segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Sun shine sun



*estes embalos na alma... To S. :)

Anuncio de Jornal (2)


"Perdeu-se:

Livreira; não sabe onde se esqueceu de si mesma.
É provável que tenha deixado partes por aqui e por ali.
Perdeu a alma a semana passada (esta com certeza só voltará quando a "casa" estiver unida), e com ela centenas de livros. A poesia que unia como cola os membros inferiores e superiores ficou gasta e talvez estes tenham caído em esquinas insuspeitas.
Eventualmente a cabeça ficou num banco de um café triste, perdida no meio de conversas sem fio de meada.
O coração ficou esquecido num táxi tardio, dado em troca de moedas que faltavam.
A roupa sendo apenas um adereço, sem corpo, deixou-se ficar pelo chão de ruas gastas.
Existe um ligeiro pressentimento que os olhos tenham ficado no alto de uma rocha a contemplar um céu sem luar.
O reconhecimento de qualquer pedaço da livreira é imediato, tem aspecto de papel amarelecido, já gasto do uso que dá no manuseio e na arte de amar letras e gentes.

A quem encontrar? Devolver toda e qualquer parte na seguinte morada: perto ou longe de lugar nenhum. "

MP

Just silence


Helder Moura Pereira (8)


"Preciso amar-te por isso digo fica esta
noite, depois os dias do nosso trabalho
farão luz sobre o tempo. Tenho na cabeça
a tempestade, tantas vezes recordo aquele
corpo que não sabia do prazer que me dava,
tantas vezes acordo e o seu nome quase 
me escapa dos lábios, reconheço as feridas,
os golpes todos, se lembro é porque quero
esquecer. Fica esta noite, mais outra, o
tempo que demora a cumprir a decisão de
amar-te. E vamos fazendo o curso dos dias
com algumas opiniões parecidas e ódios ás
coisas culpadas. A gente que diz coisas 
de silencio, os andaimes da cidade tapando
saídas, as horas certas quando dizemos
adeus. E que sentido têm estas lágrimas?
Eu vivo neste ano e já me esqueço de mim,
apenas vou precisar amar-te, depressa

Venho de distribuir tarefas e de ouvir ferro
contra ferro, o cheiro a tinta, barcos em
areia artificial, útil mentira que me conto.
Regresso à cidade de onde nunca soube partir,
pelo caminho passam aos olhos os lugares de
jogar á bola, ao berlinde, o quartel a que
conseguiram que fugisse. Regresso e não sei
se me esperam, alguma vez acreditei na
felicidade? Não voltarei a falhar, os pesadelos
que este corpo agita são meus também, as suas
palavras têm menos peso que o murmurio do 
prazer, vou dizer-lhe isto, deves acreditar,
trago mais um disco, vamos a outra exposição,
vamos dar as mãos junto ao mar. Não gosto
da tarefa de ajudar a esquecer, preciso tanto
amar-te, vou ajudar a esquecer."

domingo, 9 de dezembro de 2012

And smoke in my hair


João Ricardo Lopes (5)


JÁ SABES ONDE ME ENCONTRAR 

"já sabes onde me encontrar:
no sítio onde o génio e o imbecil trocam de posição e
às vezes pelejam, como dois garotos no recreio 

terei nas mãos os mesmos dedos, mais queimados pelo cigarro.
usarei o casaco elegante que me ofereceste, quando
não tinha outro 

prometo não dececionar-te:
repetirei a história de Tristão e Isolda de que tanto gostas, ou
a triste sina de algum novo compositor, ou
alguma coscuvilhice erudita entre as nove filhas de Mnemósine 

não me peças explicações nem me dês conselhos:
sempre detestei a verdade 

prefiro que abras as janelas para o sol entrar, ou
me tragas a quieta poesia de um ramo de malmequeres 

não sou ambicioso: sabes que nunca fui.
basta-me o amor sincero, a beleza de Bach e o teu corpo
no lugar  onde (por muitas fogueiras que ardam) jamais consegui
aquecer-me"

*"roubado" aqui

Diogo Vaz Pinto (4)

«O esperar de certos seres
      e de certas horas
que a sua juventude lhe seja devolvida»
  Julien Gracq, A costa das Sistes 

