terça-feira, 6 de novembro de 2012

Rui Pires Cabral (6)

«He loved beauty that looked kind of destroyed.»

"Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa
devoluta que foi toda a infância
de alguém, com visitas ao domingo
e tardes no quintal depois da escola;
a beleza crepuscular de alguns rostos
num retrato de família a preto e branco,
ou a de certos hotéis que conheceram
há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo as estrelas;
a beleza condenada que nos toma
de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz
de um instante. Gostava de tudo isso
que o deixava muito a sós consigo
mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel."

in Telhados de Vidro n.º8, Averno

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Náusea

por vezes, o ser humano, provoca-me náuseas... 

Sometimes I feel like I'm sleepwalking


Jorge Fallorca (2)

"Conheço uma velha parede onde os sonhos se refugiam todos os dias
ao fim da tarde. Os mais ambiciosos julgam que a velha parede é um
mealheiro, e alguns chegam mesmo a confundi-la com um pote de 
moedas guardado por mouras encantadas ou onde nasce o arco-íris.

Incólume à ambição, a parede continua a envelhecer ao ritmos dos 
sonhos, que a procuram silenciosos e cansados, à medida que o sol se
esconde atrás da parede onde se refugiam.

Creio que só as crianças conhecem o verdadeiro segredo da parede.
A chave que dá acesso aos sonhos acumulados durante séculos, e que 
consiste em considerá-la apenas uma velha parede: onde se escondem
quando brincam às escondidas e usam como baliza quando jogam à 
bola. Ou vão ainda mais longe, e garatujam também um sonho na cal
da velha parede, com mão incerta mas determinada."

in Telhados de Vidro n.º11, Averno

sábado, 3 de novembro de 2012

good things never last


Al Berto (9)

"escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua
imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar"

in O Medo, Assírio & Alvim 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Yukio Mishima (3)


"Num abrir e fechar de olhos, o mundo tinha-se vingado no padre com uma força terrível. Aquilo que ele tinha imaginado estar completamente seguro tinha-se desfeito em ruínas.
Voltou para o templo, contemplou a Imagem Suprema de Buda e invocou o Nome Sagrado. Mas os pensamentos impuros assolavam-no com as suas sombras opacas. A beleza de uma mulher - dizia para si - não era senão uma passageira aparição, um fenómeno carnal temporário - em breve seria destruído. No entanto, por muito que ele tentasse esquecer, a inefável beleza que o tinha impressionado à beira do lago continuava a pressionar-lhe o coração com a força de qualquer coisa que vem de muito longe. O Venerável Padre já não era jovem, nem física nem espiritualmente, para acreditar que este sentimento era uma partida que a sua carne lhe tinha pregado. A carne humana, ele sabia-o bem, não se podia alterar tão rapidamente. Parecia antes que ele tinha estado imerso num veneno subtil que lhe tinha de repente transformado o espírito.
O Venerável Padre nunca tinha quebrado o seu voto de castidade."

Fernando Guerreiro

"Se olhares para cima
conseguirás ver as formações
que o vento levantou
da memória da planície?
Metros depois, a atmosfera
envenenou-se, confrontando-o
com os últimos espécimes
de uma criação cujas propriedades
negam tudo sobre a vida
que tinha aprendido.
A única certeza vem-lhe 
da incomodidade do corpo
de que partes se desprendem
que o vento depois distribui
por páginas onde árvores
crescem deformando-se 
só para nos presentear 
com títulos que, resinosos,
nos alteram o destino.
Destroem-nos a boca?
Já no pensamento corre
a visão de seres que
se abocanham pelo som
sugerindo, com as suas
combinações, formas,
nunca vistas do funcio
namento do organismo.
O problema está em suster
a visão tempo suficiente
para que ela nos acompanhe
na memória da descida.
Se não, como reconhecer
o corpo que a memória
juntou com os destroços
dourados da aventura?"

in Telhados de Vidro nº8, Averno

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (23)

Devidamente apreciado por uma colega livreira.


Cliente: Tem aquele livro que abre e depois fecha? (isto acompanhado por efusivos gestos)

Acho que certos livreiros vão começar a ser canonizados... 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

What Am I?


Maria do Rosário Pedreira


Deixei de ouvir-te

"Deixei de ouvir-te. E sei que sou 
mais triste com o teu silêncio. 

Preferia pensar que só adormeceste; mas 
se encostar ao teu pulso o meu ouvido 
não escutarei senão a minha dor. 

