domingo, 18 de novembro de 2012

Náusea (2)

A livreira não é de todo, deste tipo de coisas, mas por vezes, certos seres humanos são tão rastejantes que enfim...
Escrever num blogue para tentar passar algo subliminar é muito triste. 
Um poema cheio de ódio não é nunca um poema, porque pura e simplesmente além de mal escrito é somente redigido a uma pessoa, isso não é poesia, é uma mensagem.
Um blogue onde abundam copy/past ainda por cima mal feitos, é de uma pobreza indizível; além do mais a falta de conhecimento é tão gritante, que tornam cada post numa anedota.
A um aconselho terapia, a outro ler muitos e bons livros. 

(peço desculpa aos meus leitores por este triste post. As coisas boas seguem dentro de momentos.)

To analyse


Herberto Helder (7)

"Qualquer coisa no retrato ressalta
do espírito de um homem que foi assassinado.
Há um punhal implícito.
Sangue desdobrado.
A cadeira é alta e existe dentro do fogo.
O sexo suposto está masculino. O livro
entreposto à vida e à visão
é um livro feroz e ao mesmo tempo destruído
pela beleza.
Este homem não fala, porque se fez pedra extrema
fechada.
Sua idade ouve-se a si/mesma, infiltrada
até ao terror.

Não tem amor senão do amor.
É um homem devastado pelo pensamento da alegria.
Deus vive nele um tempo obscuro
de esquecimento. Este homem mora
nas coisas miúdas transpostas,
comparadas, alvitradas, justapostas.
Vive em/arco.
Pensa em/espírito de fogueira.
Tem toda a mão queimada até ao silêncio
atroz. Rodearam-lhe a voz.
Contudo, seu ser é destinado à alegria verdadeira."

in Ofício Cantante, Assírio & Alvim 

Inês Dias e Diogo Vaz Pinto

"Sou eu outra vez.

Camada a camada a camada, vão-nos atulhando o buraco no coração, esse espaço cheio apenas de faltas e futuros, que funcionava como um búzio ainda à espera de voltar a ouvir o mar. Difícil, com tanto ruído sobre ruído sobre ruído. Há quem tente gritar por cima dos seus próprios gritos, quem se perca na reconfirmação da reconfirmação, no reconhecimento, quando ainda nos falta tanto conhecimento.
Outros esperam pela noite mais quieta, mais silenciosa. Sobem. Tentam ouvir. Ouvir-se. Contam aos outros que também já só sabem ficar acordados. Contam-se entre si.
Quantos somos? E que importa se a janela e as estrelas são as mesmas sobre as quais tínhamos lido um capítulo anterior, se a solidão ainda é o mesmo livro emprestado e não mudou de cadência?

Sim, continua a ler. Liga-me quando chegares a esse capítulo e diz-me o que achas."

in Revista Cão Celeste 

sábado, 17 de novembro de 2012

Beleza, beleza, beleza...


Jorge Roque (8)


Importa pela vida

"Importa pela vida que nela se cumpra. Não o rasto, mas cada
um dos passos, tentava dizer. Tão pouco cada um dos passos,
mas o que neles diverge incessante do lugar. Desperto o
exausto debate: quer então dizer que a biografia é relevante
para a obra? (e a expressão é de espanto, quase gozo, foi
de todo inesperado que eu pudesse ser tão, como dizê-lo,
pouco cultivado, inactual) Nada disso, quer dizer que a obra
é desde sempre a biografia. Irrelevante convocá-la porque
já lá está."

Corpo ideia inteira

"A vida é a suprema obra corpo ideia inteira. As palavras
meros sons e tinta. Gestos de um animal que morre e faz
desse labor o seu ofício."

Vive, deixa-te disso


"Perguntavas-me: Jorge, que se passa? Nada, respondi-te.
Inverno fora da estação, caminhos que não se encontram, 
linhas desactivadas (o poema abstracto habitual, eu sei, não 
precisas de me lembrar). Hoje ocorreu-me resposta mais
exacta. Dá vontade de rir, mas aqui vai: algo que me falta
e que ainda não descobri. Tu não ririas. Mas dirias, e com
razão: vive, deixa-te disso."

