domingo, 14 de outubro de 2012

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (17)

A livreira voltou a vestir o colete, passa as mãos nas lombadas e cheira o papel. A livreira adora, ama o que faz. 
Respirar livros, autores, títulos... 
E respirar muito fundo quando acontecem estas situações:

Cliente: Precisava de ajuda!
Eu: Boa Noite! Em que posso ajudar?
Cliente: Procuro... aqueles livros, está a ver? Aqueles livros de estudo.
Eu: Qual o livro que procura?
Cliente: Aquele de exames Nacionais para o 9ºAno.
Eu: Lamento, mas exames nacionais é só mesmo no 12º 0_o

sábado, 13 de outubro de 2012

Al Berto (8)

"pouco mais há a dizer. caminho largando os últimos resíduos da memória.
fragmentos de noite escritos com o coração a pressentir as catástrofes do mundo.
a grande solidão é um lugar branco povoado de mitos, de tristezas e de alegria.
mas estou quase sempre triste. algumas fotografias revelam-me que noutros
lugares já estivera triste. por exemplo, no fundo deste poço vi inclinar-se a sombra
adolescente que fui. água lunar, canaviais, luminosos escaravelhos. este sol queimando
a pele das plantas. caminho pelos textos e reparo em tudo isto. o que começo
deixo inacabado, como deixarei a vida, tenho a certeza, inacabada. o mundo
pertenceu-me, a memória revela-me essa herança, esse bem. hoje, apenas sinto o vento
reacender as feridas, nada possuo, nem sequer o sofrimento. outra memória vai tomando
forma, assusta-me. ainda quase nada aconteceu e já envelheci tanto. um jogo de estilhaços
é tudo o que possuo, a memória que vem ainda não tem a dor dentro dela. as fotografias 
e os textos, teu rosto, poderiam projectar-me para um futuro mais feliz, ou contarem-me os 
desastres dos recomeçados regressos. mas, quando mais tarde conseguir reparar que a vida
vibrou em mim, um instante, terei a certeza de que nada daquilo me pertenceu. 
nem mesmo a vida, nenhuma morte. na mesma posição, reclinado sobre meu frágil corpo,
recomeço a escrever. estou de novo ocupado em esquecer-me. a escrita é precária morada
para o vaguear do coração. resta-me a perturbação de ter atravessado os dias, humildemente,
sem queixumes. anoitece ou amanhece, tanto faz.

in O Medo

That speak of mercy for us all



Jorge Roque (6)

"As folhas da palmeira batem como se fossem chuva,
mas nenhuma chuva cai, nem os meus olhos choram.
É apenas o vento a agitar as folhas, largas, pesadas,
e por dentro, quieto, o tempo a envelhecer. Assim, 
penso, o gato deitado na soleira da porta aquece-se
ao sol que sobre ele se inclina. A porta abre-se para a
morte, é o desfecho óbvio. Mas ele não sabe, tão pouco
precisa. Se pudesse guardar um pouco de sol para as 
noites de frio, custariam menos a passar. Mas nem isso
pode."

in Telhados de Vidro, Averno

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Do you hear me when you sleep ?


Yukio Mishima (2)


"E lá estava ele, mergulhado numa surpreendente quietude; com o seu interior forrado de um ouro velho que o sol de Verão, lá fora cobrindo as paredes, protegia como laca, parecia um móvel inútil e magnífico. Aquelas imensas e vazias prateleiras de bibelots ali pousadas, em frente da verdura incendiada das madeiras... Para estar à sua altura, seria preciso um perfumador de dimensões fabulosas, ou então um vazio colossal... O Templo Dourado perdera tudo isso, varrera de uma vez a sua substância, e erguia apenas uma forma estranha e oca. Ainda mais singular: esse Templo Dourado, que tantas vezes me ofuscara com a sua beleza, pareceu-me nesse dia mais deslumbrante do que nunca. Nuna manifestara uma beleza tão forte, planando mil léguas acima da imagem que eu tinha dele, acima do mundo das realidades, sem qualquer ligação com o presente. Nunca a sua beleza fora tão fulgurante, nunca se esquivara tanto a qualquer espécie de significado."

