"ainda é cedo para saber até onde mentiram os espelhos. o único consolo para a dor é saber que o desejo pode ser inesgotável. passo os dias absorvido com trabalhos caseiros, evito pensar em ti.
cavo, planto, enxerto, podo, varro, limpo, cozinho, arrumo, lavo. é cada vez mais importante não me lembrar de mim. tem soprado um vento glacial. fortíssimo, o que me desequilibra imenso. enfio um gorro de lã até às orelhas, mas de pouco serve, o vento fustiga-me à velocidade do sangue. tremo o dia todo,
como se tivesse alguma febre maligna. há três dias que não como e vivo, enroscado, junto à lareira. durmo no chão, mantenho o fogo aceso noite e dia."
in O Medo, Assírio & Alvim
"Os meus livros (que não sabem que existo) São uma parte de mim, como este rosto De têmporas e olhos já cinzentos Que em vão vou procurando nos espelhos" Jorge Luis Borges
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
domingo, 11 de novembro de 2012
Renata Correia Botelho (4)
"já ninguém nos toca à porta
a vender cerejas.
devíamos talvez lembrar
à terra o nosso nome
plantar sílabas frescas
que nos matem a sede
ter um pingo de esperança
na morte depois da vida."
in Um Circo no Nevoeiro, Averno
a vender cerejas.
devíamos talvez lembrar
à terra o nosso nome
plantar sílabas frescas
que nos matem a sede
ter um pingo de esperança
na morte depois da vida."
in Um Circo no Nevoeiro, Averno
sábado, 10 de novembro de 2012
José Tolentino Mendonça (4)
Escrito num livro de horas
"Enquanto as cidades costeiras
o coro trágico da posteridade
aspira o ar
como funcionário que se prepara
para as tarefas do dia
avisto os teus olhos
Os teus olhos deveriam ter nascido em épocas diferentes
em mundos diferentes
não neste lugar panorâmico e incurável
onde os sentidos são
repetidamente censurados
nestes barrancos áridos
para que o tempo passe
com todas as armas da culpa
No salva-vidas enquanto o meu navio se afunda
os teus olhos
dos quais nunca me poderia defender
erguem-se num louvor
capaz de ensurdecer para sempre
os que duvidam"
in Estação Central, Assírio & Alvim
"Enquanto as cidades costeiras
o coro trágico da posteridade
aspira o ar
como funcionário que se prepara
para as tarefas do dia
avisto os teus olhos
Os teus olhos deveriam ter nascido em épocas diferentes
em mundos diferentes
não neste lugar panorâmico e incurável
onde os sentidos são
repetidamente censurados
nestes barrancos áridos
para que o tempo passe
com todas as armas da culpa
No salva-vidas enquanto o meu navio se afunda
os teus olhos
dos quais nunca me poderia defender
erguem-se num louvor
capaz de ensurdecer para sempre
os que duvidam"
in Estação Central, Assírio & Alvim
Louise Glück
Um Mito de Devoção
"Decidido a amar aquela rapariga,
Hades construiu-lhe um duplicado da terra,
tudo igual, até o prado,
mas com uma cama no meio.
Tudo igual, incluindo a luz do sol,
pois não seria fácil a uma rapariga nova
passar tão bruscamente da luz intensa à completa escuridão.
Aos poucos, pensou ele, faço entrar a noite,
primeiro as sombras das folhas agitadas.
Depois a lua, depois as estrelas. Depois sem lua, sem estrelas.
Que Perséfone se habitue lentamente ao escuro.
No fim, pensou ele, ser-lhe-á reconfortante.
Uma réplica da terra,
mas com uma excepção: amor.
Não é amor o que toda a gente deseja?
Ele esperou muitos anos,
construiu um mundo, observou
Perséfone no prado.
Perséfone, que amava os cheiros, os sabores.
Quem tem um apetite, pensou ele,
tem todos.
Não é o que toda a gente deseja sentir à noite -
o corpo amado, bússola, estrela polar,
ouvir a respiração tranquila, que significa
estou vivo, que significa ainda
estás vivo, porque me escutas,
porque estás aqui comigo. E quando um se volta,
volta-se o outro também -
Era o que ele pensava, o senhor das trevas,
ao contemplar o mundo que
construíra para Perséfone. Nunca lhe ocorreu
que já nada haveria ali para cheirar,
muito menos para comer.