(*acho que desde conheci a poesia de Jorge Roque, que vivo apaixonada por ele)

Desassossego (17)

"A humanidade tem medo da morte, mas incertamente; o homem normal bate-se bem em exercício, o homem normal, doente ou velho, raras vezes olha com horror o abismo do nada que ele atribui a esse abismo. Tudo isso é falta de imaginação. Nem há nada menos de quem pensa que supor a morte um sono. Por que o há-de ser se a morte se não assemelha ao sono? O essencial do sono é o acordar-se dele, e da morte, supomos, não se acorda. E se a morte se assemelha ao sono, deveremos ter a noção de que se acorda dela. Não é isso, porém, o que o homem normal se figura: figura para si a morte como um sono de que não se acorda, o que nada quer dizer. A morte, disse, não se assemelha ao sono, pois no sono se está vivo e dormindo; nem sei como pode alguém assemelhar a morte a qualquer coisa, pois não pode ter experiência dela, ou coisa com que a comparar."

Bernardo Soares (Fernando Pessoa) 

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (26)

Já me tinha acontecido muita coisa, mas isto é inédito...

Cliente: Eu queria pedir-lhe... (e fica muito parado a olhar para mim)
Eu: Queria pedir...
Cliente: Por um momento quase me apeteceu pedir-lhe a mão em casamento!
Eu: (a tua sorte é haver câmaras por todo o lado, senão torcia-te a mão até ficares de joelhos)  

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Rainer Maria Rilke (3)

"A minha vida não é esta hora inclinada
em que apressar-me vês.
Sou uma árvore sobre o meu fundo desenhada
sou apenas uma das minhas bocas já calada
quando chegada foi a sua vez.

Sou o silêncio que entre dois sons circula
que um ou outro mal se habituam
pois o som da morte quer levantar-se...

Mas nesse sombrio intervalo vêm reconciliar-se 
ambos a tremer.
E a canção a embelezar-se."

in O Livro de Horas, Assírio & Alvim

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

I'm filled with violet and red and blue



*To S. :)

Diogo Vaz Pinto (3)


A Alguns Gritos de Distância 

                                más allá qualquier zona prohibida
                            bay un espejo para nuestra triste transparencia
                                                                               Alejandra Pizarnick

I

"A dois gritos e meio de distância
a surdez que se mancha
das cores que me sobraram. Sinto
com a voz, e esta só me dói quando fica
presa às coisas numa evasão
descritiva, palavras abertas
como lâminas sonhando junto
aos pulsos.

A sul disto não encontro mais nada,
só a boca escancarada do silêncio, suja
aos cantos de ideias que
se despenharam, e nós,
dois ou três ou mais, escrevendo
enquanto lhes apodrecemos
na garganta.

Sob sóis apagados, flores quer bebem
no escuro, escutando, cheirando
estas mãos e aquilo que lhes dou, e nada
disto é ainda poesia, mau hálito tão só.
Um eflúvio de frias imagens rente
ao torpor destes lábios. Já o sabes,
agora anda - faz-me o favor - 
desvia-te que me aborrece ter que
arrastar também esses dois olhos.

II

A sós, levei-me a uma praça onde o vento,
como tudo, me foi desfavorável, mas gostei
(e como) de deixar correr um grosso fio
de urina na minha sombra. Sentei-me depois,
abri o caderno e a noite, descalça,
passou-lhe por cima, toda mal pintada,
descabelada, rindo-se
sozinha e provocando a clientela
com os seus truques de puta eterna.

Nas calças desmanchava-se de novo
o sexo, lembrança vadia cuspindo-se
e puxando para trás, para a oleosa névoa
de um bar: estofos furados, o leve
desgaste nas mesas e os nomes
arranhados nos braços de um vazio
melodioso.

Canções que chegam muito tarde,
e se servem da carne de quem 
nem talvez conheça outro descanso.
Um mal-estar cheio de gente encostada,
querendo deixar a vida
à primeira rima que facilite
um ponto final neste português
que tão devagar se suicida."

in Nervo, Averno

terça-feira, 13 de novembro de 2012

...tender...