"Tive o tempo que quis e mais algum
para me tornar sério. Não fui por aí.
A família tinha a sua conta, e eu
sempre me fodi com números. Nunca
me deu para fechar linhas, ser firme,
ou manter a formação. Gosto de variar
a continência. Olhei muito em volta,
tudo piscava um olho. Não sei
governar-me, não sei com quantos
paus (...) nem sei fazer-me à vida,
antes faço que não é comigo. Mas sei
o que é amanhecer. Tenho colecções 
sem importância nenhuma, frágeis,
simples. O tinir da primeira luz
nos galhos, logo a gritaria dos pássaros
cavando a alvorada em roucas rajadas.
Uma aragem presa absorvendo
o aroma sumarento e entontecedor
de uns frutos caídos. A moleza e essa
sombra que me caiu às costas escorregando
de outro mundo"

in Bastardo, Averno

sábado, 8 de dezembro de 2012

I once was lost


Al Berto (13)

"por vezes consigo acordar
sacio a sede com a tua sombra para que nada me persiga
teço o casulo de cocaína escondo-me no mel da língua
lembro-me... fomos dois amigos e um cão sem nome
percorrendo a estelar noite doutros corpos

mas já me doem as veias quando te chamo

o coração oxigenado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém

ficou-me este corpo sem tempo fotografado à sombra da casa
onde a memória se quebra com os objectos e amarelece no papel
pouco ou nada me lembro de mim
em tempos escrevi um diário perdido numa mudança de casa
continuo a monologar com o medo a visão breve destes ossos
suspensos no fulcro da noite por um fio de sal

partir de novo seria tudo esquecer
mesmo a ave que de manhã vem dar asa à boca recente do sonho
mas decidi ficar aqui a olhar sem paixão o lixo dos espelhos
onde a vida e os barcos se cobrem de lodo


pernoito neste corpo magro espero a catástrofe
basta manter-me imóvel e olhar o que fui na fotografia
não... não voltarei a suicidar-me
pelo menos esta noite estou longe de desejar a eternidade"

in O Medo, Assírio & Alvim 


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

The one that makes me laugh


Luís Quintais (2)


"És bela quando escondes
a tua tristeza
revelando-a de um golpe só,
como se um trovão
emudecesse a eufonia
do inverno.

Sem aviso,
feres a elegância do tempo,
o irremediável
de cada vida.

Contemplas o que me atinge,
a casa abandonada,
o fragor do que rejeitaste.

Entre os poros da luz
vejo o desenho da memória
que ensurdece, as mãos
aniquiladas de um estranho,
os irmãos adormecidos
na câmara vegetal do teu sono,
o que deixaste para trás
e dói no momento parado.

Abres o gesto, o tempo
desfila outra vez,
o portão cede, e só posso
imaginar o que de ti não volta"

in Verso Antigo, Cotovia

*to JC

Luís Quintais

A Invenção do Outono

"A débil linha, o que te prende
à escrita, a tinta sobre o papel,
o delta que os dias descrevem.
O que dirás ainda do outono?
Cada estação despede-se, é vê-la
fugir como se não quisesse voltar.
Da tua célebre memória, a de
elefante, haverias de roubar a cinza
do que balbucia no outono. Haverias
de roubar o seu perfil, a sua substância,
o que não esquece. Da tua célebre memória,
haverias de recuperar a cinza
sobre a árvore, a débil linha
que te prende."

in Verso Antigo, Cotovia

Nobody's lost but nobody wins


Inês Dias e Diogo Vaz Pinto (4)

[Quatro]

"Já não acredito em margens. E para quê levantar a cabeça, quando o céu está podre e não me sobra alma para cartografar a luz que se passeia, melancólica, pelas moradas antigas nos postais dos mares do sul. Vivemos de coordenadas fixas: não partimos sem destino, não buscamos sem gps, não nos perdemos. Também não nos encontramos. O tempo, hoje, não dura sequer uma estação. Repete-se (revende-se?) em décimas de segundo, recordes, episódios, temporadas, turnos, contratos, gerações, moedas que caem na ranhura do hábito em troca da canção errada. Vendi as lembranças já não me lembro a quem, cortaram os subsídios para o presente, ando a pagar os sonhos a prestações. Mas amo quem me ofusca e acentua depois a escuridão dentro de mim - uma espécie de fogo a crédito. Roubado."

in Revista Cão Celeste n.º2

Tiago Araújo (5)


17. (interior/exterior)

"respiro, bebo. o sol que baixa projecta o meu fantasma na porta fechada. sobre a mesa amontoam-se os planos de uma outra casa, de outras cidades, e já é tarde. acendem-se os candeeiros públicos, a escuridão entranha-se na mesa e nos papéis com os mapas das viagens. é difícil distinguir, enquanto o fantasma de SJ se junta ao meu, onde terminam os dedos e começam os cabelos. agora estamos seguros, num espaço sem centros exteriores a nós próprios, à deriva na noite. ignoramos que tudo à nossa volta se move, em todas as direcções. e no entanto, sem deixarmos nunca de acreditar no livre arbítrio, mesmo que apenas como um último recurso."

in Livre Arbítrio, Averno 

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (29)

...