Culpa? Terror? Medo de amar?
Nada disto podia ele conceber;
nenhum amante o concebe.
Ele sonha, pergunta-se que nome há-de pôr àquele lugar.
Primeiro pensa: O Novo Inferno. Depois: O Jardim.
Finalmente decide chamar-lhe
A Mocidade de Perséfone.
Uma luz ténue ergue-se acima do prado liso,
por detrás da cama. Ele toma-a nos braços.
Deseja disser-lhe amo-te, nada te ferirá
mas compreende
que é mentira, e acaba por dizer
estás morta, nada te ferirá
o que lhe parece
um começo mais auspicioso, mais verdadeiro.
Tradução de Rui Pires Cabral
in Telhados de Vidro n.º12, Averno
"Decidido a amar aquela rapariga,
Hades construiu-lhe um duplicado da terra,
tudo igual, até o prado,
mas com uma cama no meio.
Tudo igual, incluindo a luz do sol,
pois não seria fácil a uma rapariga nova
passar tão bruscamente da luz intensa à completa escuridão.
Aos poucos, pensou ele, faço entrar a noite,
primeiro as sombras das folhas agitadas.
Depois a lua, depois as estrelas. Depois sem lua, sem estrelas.
Que Perséfone se habitue lentamente ao escuro.
No fim, pensou ele, ser-lhe-á reconfortante.
Uma réplica da terra,
mas com uma excepção: amor.
Não é amor o que toda a gente deseja?
Ele esperou muitos anos,
construiu um mundo, observou
Perséfone no prado.
Perséfone, que amava os cheiros, os sabores.
Quem tem um apetite, pensou ele,
tem todos.
Não é o que toda a gente deseja sentir à noite -
o corpo amado, bússola, estrela polar,
ouvir a respiração tranquila, que significa
estou vivo, que significa ainda
estás vivo, porque me escutas,
porque estás aqui comigo. E quando um se volta,
volta-se o outro também -
Era o que ele pensava, o senhor das trevas,
ao contemplar o mundo que
construíra para Perséfone. Nunca lhe ocorreu
que já nada haveria ali para cheirar,
muito menos para comer.
Culpa? Terror? Medo de amar?
Nada disto podia ele conceber;
nenhum amante o concebe.
Ele sonha, pergunta-se que nome há-de pôr àquele lugar.
Primeiro pensa: O Novo Inferno. Depois: O Jardim.
Finalmente decide chamar-lhe
A Mocidade de Perséfone.
Uma luz ténue ergue-se acima do prado liso,
por detrás da cama. Ele toma-a nos braços.
Deseja disser-lhe amo-te, nada te ferirá
mas compreende
que é mentira, e acaba por dizer
estás morta, nada te ferirá
o que lhe parece
um começo mais auspicioso, mais verdadeiro.
Tradução de Rui Pires Cabral
in Telhados de Vidro n.º12, Averno
Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (24)
Presenciado por dois queridos colegas dos livros. (Desta vez tenho pena de não ter sido comigo)
Cliente: Tem o Homem Duvidoso, do Saramago?
Livreiro 1: (atrapalhado e baralhado faz a pesquisa; como é óbvio, "the computer says no") Tem a certeza que é mesmo assim o título?
Livreiro 2: (sem conseguir conter o riso) Não será O Homem Duplicado?
(Duvidosos são os clientes...)
Cliente: Tem o Homem Duvidoso, do Saramago?
Livreiro 1: (atrapalhado e baralhado faz a pesquisa; como é óbvio, "the computer says no") Tem a certeza que é mesmo assim o título?
Livreiro 2: (sem conseguir conter o riso) Não será O Homem Duplicado?
(Duvidosos são os clientes...)
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Black opium
"Sometimes
I feel like I want to live
Far from the metropolis
Just walk through that door
Sometimes
I feel like I want to fly
Reach out to the painted sky
A prisoner to the wind
A bird on the wing
Sometimes
I feel the ocean in my blood
See rain from the sky above
Her salt brined tears
And now
Those tears leave taste on my tongue
Like the warm rush you get from
Black opium
Sometimes
I feel like I want to leave
Behind all these memories
And walk through that door
Outside
The black night calls my name
But all roads look the same
They lead nowhere"
Dead Can Dance
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Manuel de Freitas (5)
Sub Rosa
para o Herberto Helder
"Não somos os últimos, pois se
há uma coisa que o mundo sempre fez bem
foi acabar. De novo e sempre: acabar.