* mais uma que sufoca a alma

Jorge Roque (7)


"Suicido-me devagar a pão com queijo, vinho tinto, cigarros e solidão. Bem sei que podia comprar sopa, já que não a faço. Podia também comprar um microondas, serviria para aquecer a sopa e ainda preparar refeições pré-cozinhadas. Não se trataria de um grande passo, do ponto de vista do destino da humanidade, mas significaria ao menos comida quente no prato. Podia até casar-me segundo o juízo optimista da minha mãe, e deste modo adquirir tudo isto num pacote bonificado, diminuindo o custo de cada um dos artigos considerados. Está tudo certo por conseguinte, ou errado. Determinam os factos, no entanto, que o casamento é para mim um caso semelhante ao do microondas, ou seja, uma circunstância de que não suporto o ruído e, não serei eu que o anuncie, se há coisa que ninguém pode é ser aquele que não é (assim se desmorona um admirável plano, ignorando as esperanças da minha mãe). Resta acrescentar que nada há de heróico no meu gesto, nem eu me ocupo já de o iludir. É a mão que tenho (e a que não tenho). O prato que recuso (e o que aceito).
Pão com queijo, vinho tinto, cigarros e solidão, cumpro-me no que sou: um exemplar falhado da espécie."

in Ladrador, Averno

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (25)

Porque de facto, e por vezes, existem coisas (quase) indizíveis...

Cliente: Olhe, não sabe onde posso tirar fotocópias ao livro. É que eu não o queria levar todo.
Eu: (wtf) ....................................

Cliente: Procuro um livro, não sei o título, nem o autor... Mas com esse bom aspecto, eu sei que me vai ajudar!
Eu: (wtf)....................................

(Karma de livreira?)


Carlos Alberto Machado (5)

"Levamos anos a cinzelar vontades
num tempo propício à aprendizagem
de nós só falávamos pelos outros
e arriscámos desencontros vários
então um dia disseste estou a tropeçar
na minha memória com as tuas palavras
e eu deixei que elas falassem por mim
e tu amantíssima recebeste-as na noite
shiva velando por nós até ao amanhecer.

-

O meu corpo enrosca-se na noite do teu corpo
adormecidas as minhas palavras ondulam na tua boca
da tua respiração soltam-se borboletas azuis
acordado sigo ainda os teus invisíveis trajectos
é neles que leio as palavras esquecidas na noite
uso cautelosamente o antigo saber divinatório
enquanto danças sobre a terra vestida de lavanda." 

in A Realidade Inclinada, Averno

Always



*até a alma fica sufocada 

Al Berto (11)


"chove. vou sair para beber bicas e ver caras. e ficar em silêncio no meio do barulho. e ficar sozinho no meio das pessoas. já não consigo estar sozinho se não estiver rodeado de gente ruidosa e chata.

rua da ponte: mais uma morada que fica para trás neste percurso de me fugir constantemente (se ao menos conseguisse dormir bem e o sono fosse reparador dos cansaços!) estou imensamente cansado, cansado de mim. o mundo assusta-me e já não tenho curiosidade alguma em saber as razões de me assustar. sou um farol que o faroleiro abandonou à vertigem das tempestades, descontrolado, solitário, vai consumindo o pouco de energia que lhe resta. um dia serei uma ruína sem luz. um morto.

que bem que te fica a risca ao meio. não sei bem se continuo apaixonado, não sei bem se vale a pena continuar apaixonado por ti. não sei. vejo-te e todo eu tremo. todo o meu corpo é um lamento, e pede socorro ao teu olhar, às tuas mãos. a um simples sorriso. uma palavra que me descanse.

com o tempo, murcharam as palavras que guardava para te dizer... as afiadas sílabas já não rompem os papeis alicerces do coração. desce este silêncio sobre a casa, onde outro silêncio mais antigo já se instalara. 
com o tempo desfolham as ilusões, não voltarás aqui. mas se por acaso regressares de mim nada encontrarás.

estarei sozinho? em que espelho virá à superfície teu rosto? em que lado do coração rebentará o choro?"

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

F.S. Hill (2)


"Fazes-me falta,
como os dentes que trago na boca,
para mastigar a realidade.
O mundo são mil maçãs
e tu um dióspiro.
Os teus olhos são a minha varanda,
de onde vejo o silêncio das coisas.
És a casa sem sofá,
sala de espera sem consultório,
armário despido de gente,
onde me sento
e todo eu sou pele."

