"esmago a mão contra o papel
as letras saem devagar;
soluçadas, as palavras.

não, eu queria escrever-te,
só não me lembro é
como se faz."

You wake up in the bed you make


Inês Dias

Anywhere out of the world

"No álbum, três rostos desviam-se 
na sua agonia de borboletas
trespassadas pela memória,
e a última fotografia deixou
o tempo corroer-lhe as entranhas
até restar apenas essa babugem 
de algas à beira-mar
quando a maré de retira.

Vi a mesma cova abrir-se
na Pederneira, ao passear
o sol e o vento às costas:
rosto abandonado num túmulo
já só de areia, sem palavras.
Todos os animais pressentem
a morte, mas só o homem
sabes antes do esquecimento.

Não conheço deserto mais frio."

in Nós os Desconhecidos, Averno

Rui Pires Cabral (7)

10 Versos


"Sim, estive nessa rua
à hora incerta, de costas
para os avisos da morte

que já então me cobiçava.
Fui pequeno, confiante
tive um chapéu de palha,

aprendi a tabuada. A noite
roubou-me a voz, a sorte
deu-me estes versos, 1x10

igual a nada."

in Nós os Desconhecidos, Averno 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Al Berto (14)

Os Amigos

"no regresso encontrei aqueles 
que haviam estendido o sedento corpo 
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados 
lentamente 
moldavam o rosto lívido como um osso 
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência" 

in O Medo, Assírio e Alvim