Mas já não trabalhamos com o ouro
e temos um certo pudor tardio
em falar de deus, do amor ou até do corpo.
As metáforas arrefecem, talvez contrariadas.
São casas devolutas, mães risonhas
ou sombrias cujo grito deixamos de escutar.
Do lixo, porém, temos um vasto
e inútil conhecimento. Possa
ele servir de rosa triste aos
que não cantam sequer, por delicadeza."
in Telhados de Vidro n.º12, Averno
para o Herberto Helder
"Não somos os últimos, pois se
há uma coisa que o mundo sempre fez bem
foi acabar. De novo e sempre: acabar.
Mas já não trabalhamos com o ouro
e temos um certo pudor tardio
em falar de deus, do amor ou até do corpo.
As metáforas arrefecem, talvez contrariadas.
São casas devolutas, mães risonhas
ou sombrias cujo grito deixamos de escutar.
Do lixo, porém, temos um vasto
e inútil conhecimento. Possa
ele servir de rosa triste aos
que não cantam sequer, por delicadeza."
in Telhados de Vidro n.º12, Averno
F.S. Hill
"O jardim estava deserto.
Apenas os homens.
O tempo também partira,
desesperançado.
O silêncio frio e profundo,
criava abismos entre eles.
A impossibilidade enraízara-se
lentamente nos seus olhares.
O autor não percebia
como tinha chegado àquele
ponto mas sabia que não
podia rasgar a folha e começar
de novo.
Não era ele livre de o fazer?
Não.
O autor extinguir-se-ia
com as palavras e tudo
deixaria de fazer sentido.
É urgente continuar.
O jardim só era ainda jardim
porque alguém tinha inscrito
essa mesma palavra na pedra.
Quem eram aqueles homens?
Não conseguia ver-lhes as feições.
O vento tinha-as apagado.
Mas fora ele quem o inscrevera
no papel...
Não há forma de parar isto?
Abriu a gaveta da secretária.
Tirou de lá outra folha.
Escreveu uma só palavra nela.
De letra inclinada e irregular.
Amassou a folha com uma só mão.
Meteu-a à boca.
Não esperou muito.
O sol acabara de nascer."
Helder Moura Pereira (7)
"Um corpo abriu-se para mim de corpo
e alma, sem saber quase nada
de mim e guiando-se somente
pela intuição. Não se percebe.
A intuição não acertara de outras vezes,
não se percebe por que carga de água
havia de acertar agora comigo. Querem
ver que é uma burrice transformada
em necessidade, uma última tentativa
desesperada? Podia ter gritado
por socorro mas abriu-se para mim
de corpo e alma. Achei que a alma
estava ali a mais, que a alma só empatava,
mais, a alma havia de arruinar tudo.
E se assim o pensei melhor o disse:
desfaçamo-nos da alma. E o corpo
obedeceu, não porque tivesse concordado
comigo mas porque entendera
como ordem as minhas palavras.
Pôs a alma de lado e a partir
daí as coisas correram sem emoção
nenhuma e o sexo tornou-se, como dizes,
uma coisa monótona e fastidiosa."
in Se As Coisas Não Fossem O Que São
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
People, they ain't no good at all
*as legendas irritam muito, mas esta actuação ao vivo até isso apaga
Hiromi Kawakami
"Entrei na loja de flores fronteira e comprei flores brancas. Aproximei-me da caixa com aquelas flores cujo nome ignorava, menos pesadas que os ramos de crisântemos, mas mais densas que os gladíolos, paguei com uma nota de mil yenes e pedi que mas embalassem.
Lembro-me também de ter guardado o troco no porta-moedas.
Perdi a noção do tempo e, quando a recuperei, dei por mim sentada num banco. À volta desse banco, que se recortava no meio de grandes prédios, havia árvores muito altas e frondosas que tornavam mais densa a atmosfera já escura daquele lugar.