Cliente: Olhe, eu já é a segunda vez que venho cá, ou seja, estou farto de cá vir. Encomendei um livro, e nunca mais me disseram nada!!
Eu: Lamento imenso, vou verificar então o que se passa. (pesquiso no computador, pedido feito à 6 dias, tempo de espera mínima 15) De facto, tem aqui o seu pedido...
Cliente: Que ele está aí sei eu! Também não me pode fazer nada não é! Quem faz a encomenda dos livros aqui, é o Pai Natal? 
Eu: ...
Cliente: (sai disparado loja fora)
Eu: (logo agora que eu ia dizer que as encomendas eram tratadas pelas renas?)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

José Ángel Cilleruelo (4)

"Vivi seu amor com igual paixão.
Gozei de todos os abraços; jogos
que só tem prazer no maior segredo
quem os sonha. Não foram luz do sonho
no buraco que dava acesso ao túnel
de tanta intimidade. Senti beijos
na minha pele, palavras ao ouvido,
o curso do seu tempo sobre o tempo.
Tal ácido escuro, ruim, gravou-me
na memória sombras de água-forte:
o cheiro que não percebi, o nome
que não me nomeia. Ambos, agora,
é possível que não recordem nada.
Eu sim: o que senti foi mais real."

in antologia, Averno

And tears are for falling



*e só apetece... chorar

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Anuncio de Jornal


"Troco e/ou dou:

Coração, eventualmente tornado papel depois de tantos anos em contacto com este. Poderá, eventualmente, ter um aspecto de livro amolgado por demasiado uso.
(Pode ser possível encontrar algum pó.)
Certas feridas estão ainda frescas, com suturas coloridas, mas delicadamente cerzidas. 
Poderão ver-se quer do lado esquerdo, quer do lado direito, algumas leves cicatrizes de anos passados.
Uns dias parece jovem, mas outros pesa tanto como as raízes de uma árvore centenária. 
Tirando o arritmar de vez em quando, funciona na perfeição.
Existe uma ligeira incerteza quanto ao completo funcionamento da corrente sanguínea. 
É amplo, arejado e ainda cabem muitas vivências e experiências.
Motivo da troca e/ou doação? A portadora tem medo que de tanto bater, ele pare."

Why can't we overcome this wall?


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (28)

A livreira, também mete a pata na poça...

Eu: (raisparta este livro, detesto isto, onde é que o vou enfiar?)
Cliente: Boa noite! Ando à procura de um livro, o título é Silêncio.
Eu: (sorriso luminoso) O da Becca Fitzpatrick? Tenho-o mesmo aqui. (e passo o livro com grande alívio e satisfação para a mão do cliente)
Cliente: (fica a olhar para o livro... de seguida recebo um olhar que fuzilaria um batalhão de livreiros) Por acaso, o que procuro, é mesmo um livro de Psicologia...
Eu: (e um buraco para eu me enfiar?)

My eyes are closed


Jorge Roque (10)


"Arranja uma bola, mesmo pequena, com a forma do mundo, escolhe uma direcção e caminha sobre ela em linha a direito. Se te faltar o equilíbrio ou o tamanho da bola não o permitir, podes fazê-lo com os dedos em vez das pernas. Passarás várias vezes pelo lugar de onde partiste, jamais encontrarás fim ao caminho. Última sugestão: pára de cavar, lavrar, semear. 
Na terra que cultivas apenas crescem desertos."

in Telhados de Vidro n.º6, Averno 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

You look me In the eye directly


António Ramos Rosa (4)


Estar só é estar no íntimo do mundo

"Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo"

in Poemas Inéditos 

domingo, 2 de dezembro de 2012

José Ángel Cilleruelo (3)

"Que será de mim quando findar
o sortilégio que me enamora?"

in antologia, Averno

Manuel Gusmão

"O crepúsculo do entardecer
sobre o eixo do tempo e sobre si mesmo rodando
abria a venenosa vertigem, a sua grande flor azul

e negra, esta flor do luto fechando-se sobre a terra.