Shoots from the heart instead of the head



*another big thanks to S. :)

Al Berto (10)

"ainda é cedo para saber até onde mentiram os espelhos. o único consolo para a dor é saber que o desejo pode ser inesgotável. passo os dias absorvido com trabalhos caseiros, evito pensar em ti.
cavo, planto, enxerto, podo, varro, limpo, cozinho, arrumo, lavo. é cada vez mais importante não me lembrar de mim. tem soprado um vento glacial. fortíssimo, o que me desequilibra imenso. enfio um gorro de lã até às orelhas, mas de pouco serve, o vento fustiga-me à velocidade do sangue. tremo o dia todo,
como se tivesse alguma febre maligna. há três dias que não como e vivo, enroscado, junto à lareira. durmo no chão, mantenho o fogo aceso noite e dia."

in O Medo, Assírio & Alvim

domingo, 11 de novembro de 2012

Where the silence sleeps


Renata Correia Botelho (4)

"já ninguém nos toca à porta
a vender cerejas.

devíamos talvez lembrar
à terra o nosso nome

plantar sílabas frescas
que nos matem a sede

ter um pingo de esperança
na morte depois da vida."

in Um Circo no Nevoeiro, Averno

sábado, 10 de novembro de 2012

José Tolentino Mendonça (4)

Escrito num livro de horas

"Enquanto as cidades costeiras
o coro trágico da posteridade
aspira o ar
como funcionário que se prepara
para as tarefas do dia
avisto os teus olhos

Os teus olhos deveriam ter nascido em épocas diferentes
em mundos diferentes
não neste lugar panorâmico e incurável
onde os sentidos são
repetidamente censurados
nestes barrancos áridos
para que o tempo passe
com todas as armas da culpa

No salva-vidas enquanto o meu navio se afunda
os teus olhos
dos quais nunca me poderia defender
erguem-se num louvor
capaz de ensurdecer para sempre
os que duvidam"

in Estação Central, Assírio & Alvim

Yorke e Cave


*sim, estou muito viciada...


*a big thanks to S. :)

Louise Glück

Um Mito de Devoção

"Decidido a amar aquela rapariga,
Hades construiu-lhe um duplicado da terra,
tudo igual, até o prado,
mas com uma cama no meio.

Tudo igual, incluindo a luz do sol,
pois não seria fácil a uma rapariga nova
passar tão bruscamente da luz intensa à completa escuridão.

Aos poucos, pensou ele, faço entrar a noite,
primeiro as sombras das folhas agitadas.
Depois a lua, depois as estrelas. Depois sem lua, sem estrelas.
Que Perséfone se habitue lentamente ao escuro.
No fim, pensou ele, ser-lhe-á reconfortante.

Uma réplica da terra,
mas com uma excepção: amor.
Não é amor o que toda a gente deseja?

Ele esperou muitos anos,
construiu um mundo, observou
Perséfone no prado.
Perséfone, que amava os cheiros, os sabores.
Quem tem um apetite, pensou ele,
tem todos.

Não é o que toda a gente deseja sentir à noite -
o corpo amado, bússola, estrela polar,
ouvir a respiração tranquila, que significa
estou vivo, que significa ainda
estás vivo, porque me escutas,
porque estás aqui comigo. E quando um se volta,
volta-se o outro também -

Era o que ele pensava, o senhor das trevas,
ao contemplar o mundo que
construíra para Perséfone. Nunca lhe ocorreu
que já nada haveria ali para cheirar,
muito menos para comer.

Culpa? Terror? Medo de amar?
Nada disto podia ele conceber;
nenhum amante o concebe.

Ele sonha, pergunta-se que nome há-de pôr àquele lugar.
Primeiro pensa: O Novo Inferno. Depois: O Jardim.
Finalmente decide chamar-lhe 
A Mocidade de Perséfone.

Uma luz ténue ergue-se acima do prado liso,
por detrás da cama. Ele toma-a nos braços.
Deseja disser-lhe amo-te, nada te ferirá

mas compreende
que é mentira, e acaba por dizer
estás morta, nada te ferirá
o que lhe parece
um começo mais auspicioso, mais verdadeiro.

Tradução de Rui Pires Cabral

in Telhados de Vidro n.º12, Averno

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (24)

Presenciado por dois queridos colegas dos livros. (Desta vez tenho pena de não ter sido comigo)

Cliente: Tem o Homem Duvidoso, do Saramago?
Livreiro 1: (atrapalhado e baralhado faz a pesquisa; como é óbvio, "the computer says no") Tem a certeza que é mesmo assim o título?
Livreiro 2: (sem conseguir conter o riso) Não será O Homem Duplicado?