Anoitecera e não se via ninguém. Talvez naquele mesmo banco, tivessem vindo sentar-se empregados de escritório à hora do almoço, enquanto o som alegre dos pauzinhos e dos garfos se misturava com o das conversas. Mas, agora, tudo se tornara silencioso, e nem o vento se ouvia.
Era extremamente agradável ver cair as pétalas brancas no ar da noite. As pétalas tombavam lentamente. Arrancadas uma a uma.
Havia várias flores em cada haste, e o movimento dos meus dedos aos desfolhá-las parecia não ter fim."
Sebastião Alba (2)
o limite diáfano
"Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos."
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Rui Pires Cabral (6)
«He loved beauty that looked kind of destroyed.»
"Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa
devoluta que foi toda a infância
de alguém, com visitas ao domingo
e tardes no quintal depois da escola;
a beleza crepuscular de alguns rostos
num retrato de família a preto e branco,
ou a de certos hotéis que conheceram
há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo as estrelas;
a beleza condenada que nos toma
de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz
de um instante. Gostava de tudo isso
que o deixava muito a sós consigo
mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel."
in Telhados de Vidro n.º8, Averno
"Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa
devoluta que foi toda a infância
de alguém, com visitas ao domingo
e tardes no quintal depois da escola;
a beleza crepuscular de alguns rostos
num retrato de família a preto e branco,
ou a de certos hotéis que conheceram
há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo as estrelas;
a beleza condenada que nos toma
de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz
de um instante. Gostava de tudo isso
que o deixava muito a sós consigo
mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel."
in Telhados de Vidro n.º8, Averno
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Náusea
por vezes, o ser humano, provoca-me náuseas...
Jorge Fallorca (2)
"Conheço uma velha parede onde os sonhos se refugiam todos os dias
ao fim da tarde. Os mais ambiciosos julgam que a velha parede é um
mealheiro, e alguns chegam mesmo a confundi-la com um pote de
moedas guardado por mouras encantadas ou onde nasce o arco-íris.
Incólume à ambição, a parede continua a envelhecer ao ritmos dos
sonhos, que a procuram silenciosos e cansados, à medida que o sol se
esconde atrás da parede onde se refugiam.
Creio que só as crianças conhecem o verdadeiro segredo da parede.
A chave que dá acesso aos sonhos acumulados durante séculos, e que
consiste em considerá-la apenas uma velha parede: onde se escondem
quando brincam às escondidas e usam como baliza quando jogam à
bola. Ou vão ainda mais longe, e garatujam também um sonho na cal
da velha parede, com mão incerta mas determinada."
in Telhados de Vidro n.º11, Averno
ao fim da tarde. Os mais ambiciosos julgam que a velha parede é um
mealheiro, e alguns chegam mesmo a confundi-la com um pote de
moedas guardado por mouras encantadas ou onde nasce o arco-íris.
Incólume à ambição, a parede continua a envelhecer ao ritmos dos
sonhos, que a procuram silenciosos e cansados, à medida que o sol se
esconde atrás da parede onde se refugiam.
Creio que só as crianças conhecem o verdadeiro segredo da parede.
A chave que dá acesso aos sonhos acumulados durante séculos, e que
consiste em considerá-la apenas uma velha parede: onde se escondem
quando brincam às escondidas e usam como baliza quando jogam à
bola. Ou vão ainda mais longe, e garatujam também um sonho na cal
da velha parede, com mão incerta mas determinada."
in Telhados de Vidro n.º11, Averno
sábado, 3 de novembro de 2012
Al Berto (9)
"escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua
imobilidade
habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar"
in O Medo, Assírio & Alvim
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua
imobilidade
habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar"
in O Medo, Assírio & Alvim
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Yukio Mishima (3)
"Num abrir e fechar de olhos, o mundo tinha-se vingado no padre com uma força terrível. Aquilo que ele tinha imaginado estar completamente seguro tinha-se desfeito em ruínas.
Voltou para o templo, contemplou a Imagem Suprema de Buda e invocou o Nome Sagrado. Mas os pensamentos impuros assolavam-no com as suas sombras opacas. A beleza de uma mulher - dizia para si - não era senão uma passageira aparição, um fenómeno carnal temporário - em breve seria destruído. No entanto, por muito que ele tentasse esquecer, a inefável beleza que o tinha impressionado à beira do lago continuava a pressionar-lhe o coração com a força de qualquer coisa que vem de muito longe. O Venerável Padre já não era jovem, nem física nem espiritualmente, para acreditar que este sentimento era uma partida que a sua carne lhe tinha pregado. A carne humana, ele sabia-o bem, não se podia alterar tão rapidamente. Parecia antes que ele tinha estado imerso num veneno subtil que lhe tinha de repente transformado o espírito.