É então que tendo talvez mudado a mão das águas
ou interrompido o tempo a mão do mundo
se terá lançado contra a solidão a voz sem mais - 

era a noite nascente: a noite que apenas nascia

-

Livre é o dom nas mãos do mundo: a alegria; nunca
saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
que o teu corpo e as suas várias almas conhecem;

Mas para que um última vez possas dançar
Podemos, sim, podemos pôr aqui o fogo
e a árvore da música:

a vibração do mundo quando não estamos a olhar"

in Telhados de Vidro n.º6, Averno

I have questions that lead to more questions



*Thanks S. :)
... to C.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Desassossego (18)


 "A minha imagem, tal qual eu a via nos espelhos, anda sempre ao colo da minha alma. Eu não podia ser senão curvo e débil como sou, mesmo nos meus pensamentos.
Tudo em mim é de um príncipe de cromo colado no álbum velho de uma criancinha que morreu sempre há muito tempo.
Amar-me é ter pena de mim. Um dia, lá para o fim do futuro, alguém escreverá sobre mim um poema, e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino."

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

And I wonder, should I offer you a chair?


Ana Teresa Pereira (8)


"- Quer dizer que o amor é a procura de uma imagem.
 - Não sei - disse Tom - o que amamos quando amamos alguém.
Levantou-se, encostou-se à porta da varanda, ficou a olhar para fora. Parecia muito magra, quase frágil, no vestido cinzento.
Tom aproximou-se, tocou-lhe ao de leve no ombro nu, sem que ela reagisse.
Ele murmurou:
 - Eu só quero alguém entre mim e o escuro. Entre mim e a noite."

Tiago Araújo (4)

"somos iguais em todas as metamorfoses, percorremos os mesmos lugares. a cidade cansou-nos gota a gota de um anestésico perfeito e não queremos partir. estamos suspensos numa teia tecida com cabos de aço que nos ligam a pessoas e edifícios. deslocamo-nos pela tensão de uns cabos sobre outros, num ritmo não natural, como o de uma marioneta que se cria a si própria. estamos sentados na cama, com a mala vazia dos objectos espalhados pelo quarto, a sensação de que não chegaremos a partir e de que já só podemos ser diferentes noutro lugar."

in Livre Arbítrio, Averno

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Al Berto (12)


"sentado, à varanda do mundo, morro com todas as coisas que morrem. vivo com todas as coisas que vivem e já não sou eu que aqui estou. nem a sombra que perdi, nem o meu corpo é este que nasceu comigo. nada sei de mim permaneço sentado, não faço absolutamente nada, nem mesmo pensar, porque descobri o lugar onde o corpo se perdeu no tempo.
-
se me estiveres a ouvir se me pressentires no fundo dos teus olhos, ajuda-me a caminhar na tua direcção. não me dês espelhos, não me enganes, não demores a chamar-me."

 in Diários, Assírio & Alvim


Early to bed and early to rise



*raispartam os vícios

Manuel António Pina (2)



Depois

"Primeiro sabem-se as respostas.
As perguntas chegam depois,
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e respostas.

Que coração, no entanto pode repousar
com o restolhar de asas no telhado?
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida 
acorda o passado.

Porquê, tão tardo, o passado?
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração a saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança

se recolhem também sob 
lembranças extenuadas?
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro
as coisas acabadas."

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Ana Hatherly (4)


Príncipe

"Príncipe: 
Era de noite quando eu bati à tua porta 
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir 
e não me conheceste. 
Era de noite 
são mil e umas 
as noites em que bato à tua porta 
e tu vens abrir 
e não me reconheces 
porque eu jamais bato à tua porta. 
Contudo 
quando eu batia à tua porta 
e tu vieste abrir 
os teus olhos de repente 
viram-me 
pela primeira vez 
como sempre de cada vez é a primeira 
a derradeira 
instância do momento de eu surgir 
e tu veres-me. 
Era de noite quando eu bati à tua porta 
e tu vieste abrir 
e viste-me 
como um náufrago sussurrando qualquer coisa 
que ninguém compreendeu. 
Mas era de noite 
e por isso 
tu soubeste que era eu 
e vieste abrir-te 
na escuridão da tua casa. 
Ah era de noite 
e de súbito tudo era apenas 
lábios pálpebras intumescências 
cobrindo o corpo de flutuantes volteios 
de palpitações trémulas adejando pelo rosto. 
Beijava os teus olhos por dentro 
beijava os teus olhos pensados 
beijava-te pensando 
e estendia a mão sobre o meu pensamento 
corria para ti 
minha praia jamais alcançada 
impossibilidade desejada 
de apenas poder pensar-te. 