Deus precisou de ti, bem sei. E 
não vejo como censurá-lo 

ou perdoar-lhe" 

domingo, 28 de outubro de 2012

Rui Nunes (3)

(vésperas da infância)

"és só um tempo que uma vida encontrou, a pequena bússola da morte que
se orienta pelo riso.
Não deixes a criança correr à tua frente: ela abandona a sombra aos seus
passos como se fosse uma frase que tu acabarás.
Não deixes a sua fuga perder-se no caminho, mas também não a persigas:
espera-te um fio emaranhado, o malévolo deserto onde se cruzam sinais 
de viagem.
Não te afastes pelo rumo que a bússola parece indicar: o poço está seco e
a areia cai sobre a areia numa miragem de sede"

in Telhados de Vidro nº8, Averno

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (22)

Para certas coisas não existem palavras... Além do mais, defendo que os clientes deveriam ser "autuados"pelos danos psicológicos que provocam. 

Cliente: Olhe, tem aqui daqueles livros para ler?

(!!!!!!!!!!!??????????????)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Miguel-Manso (2)

Continuação de Jean Nicot

"sou dentro de mim o que quer fugir
embora vá recusando a cada bafo
o panorama dos astronautas

tiro notas
dos calendários gigantes
das marés do sol e da lua
do rasto agrícola das nossas mãos
sobre a mesa

de madrugada
remo como exilado inca
em direcção à luz

se ainda me for fácil mentir direi
é afinal a única substância do poema
este cigarro entre estrofes."

in Contra A Manhã Burra, Mariposa Azual 

Nunca um grafite ficou tão bem numa parede (8)



Liberdade

"Ai que prazer 
Não cumprir um dever, 
Ter um livro para ler 
E não fazer! 
Ler é maçada, 
Estudar é nada. 
Sol doira 
Sem literatura 
O rio corre, bem ou mal, 
Sem edição original. 
E a brisa, essa, 
De tão naturalmente matinal, 
Como o tempo não tem pressa... 

Livros são papéis pintados com tinta. 
Estudar é uma coisa em que está indistinta 
A distinção entre nada e coisa nenhuma."

Fernando Pessoa

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Remember...


Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (21)

Cliente: Olhe, não tem aquele livro que refere o nome de um outro livro, que eu sei que dentro desse livro, tem o nome do livro que eu quero comprar?
Eu: o_O !!!!!!!!!!!!!!!! 

Helder Moura Pereira (6)


"Tu és uma melodia daquelas que não saem
da cabeça, por mais que a gente se esforce,
por mais que a gente não queira.
E agora já não és melodia, agora és martelo
a massacrar a minha alma estarrecida.
Cruzaste-te comigo num céu de cinzas, pobre 
mendigo de vontades alheias.

Reconstituímos uma falsa infância
com uma lucidez que se aproxima da demência,
leituras de retratos, caligrafias, procurando
alguém que não existiu, que se metamorfoseou.
Porque sei eu que sou eu naquele barco,
naquela canoa, com aquele lenço, com aquela
pessoa? Disseram-me e eu acreditei.

Houve um tempo em que a raiva nascia
na minha pele e contudo agora
ao ver o que ficou desse meu tempo
parece que escrevi receitas de bolos
e nem uma única festiva canção.

Perderam-me e portanto quando me encontraste
eu era um ser à deriva e fácil de encontrar.
Aldeia riscada do mapa, um pardalito
assustado, cabeça cheia de saberes
desgastados, inúteis e esquecidos."

in Se as Coisas não Fossem o Que São

Carson McCullers (2)


"Durante toda a tarde Ken Harris estivera sentado diante de uma página em branco na máquina de escrever. Era Inverno e nevava. A neve abafava o som dos automóveis e o apartamento na Village era tão silencioso que o despertador o incomodava. Trabalhava no quarto de dormir porque o quarto e os objectos da mulher o acalmavam e faziam sentir menos sozinho. O efeito da bebida de antes do almoço (ou era uma bebida para acordar?) desaparecera depois de comer uma lata de chili com carne sozinho na cozinha. Às quatro horas pôs o relógio no cesto da roupa suja e voltou para a máquina de escrever. A folha ainda estava branca e a sua brancura parecia invadir-lhe o espírito. No entanto houvera uma altura (há quanto tempo?) em que uma canção na esquina, uma voz da infância, eram suficientes para que a paisagem da memória condensasse o passado, de forma que o acaso e o presente se transfiguravam num romance, numa história; houvera uma altura em que a página vazia evocava e seleccionava as memórias e ele sentiu um domínio fantasmagórico da sua arte. Uma altura, afinal, em que era um escritor e escrevia quase todos os dias. Trabalhando duro, dividia cuidadosamente as frases, rasurava frases mal escritas e substituía as palavras repetidas. Agora sentava-se ali, curvado e com círculos debaixo dos olhos azul-acinzentados, e um boca de lábios cheios e pálidos. Era no vento escaldante do Texas da sua infância que pensava ao observar pela janela a neve que caía em Nova Iorque. E de repente uma válvula da memória abriu-se e disse as palavras enquanto as escrevia:

Who has seen the wind?
Neither you nor I:
But when the trees bow down their heads
The wind is passing by.

Os versos da infância pareciam-lhe tão sinistros que, sentado a pensar neles, as palmas das mãos ficaram húmidas de suor."

*No Conto "Quem viu o vento?"

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Josep M. Rodríguez (3)

Paixão e Morte de São Sebastião

"Pelo vão que há entre certos edifícios
cada manhã espreita o horizonte.

Os telhados são como uma escada
que me leva até Deus,
e à sua ferida sem fim
através da qual o dia
sangra.

É um lugar
onde a carne deixa de ser carne,
para se tornar fé,
interrogante,

dúvida.

É um lugar que existe e que não existe,
tal como a sombra
do pássaro mais alto.

Olho o horizonte
e nesse gesto aprendo claridade.

Atado ao frágil tronco deste dia,
cada raio de luz
brinca a matar-me."

in A Caixa Negra, Averno

Two hundred words. We live in hope


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (20)

Como é que uma livreira passa do mais largo sorriso ao esgar mais medonho que consegue? 

Cliente: Queria um livro de Franz Kafka.
Eu: (largo sorriso) Qual é a obra? O Processo, A Metamorfose, A Carta ao Pai...
Cliente: Não, o livro Anna Karenina.
Eu: (?????????!!!!!!!!!!!! o_O) Esse é mesmo de Tolstoi, que deve estar agora a dar voltas na tumba. 

domingo, 21 de outubro de 2012

"charcos da chuva sedentária do outono"


Nuno Júdice (7)

Acorda. Fala-me

"«-Por que me escreves? Que inspiração alheia
te suja os dedos de versos, se os teus lábios
não pronunciam nunca as palavras que esperei,
quando, em tardes de vento, te olhava em 
silêncio? Por que interrompes a estrofe no meu nome,
a flor obscura de uma primavera que não
chegou? Deixa-me!, entre
as copas geométricas de um ritmo vegetal,
respirando na efémera duração de vozes que não ouço;
e sob um breve bater de folhas nos arbustos
perenes que o fumo da madrugada escurece: sombra
separada da própria sombra, e eco já vago
de um canto de pássaro já morto! E não deixes que 
a minha queixa se dissipe num rumor de águas
estagnadas - charcos da chuva sedentária do outono,
lagoas baças de um choro matinal...» Desperdícios
de vida num fundo amargo de memória."

in Poesia Reunida, Dom Quixote 

sábado, 20 de outubro de 2012

Renata Correia Botelho (3)


"era uma noite branca com um rio
dentro, ali afundámos os dias
contados, as roseiras do jardim,

duas ou três horas felizes
e outros erros.

trocávamos tudo por um sopro de outono.

palmilhamos a imensa
verdade do deserto, quantos ermos

ainda entre nós e a terra húmida?"


Manuel António Pina


Não o Sonho

"Talvez sejas a breve 
recordação de um sonho 
de que alguém (talvez tu) acordou 
(não o sonho, mas a recordação dele), 
um sonho parado de que restam 
apenas imagens desfeitas, pressentimentos. 
Também eu não me lembro, 
também eu estou preso nos meus sentidos 
sem poder sair. Se pudesses ouvir, 
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos, 
animais acossados e perdidos 
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim, 
desamarraram-me de mim e agora 
só me lembro pelo lado de fora."

in Atropelamento e Fuga

We could take these stones we could build something


Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (19)

Dia dos silêncios constrangedores...

Round 1

Cliente: Olhe, eu queria daqueles livros mais pequenos, os portáteis.
Eu: Livros de bolso portanto, portáteis são os computadores.
(silêncio constrangedor)

Round 2

Cliente: Boa noite! Tem o "Intenerâncias" da Morte do Saramago?
Eu: Boa noite! Lamento mas esse ainda não foi escrito. Tenho o Intermitências da Morte, se desejar.
(silêncio constrangedor)

A livreira nem sempre consegue ficar calada...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Herberto Helder (6)

"Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde
uma paixão bárbara, um amor.
Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
Olho minha loucura, escada
sobre escada."

in Ofício Cantante

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (18)

A livreira pensava que certas coisas não voltariam a acontecer. Mas afinal acontecem, e (in)felizmente logo duas no mesmo dia.