O Venerável Padre nunca tinha quebrado o seu voto de castidade."
Fernando Guerreiro
"Se olhares para cima
conseguirás ver as formações
que o vento levantou
da memória da planície?
Metros depois, a atmosfera
envenenou-se, confrontando-o
com os últimos espécimes
de uma criação cujas propriedades
negam tudo sobre a vida
que tinha aprendido.
A única certeza vem-lhe
da incomodidade do corpo
de que partes se desprendem
que o vento depois distribui
por páginas onde árvores
crescem deformando-se
só para nos presentear
com títulos que, resinosos,
nos alteram o destino.
Destroem-nos a boca?
Já no pensamento corre
a visão de seres que
se abocanham pelo som
sugerindo, com as suas
combinações, formas,
nunca vistas do funcio
namento do organismo.
O problema está em suster
a visão tempo suficiente
para que ela nos acompanhe
na memória da descida.
Se não, como reconhecer
o corpo que a memória
juntou com os destroços
dourados da aventura?"
in Telhados de Vidro nº8, Averno
conseguirás ver as formações
que o vento levantou
da memória da planície?
Metros depois, a atmosfera
envenenou-se, confrontando-o
com os últimos espécimes
de uma criação cujas propriedades
negam tudo sobre a vida
que tinha aprendido.
A única certeza vem-lhe
da incomodidade do corpo
de que partes se desprendem
que o vento depois distribui
por páginas onde árvores
crescem deformando-se
só para nos presentear
com títulos que, resinosos,
nos alteram o destino.
Destroem-nos a boca?
Já no pensamento corre
a visão de seres que
se abocanham pelo som
sugerindo, com as suas
combinações, formas,
nunca vistas do funcio
namento do organismo.
O problema está em suster
a visão tempo suficiente
para que ela nos acompanhe
na memória da descida.
Se não, como reconhecer
o corpo que a memória
juntou com os destroços
dourados da aventura?"
in Telhados de Vidro nº8, Averno
Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (23)
Devidamente apreciado por uma colega livreira.
Cliente: Tem aquele livro que abre e depois fecha? (isto acompanhado por efusivos gestos)
Acho que certos livreiros vão começar a ser canonizados...
Cliente: Tem aquele livro que abre e depois fecha? (isto acompanhado por efusivos gestos)
Acho que certos livreiros vão começar a ser canonizados...
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Maria do Rosário Pedreira
Deixei de ouvir-te
"Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.
Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.
Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe"
domingo, 28 de outubro de 2012
Rui Nunes (3)
(vésperas da infância)
"és só um tempo que uma vida encontrou, a pequena bússola da morte que
se orienta pelo riso.
Não deixes a criança correr à tua frente: ela abandona a sombra aos seus
passos como se fosse uma frase que tu acabarás.
Não deixes a sua fuga perder-se no caminho, mas também não a persigas:
espera-te um fio emaranhado, o malévolo deserto onde se cruzam sinais
de viagem.
Não te afastes pelo rumo que a bússola parece indicar: o poço está seco e
a areia cai sobre a areia numa miragem de sede"
in Telhados de Vidro nº8, Averno
"és só um tempo que uma vida encontrou, a pequena bússola da morte que
se orienta pelo riso.
Não deixes a criança correr à tua frente: ela abandona a sombra aos seus
passos como se fosse uma frase que tu acabarás.
Não deixes a sua fuga perder-se no caminho, mas também não a persigas:
espera-te um fio emaranhado, o malévolo deserto onde se cruzam sinais
de viagem.
Não te afastes pelo rumo que a bússola parece indicar: o poço está seco e
a areia cai sobre a areia numa miragem de sede"
in Telhados de Vidro nº8, Averno
Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (22)
Para certas coisas não existem palavras... Além do mais, defendo que os clientes deveriam ser "autuados"pelos danos psicológicos que provocam.