São mil e umas 
as noites em que não bato à tua porta 
e vens abrir-me"

 in Um Calculador de Improbabilidades, Quimera

domingo, 25 de novembro de 2012

And tell him that I'm yearning to say what's in my heart


Inês Dias e Diogo Vaz Pinto (3)

[Três]

"Não ficamos menos sozinhos; coincidimos na solidão. No seu núcleo. No escuro: tornamos-lhe a carne íntima, sem cantos, deixamo-lo fazer ninho dentro de nós. Pelo caminho abandona-se essa perfeição inacessível da gota que foge lentamente com a luz ao longo da garrafa, mas do lado de dentro do vidro. Aprendemos a esvaziar os bolsos até saírem todas as borboletas de asas lascadas, lançamos armadas de papel. E em vez de afogarmos a beleza que nasce destruída, damos-lhe casa, alimento, um nome para que a possamos chamar de volta em cada entardecer.
Acabaram-se as imagens, as palavras cedem a lentos rumores que nos entontecem. Da alma não esperamos mais que um encosto para horas destas em que nos falta melhor disposição. Corpos. Como dizer de outra forma a pose em que vimos extinguir-se o fogo? Não passamos de estátuas de cinza que o vento comove e dispersa. Jardins salivando, figuras num museu de alucinação. Há gestos que nos recordam, insistências que imploram ao olhar que se fixe nalgum detalhe. Faz-nos falta uma filosofia que ligue e adoce as nossas ideias, lhes dê um propósito qualquer. Divagas demais. Levas para todo o lado essa garrafa com restos de mau vinho, onde sopras e embalas o nome da empregada, esse segredo e um assobio que vem cavalgando brisas de toda a espécie. Coleccionas aí o teu eterno naufrágio. Não vais a lugar nenhum. Chamas a isto o teu país, e prefere-lo assim: deserto."

in Revista Cão Celeste nº2

Carlos Alberto Machado (6)

"A pele
sente-se demasiado a pele
a pele desdobrada em dois
duas peles que se desdobram
se encontram se afastam
se imaginam nas peles 
dos outros
caminhando num lugar
que não há
sente-se demasiado a pele
nas palavras
nos gestos
desencontrados
metamorfoses
a de um homem inseguro
que não sabe até onde poderá ir
a da mulher que sabe 
apenas que vai morrer
cada um com a sua pele
com a sua voz
a fazer coisas certas
venho da rua
e não vos reconheço
porquê ouvir as vossas vozes?
porquê dar-vos a minha atenção?"

in A Realidade Inclinada, Averno

But what's worse

sábado, 24 de novembro de 2012

Jorge Roque (9)


Banalidade da estupidez

"Mais do que a banalidade do mal, o que espanta na existência
humana é a banalidade da estupidez (esta última, aliás, explica
a primeira)."

Merda de ideia a nossa

"Tanto pouco onde nunca havemos de caber. Tanto pouco
que é a lei geral que não mudará. E nós a porfiar, porfiar,
não desistir de lutar, de crescer, para cada vez mais não caber,
não caber. Isto que é um perfeito absurdo. é a única razão 
do nosso existir.

Merda de mundo pouco. Merda de fazedores de pouco, E já
agora, merda de ideia a nossa de teimar lutar contra o que
desde o começo sabíamos não poderíamos vencer."

Preciosa companheira

"A grande tragédia neste mundo é ultrapassar o limiar da
estupidez. No que respeita ao outro, a grande tragédia é
não o haver.

Apenas uma solução, já que voltar atrás é impossível: nascer
de novo vocacionado por natureza para ser estúpido. Esta
solução infelizmente não existe.

Olha-te nos olhos: tudo o que resta é a tua derrota. Cuida
bem dela, estima-a como preciosa companheira que é."

You want my help? I can't help myself


Armando Silva Carvalho


A Névoa do Nada

"Deu em cinzento o dia.
A cor da paciência amorosa sobre o corpo
e o mar confundido na névoa
tem a resposta abstracta nos sentidos.

Os sons são a metamorfose dos gemidos do mel,
esse manjar bíblico de núpcias decantadas,
e agridem na sua rigidez cinzenta 
a audição passiva.

Os olhos no opaco,
o sabor no vento transtornado,
o olfacto húmido de salinosa angústia
o desflorar a pele,
o frio abraço da separação
da luz.

Uma lição sensual, arrastada pela bruma
que dos versos sempre soube ser
a mais fiel amante.
Altas as aves, recortam-se no céu,
indecifráveis, vãs. 

É a vida temível que se ateia nas vozes
mais ocultas da melancolia.
O tempo adensa sem saber o nada,
o amor é o dia"