Round 1
Cliente: Olá, precisava de uma ajudinha!
Eu: Em que posso ajudar?
Cliente: Eu estive a semana passada numa livraria e vi lá um livro, eu gostava de o comprar...
Eu: Qual o título do livro?
Cliente: Não sei. Mas é branco e com letras.

Round 2
Cliente: Olhe queria um livro, só sei que é amarelo e tem uma banana na capa.

(mas porquê a mim, porquê?)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

All that no-one sees


Rui Pires Cabral (4)

«I felt that was all unreal»

"Chega ao fim do dia
a hora mais lenta, quando o céu
é vago e as luzes se acendem
no prédio da frente.

Vemo-los por vezes
dentro das janelas, vultos
delicados como miniaturas
ou meros reflexos que passam
nos vidros.

Alguns prosseguem encargos
de sombra, outros detêm-se 
a olhar a rua, no gesto
a expressão do seu puro
enigma.

E são como provas
de coisa nenhuma. Se acaso
nos fitam, parecem dizer:
a morte não será decerto
mais estranha que a vida."

in Oráculos de Cabeceira, Averno

Diego Doncel


"Neste entardecer procurei quem sou - dizia -,
e vi em mim apenas um sonho.
E não tive sequer um pobre sinal
que revelasse qual era o meu lugar a meio da vida.
Pois tudo em mim era a obra de um sonho
da morte debaixo de um céu cansado,
o fruto do declinar do tempo ao compasso
da luz, um homem que era eu
e que via envelhecer o seu próprio rosto
e murcharem as suas mãos com as sombras
até se fazerem cinza.

O mundo este entardecer não existia
por ser também um antigo desejo
que nunca foi encarnado
e se tinha perdido ao fundo do nevoeiro.
E com ele perdia-se o meu próprio corpo
e a miséria de umas tantas lembranças
e as marcas de todas as paisagens onde nunca
pude estar vivo ou encontrei qualquer verdade
de quem podia ser eu.

Neste entardecer estou rodeado de coisas
que já morreram, e encontro-me a mim mesmo,
como se fosse um fantasma,
pelas extensões desertas de algo que não sei se é real.
Sinto dentro de mim como é permeável a consciência
que nos separa do nosso desaparecimento,
permeável como o voo de um pássaro
ou de uma borboleta,
como a areia do deserto que somos
atravessando as fronteiras de um país para outro país.
Não sou nada neste entardecer a não ser um morto
que fala com a língua dos sonhos
e cujos olhos apenas vêem
a realidade defunta do seu defunto coração.

Eu não tenho presente apenas tenho passado
e coisas que morreram, e até o passado
é apócrifo e está fora de mim.
Deste sítio olho o mundo: as árvores
como espectros que também são mentira,
as nuvens que pelo céu arrastam
o reflexo derradeiro do sol, o instante derradeiro
de realidade, o pesponto de um insecto
no peitoril a lutar inutilmente
contra o peso da geada.
E sei que também as coisas são um jogo
no espelho quebrado do destino,
um princípio de queda no princípio de irrealidade.

Quando nasci já tinha morrido e depois percebi
com pesar que eu só era o sonho
de algo falso que o próprio mundo inventou.
A consciência da morte deu-me talvez
a consciência de viver, mas ainda
não compreendi para quê." 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Living is a gamble, baby


Junichiro Tanizaki


"Ontem, apercebi-me de mais um sintoma, embora também possa tratar-se de um sintoma neurótico. Por volta das três da tarde, quando queria telefonar a Kimura, não consegui lembrar-me do número de telefone da escola dele, embora se trate de um número para onde costumo ligar quase todos os dias. É evidente que já tinha tido lapsos de memória, mas neste caso não se tratou de simples esquecimento: foi uma espécie de amnésia. Nem sequer consegui lembrar-me do número da central telefónica. Fiquei surpreendido e desconcertado. A medo, tentei pensar no nome da escola, mas também não serviu de nada. O que me surpreendeu mais foi o facto de me ter esquecido do nome de Kimura. Até recordar-me do nome da nossa empregada me parecia um esforço demasiado. (...) O pior é que nem sequer me lembrava do nome da nossa rua. A única coisa que sabia era que morávamos no bairro Sakyo de Quioto.
Fui tomado por uma enorme ansiedade. Se aquilo continuasse, se fosse piorando a pouco e pouco, não tardariam a retirar-me o meu cargo universitário." 