Cliente: Olhe, tem aqui daqueles livros para ler?
(!!!!!!!!!!!??????????????)
Cliente: Olhe, tem aqui daqueles livros para ler?
(!!!!!!!!!!!??????????????)
sábado, 27 de outubro de 2012
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Miguel-Manso (2)
Continuação de Jean Nicot
"sou dentro de mim o que quer fugir
embora vá recusando a cada bafo
o panorama dos astronautas
tiro notas
dos calendários gigantes
das marés do sol e da lua
do rasto agrícola das nossas mãos
sobre a mesa
de madrugada
remo como exilado inca
em direcção à luz
se ainda me for fácil mentir direi
é afinal a única substância do poema
este cigarro entre estrofes."
in Contra A Manhã Burra, Mariposa Azual
Nunca um grafite ficou tão bem numa parede (8)
Liberdade
"Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma."
Fernando Pessoa
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (21)
Cliente: Olhe, não tem aquele livro que refere o nome de um outro livro, que eu sei que dentro desse livro, tem o nome do livro que eu quero comprar?
Eu: o_O !!!!!!!!!!!!!!!!
Eu: o_O !!!!!!!!!!!!!!!!
Helder Moura Pereira (6)
"Tu és uma melodia daquelas que não saem
da cabeça, por mais que a gente se esforce,
por mais que a gente não queira.
E agora já não és melodia, agora és martelo
a massacrar a minha alma estarrecida.
Cruzaste-te comigo num céu de cinzas, pobre
mendigo de vontades alheias.
Reconstituímos uma falsa infância
com uma lucidez que se aproxima da demência,
leituras de retratos, caligrafias, procurando
alguém que não existiu, que se metamorfoseou.
Porque sei eu que sou eu naquele barco,
naquela canoa, com aquele lenço, com aquela
pessoa? Disseram-me e eu acreditei.
Houve um tempo em que a raiva nascia
na minha pele e contudo agora
ao ver o que ficou desse meu tempo
parece que escrevi receitas de bolos
e nem uma única festiva canção.
Perderam-me e portanto quando me encontraste
eu era um ser à deriva e fácil de encontrar.
Aldeia riscada do mapa, um pardalito
assustado, cabeça cheia de saberes
desgastados, inúteis e esquecidos."
in Se as Coisas não Fossem o Que São
Carson McCullers (2)
"Durante toda a tarde Ken Harris estivera sentado diante de uma página em branco na máquina de escrever. Era Inverno e nevava. A neve abafava o som dos automóveis e o apartamento na Village era tão silencioso que o despertador o incomodava. Trabalhava no quarto de dormir porque o quarto e os objectos da mulher o acalmavam e faziam sentir menos sozinho. O efeito da bebida de antes do almoço (ou era uma bebida para acordar?) desaparecera depois de comer uma lata de chili com carne sozinho na cozinha. Às quatro horas pôs o relógio no cesto da roupa suja e voltou para a máquina de escrever. A folha ainda estava branca e a sua brancura parecia invadir-lhe o espírito. No entanto houvera uma altura (há quanto tempo?) em que uma canção na esquina, uma voz da infância, eram suficientes para que a paisagem da memória condensasse o passado, de forma que o acaso e o presente se transfiguravam num romance, numa história; houvera uma altura em que a página vazia evocava e seleccionava as memórias e ele sentiu um domínio fantasmagórico da sua arte. Uma altura, afinal, em que era um escritor e escrevia quase todos os dias. Trabalhando duro, dividia cuidadosamente as frases, rasurava frases mal escritas e substituía as palavras repetidas. Agora sentava-se ali, curvado e com círculos debaixo dos olhos azul-acinzentados, e um boca de lábios cheios e pálidos. Era no vento escaldante do Texas da sua infância que pensava ao observar pela janela a neve que caía em Nova Iorque. E de repente uma válvula da memória abriu-se e disse as palavras enquanto as escrevia:
Who has seen the wind?
Neither you nor I:
But when the trees bow down their heads
The wind is passing by.
Os versos da infância pareciam-lhe tão sinistros que, sentado a pensar neles, as palmas das mãos ficaram húmidas de suor."
*No Conto "Quem viu o vento?"
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Josep M. Rodríguez (3)
Paixão e Morte de São Sebastião
"Pelo vão que há entre certos edifícios
cada manhã espreita o horizonte.