(Duvidosos são os clientes...) 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Black opium


"Sometimes
I feel like I want to live
Far from the metropolis
Just walk through that door
Sometimes
I feel like I want to fly
Reach out to the painted sky
A prisoner to the wind 
A bird on the wing

Sometimes
I feel the ocean in my blood
See rain from the sky above
Her salt brined tears
And now
Those tears leave taste on my tongue
Like the warm rush you get from
Black opium

Sometimes
I feel like I want to leave
Behind all these memories
And walk through that door
Outside
The black night calls my name
But all roads look the same
They lead nowhere"

Dead Can Dance 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

There's a beautiful view




*To little M., who dances like a butterfly 

Manuel de Freitas (5)

Sub Rosa

                                               para o Herberto Helder

"Não somos os últimos, pois se
há uma coisa que o mundo sempre fez bem
foi acabar. De novo e sempre: acabar.

Mas já não trabalhamos com o ouro
e temos um certo pudor tardio
em falar de deus, do amor ou até do corpo.

As metáforas arrefecem, talvez contrariadas. 
São casas devolutas, mães risonhas
ou sombrias cujo grito deixamos de escutar.

Do lixo, porém, temos um vasto
e inútil conhecimento. Possa
ele servir de rosa triste aos
que não cantam sequer, por delicadeza."

in Telhados de Vidro n.º12, Averno

F.S. Hill


"O jardim estava deserto.
Apenas os homens.
O tempo também partira,
desesperançado.
O silêncio frio e profundo,
criava abismos entre eles.
A impossibilidade enraízara-se
lentamente nos seus olhares.
O autor não percebia 
como tinha chegado àquele
ponto mas sabia que não
podia rasgar a folha e começar
de novo.
Não era ele livre de o fazer?
Não.
O autor extinguir-se-ia
com as palavras e tudo
deixaria de fazer sentido.
É urgente continuar.
O jardim só era ainda jardim
porque alguém tinha inscrito
essa mesma palavra na pedra.
Quem eram aqueles homens?
Não conseguia ver-lhes as feições.
O vento tinha-as apagado.
Mas fora ele quem o inscrevera
no papel...
Não há forma de parar isto?
Abriu a gaveta da secretária.
Tirou de lá outra folha.
Escreveu uma só palavra nela.
De letra inclinada e irregular.
Amassou a folha com uma só mão.
Meteu-a à boca.
Não esperou muito.
O sol acabara de nascer."

Lying in the leaves



*A Livreira tem uma paixão doentia por eles...

Helder Moura Pereira (7)


"Um corpo abriu-se para mim de corpo
e alma, sem saber quase nada
de mim e guiando-se somente
pela intuição. Não se percebe.
A intuição não acertara de outras vezes,
não se percebe por que carga de água
havia de acertar agora comigo. Querem
ver que é uma burrice transformada 
em necessidade, uma última tentativa
desesperada? Podia ter gritado
por socorro mas abriu-se para mim
de corpo e alma. Achei que a alma
estava ali a mais, que a alma só empatava,
mais, a alma havia de arruinar tudo.
E se assim o pensei melhor o disse:
desfaçamo-nos da alma. E o corpo
obedeceu, não porque tivesse concordado
comigo mas porque entendera
como ordem as minhas palavras.
Pôs a alma de lado e a partir
daí as coisas correram sem emoção
nenhuma e o sexo tornou-se, como dizes,
uma coisa monótona e fastidiosa."

in Se As Coisas Não Fossem O Que São

(Re)Lembranças


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

People, they ain't no good at all




*as legendas irritam muito, mas esta actuação ao vivo até isso apaga

Hiromi Kawakami


"Entrei na loja de flores fronteira e comprei flores brancas. Aproximei-me da caixa com aquelas flores cujo nome ignorava, menos pesadas que os ramos de crisântemos, mas mais densas que os gladíolos, paguei com uma nota de mil yenes e pedi que mas embalassem. 
Lembro-me também de ter guardado o troco no porta-moedas.
Perdi a noção do tempo e, quando a recuperei, dei por mim sentada num banco. À volta desse banco, que se recortava no meio de grandes prédios, havia árvores muito altas e frondosas que tornavam mais densa a atmosfera já escura daquele lugar.
Anoitecera e não se via ninguém. Talvez naquele mesmo banco, tivessem vindo sentar-se empregados de escritório à hora do almoço, enquanto o som alegre dos pauzinhos e dos garfos se misturava com o das conversas. Mas, agora, tudo se tornara silencioso, e nem o vento se ouvia.
Era extremamente agradável ver cair as pétalas brancas no ar da noite. As pétalas tombavam lentamente. Arrancadas uma a uma.
Havia várias flores em cada haste, e o movimento dos meus dedos aos desfolhá-las parecia não ter fim."