domingo, 14 de outubro de 2012

Nunca um grafite ficou tão bem numa parede (7)


We’re both living a lie


Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (17)

A livreira voltou a vestir o colete, passa as mãos nas lombadas e cheira o papel. A livreira adora, ama o que faz. 
Respirar livros, autores, títulos... 
E respirar muito fundo quando acontecem estas situações:

Cliente: Precisava de ajuda!
Eu: Boa Noite! Em que posso ajudar?
Cliente: Procuro... aqueles livros, está a ver? Aqueles livros de estudo.
Eu: Qual o livro que procura?
Cliente: Aquele de exames Nacionais para o 9ºAno.
Eu: Lamento, mas exames nacionais é só mesmo no 12º 0_o

sábado, 13 de outubro de 2012

Al Berto (8)

"pouco mais há a dizer. caminho largando os últimos resíduos da memória.
fragmentos de noite escritos com o coração a pressentir as catástrofes do mundo.
a grande solidão é um lugar branco povoado de mitos, de tristezas e de alegria.
mas estou quase sempre triste. algumas fotografias revelam-me que noutros
lugares já estivera triste. por exemplo, no fundo deste poço vi inclinar-se a sombra
adolescente que fui. água lunar, canaviais, luminosos escaravelhos. este sol queimando
a pele das plantas. caminho pelos textos e reparo em tudo isto. o que começo
deixo inacabado, como deixarei a vida, tenho a certeza, inacabada. o mundo
pertenceu-me, a memória revela-me essa herança, esse bem. hoje, apenas sinto o vento
reacender as feridas, nada possuo, nem sequer o sofrimento. outra memória vai tomando
forma, assusta-me. ainda quase nada aconteceu e já envelheci tanto. um jogo de estilhaços
é tudo o que possuo, a memória que vem ainda não tem a dor dentro dela. as fotografias 
e os textos, teu rosto, poderiam projectar-me para um futuro mais feliz, ou contarem-me os 
desastres dos recomeçados regressos. mas, quando mais tarde conseguir reparar que a vida
vibrou em mim, um instante, terei a certeza de que nada daquilo me pertenceu. 
nem mesmo a vida, nenhuma morte. na mesma posição, reclinado sobre meu frágil corpo,
recomeço a escrever. estou de novo ocupado em esquecer-me. a escrita é precária morada
para o vaguear do coração. resta-me a perturbação de ter atravessado os dias, humildemente,
sem queixumes. anoitece ou amanhece, tanto faz.

in O Medo

That speak of mercy for us all



Jorge Roque (6)

"As folhas da palmeira batem como se fossem chuva,
mas nenhuma chuva cai, nem os meus olhos choram.
É apenas o vento a agitar as folhas, largas, pesadas,
e por dentro, quieto, o tempo a envelhecer. Assim, 
penso, o gato deitado na soleira da porta aquece-se
ao sol que sobre ele se inclina. A porta abre-se para a
morte, é o desfecho óbvio. Mas ele não sabe, tão pouco
precisa. Se pudesse guardar um pouco de sol para as 
noites de frio, custariam menos a passar. Mas nem isso
pode."

in Telhados de Vidro, Averno

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Do you hear me when you sleep ?


Yukio Mishima (2)


"E lá estava ele, mergulhado numa surpreendente quietude; com o seu interior forrado de um ouro velho que o sol de Verão, lá fora cobrindo as paredes, protegia como laca, parecia um móvel inútil e magnífico. Aquelas imensas e vazias prateleiras de bibelots ali pousadas, em frente da verdura incendiada das madeiras... Para estar à sua altura, seria preciso um perfumador de dimensões fabulosas, ou então um vazio colossal... O Templo Dourado perdera tudo isso, varrera de uma vez a sua substância, e erguia apenas uma forma estranha e oca. Ainda mais singular: esse Templo Dourado, que tantas vezes me ofuscara com a sua beleza, pareceu-me nesse dia mais deslumbrante do que nunca. Nuna manifestara uma beleza tão forte, planando mil léguas acima da imagem que eu tinha dele, acima do mundo das realidades, sem qualquer ligação com o presente. Nunca a sua beleza fora tão fulgurante, nunca se esquivara tanto a qualquer espécie de significado."