Os telhados são como uma escada
que me leva até Deus,
e à sua ferida sem fim
através da qual o dia
sangra.
É um lugar
onde a carne deixa de ser carne,
para se tornar fé,
interrogante,
dúvida.
É um lugar que existe e que não existe,
tal como a sombra
do pássaro mais alto.
Olho o horizonte
e nesse gesto aprendo claridade.
Atado ao frágil tronco deste dia,
cada raio de luz
brinca a matar-me."
in A Caixa Negra, Averno
"Pelo vão que há entre certos edifícios
cada manhã espreita o horizonte.
Os telhados são como uma escada
que me leva até Deus,
e à sua ferida sem fim
através da qual o dia
sangra.
É um lugar
onde a carne deixa de ser carne,
para se tornar fé,
interrogante,
dúvida.
É um lugar que existe e que não existe,
tal como a sombra
do pássaro mais alto.
Olho o horizonte
e nesse gesto aprendo claridade.
Atado ao frágil tronco deste dia,
cada raio de luz
brinca a matar-me."
in A Caixa Negra, Averno
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (20)
Como é que uma livreira passa do mais largo sorriso ao esgar mais medonho que consegue?
Cliente: Queria um livro de Franz Kafka.
Eu: (largo sorriso) Qual é a obra? O Processo, A Metamorfose, A Carta ao Pai...
Cliente: Não, o livro Anna Karenina.
Eu: (?????????!!!!!!!!!!!! o_O) Esse é mesmo de Tolstoi, que deve estar agora a dar voltas na tumba.
Cliente: Queria um livro de Franz Kafka.
Eu: (largo sorriso) Qual é a obra? O Processo, A Metamorfose, A Carta ao Pai...
Cliente: Não, o livro Anna Karenina.
Eu: (?????????!!!!!!!!!!!! o_O) Esse é mesmo de Tolstoi, que deve estar agora a dar voltas na tumba.
domingo, 21 de outubro de 2012
Nuno Júdice (7)
Acorda. Fala-me
"«-Por que me escreves? Que inspiração alheia
te suja os dedos de versos, se os teus lábios
não pronunciam nunca as palavras que esperei,
quando, em tardes de vento, te olhava em
silêncio? Por que interrompes a estrofe no meu nome,
a flor obscura de uma primavera que não
chegou? Deixa-me!, entre
as copas geométricas de um ritmo vegetal,
respirando na efémera duração de vozes que não ouço;
e sob um breve bater de folhas nos arbustos
perenes que o fumo da madrugada escurece: sombra
separada da própria sombra, e eco já vago
de um canto de pássaro já morto! E não deixes que
a minha queixa se dissipe num rumor de águas
estagnadas - charcos da chuva sedentária do outono,
lagoas baças de um choro matinal...» Desperdícios
de vida num fundo amargo de memória."
in Poesia Reunida, Dom Quixote
"«-Por que me escreves? Que inspiração alheia
te suja os dedos de versos, se os teus lábios
não pronunciam nunca as palavras que esperei,
quando, em tardes de vento, te olhava em
silêncio? Por que interrompes a estrofe no meu nome,
a flor obscura de uma primavera que não
chegou? Deixa-me!, entre
as copas geométricas de um ritmo vegetal,
respirando na efémera duração de vozes que não ouço;
e sob um breve bater de folhas nos arbustos
perenes que o fumo da madrugada escurece: sombra
separada da própria sombra, e eco já vago
de um canto de pássaro já morto! E não deixes que
a minha queixa se dissipe num rumor de águas
estagnadas - charcos da chuva sedentária do outono,
lagoas baças de um choro matinal...» Desperdícios
de vida num fundo amargo de memória."
in Poesia Reunida, Dom Quixote
sábado, 20 de outubro de 2012
Renata Correia Botelho (3)
"era uma noite branca com um rio
dentro, ali afundámos os dias
contados, as roseiras do jardim,
duas ou três horas felizes
e outros erros.
trocávamos tudo por um sopro de outono.
palmilhamos a imensa
verdade do deserto, quantos ermos
ainda entre nós e a terra húmida?"
Manuel António Pina
Não o Sonho
"Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora."
in Atropelamento e Fuga
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