Sebastião Alba (2)


o limite diáfano

"Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos."

You're voice is swallowing my soul


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Rui Pires Cabral (6)

«He loved beauty that looked kind of destroyed.»

"Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa
devoluta que foi toda a infância
de alguém, com visitas ao domingo
e tardes no quintal depois da escola;
a beleza crepuscular de alguns rostos
num retrato de família a preto e branco,
ou a de certos hotéis que conheceram
há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo as estrelas;
a beleza condenada que nos toma
de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz
de um instante. Gostava de tudo isso
que o deixava muito a sós consigo
mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel."

in Telhados de Vidro n.º8, Averno

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Náusea

por vezes, o ser humano, provoca-me náuseas... 

Sometimes I feel like I'm sleepwalking


Jorge Fallorca (2)

"Conheço uma velha parede onde os sonhos se refugiam todos os dias
ao fim da tarde. Os mais ambiciosos julgam que a velha parede é um
mealheiro, e alguns chegam mesmo a confundi-la com um pote de 
moedas guardado por mouras encantadas ou onde nasce o arco-íris.

Incólume à ambição, a parede continua a envelhecer ao ritmos dos 
sonhos, que a procuram silenciosos e cansados, à medida que o sol se
esconde atrás da parede onde se refugiam.

Creio que só as crianças conhecem o verdadeiro segredo da parede.
A chave que dá acesso aos sonhos acumulados durante séculos, e que 
consiste em considerá-la apenas uma velha parede: onde se escondem
quando brincam às escondidas e usam como baliza quando jogam à 
bola. Ou vão ainda mais longe, e garatujam também um sonho na cal
da velha parede, com mão incerta mas determinada."

in Telhados de Vidro n.º11, Averno

sábado, 3 de novembro de 2012

good things never last


Al Berto (9)

"escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua
imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar"

in O Medo, Assírio & Alvim 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Yukio Mishima (3)


"Num abrir e fechar de olhos, o mundo tinha-se vingado no padre com uma força terrível. Aquilo que ele tinha imaginado estar completamente seguro tinha-se desfeito em ruínas.
Voltou para o templo, contemplou a Imagem Suprema de Buda e invocou o Nome Sagrado. Mas os pensamentos impuros assolavam-no com as suas sombras opacas. A beleza de uma mulher - dizia para si - não era senão uma passageira aparição, um fenómeno carnal temporário - em breve seria destruído. No entanto, por muito que ele tentasse esquecer, a inefável beleza que o tinha impressionado à beira do lago continuava a pressionar-lhe o coração com a força de qualquer coisa que vem de muito longe. O Venerável Padre já não era jovem, nem física nem espiritualmente, para acreditar que este sentimento era uma partida que a sua carne lhe tinha pregado. A carne humana, ele sabia-o bem, não se podia alterar tão rapidamente. Parecia antes que ele tinha estado imerso num veneno subtil que lhe tinha de repente transformado o espírito.
O Venerável Padre nunca tinha quebrado o seu voto de castidade."

Fernando Guerreiro

"Se olhares para cima
conseguirás ver as formações
que o vento levantou
da memória da planície?
Metros depois, a atmosfera
envenenou-se, confrontando-o
com os últimos espécimes
de uma criação cujas propriedades
negam tudo sobre a vida
que tinha aprendido.
A única certeza vem-lhe 
da incomodidade do corpo
de que partes se desprendem
que o vento depois distribui
por páginas onde árvores
crescem deformando-se 
só para nos presentear 
com títulos que, resinosos,
nos alteram o destino.
Destroem-nos a boca?
Já no pensamento corre
a visão de seres que
se abocanham pelo som
sugerindo, com as suas
combinações, formas,
nunca vistas do funcio
namento do organismo.
O problema está em suster
a visão tempo suficiente
para que ela nos acompanhe
na memória da descida.
Se não, como reconhecer
o corpo que a memória
juntou com os destroços
dourados da aventura?"

in Telhados de Vidro nº8, Averno