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Josep M. Rodríguez (2)


Equação

"De pé neste penhasco,
aceito a mentira da paisagem.

Tudo é inacessível:
o orvalho
-que é suor vegetal-
e o comboio que passa.

Uma cegonha voa a preto e branco.

Tem o seu ninho no cimo da igreja
que fica junto ao cemitério.
Estranho paradoxo,

a pedra testemunha a fugacidade,
a carne é apenas um leito para o tempo.

(Cada osso que tenho é uma lápide
pelos mortos que escondo no meu íntimo.)

Para quê contar o tempo que nos resta?

Viver é abraçar escuridões:
do que não sabemos ao que não sabemos,
de uma distância a outra distância.
Tudo é inacessível.

Quem vê um comboio passa compreende o resto."


Que largo es el mundo Es infinito


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Desassossego (16)

"Que há-de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço."

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

Far worse to be Love's lover


Tiago Araújo (3)


2.

"as noites de insónia são de eterno retorno, onde entra, com
uma porosidade que absorve as trevas do quarto, para corrigir
o dia. estudo os movimentos, as imagens, repetidamente. volto
repetidamente ao corpo de trevas, aos lugares onde estive. a figura
que observas descreve-te as horas ausentes, com gestos ancorados.
por momentos, entre as horas, a noite é um processo mental de
te observares do exterior: és um habitante lento da cidade, entre
outros habitantes; prolongas o teu rasto de leite pela sombra."

Averno

Helder Moura Pereira (5)



"Assaltou-me a dúvida. Dei
o que tinha, que remédio, a dúvida
apontava-me uma pistola, que podia
ser de carnaval, mas também
podia não ser. E aí está
como a dúvida me levou
tudo. Socorri-me do amor, pedi
que me defendesse, mas o amor
fez orelhas moucas, o mais
que consegui foi que me deitasse
sortes, sortes que disseram
para eu contrariar a dúvida
com outra dúvida maior.
Doesse a quem doesse,
furiosamente escrevi resmas
e resmas de papel, baptizei
a minha nova dúvida de verdade
(muito conveniente), e fiz
o pino, trocei de mim, fiz pouco
das outras verdades que fui
encontrando nos livros
à medida que quis conhecer
o conteúdo exacto de todas
as religiões e depois, com seca
frieza e decisão, abracei-me
à dúvida por uma ribanceira"

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Nunca um grafite ficou tão bem numa parede (6)



Sangue

"Versos 
escrevem-se 
depois de ter sofrido. 
O coração 
dita-os apressadamente. 
E a mão tremente 
quer fixar no papel os sons dispersos... 

É só com sangue que se escrevem versos." 

Saúl Dias, in Sangue


*(a cidade por vezes consegue ser bela)

A(l)mas?


Jorge Roque (5)

Diferença

"Não te afastes. Não me finjas outro que sabes não sou. Escuta
a dor da minha diferença, escuta a ferida que nela lateja. Para
me veres nos meus olhos nus, não podes ter medo do meu rosto verdadeiro.
Escuta, sou eu quem te fala (desdobro-me em palavras para chegar a ti,
desdobro-me em gestos que nunca te alcançam.) Custa esta violência surda,
de nada, de ninguém, de mim e ti, todos nós, custa sobretudo porque sem palavras
(por isso, repara, calo cada vez mais). Custa estar tão só nesta diferença que só
pode ser um corpo, neste silêncio que é a forma da tua boca fechada, morte que
avança e tem o teu olhar (é esse mesmo que vejo no espelho).
Custa esse teu grito, último gesto, sei-o bem, último apelo, desencontrar-me,
seguir para lá de mim, extinguir-se ninguém. Mas ainda assim não te afastes.
Escuto a tua ferida, nela corre sangue igual ao meu,
Estás só, por isso estás comigo.

in Broto Sofro, Averno

domingo, 7 de outubro de 2012

Thomas Mann (2)


"As observações e vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido." 

As their shoes fill up with water


sábado, 6 de outubro de 2012

Carlos Alberto Machado (4)

"O meu baú é só metade da saudade do que não escrevi
a outra metade é dos despojos do que não sei
o meu baú envelheceu e as traças alimentam-se
de metáforas ilusões novelos de vidas e de mortes
a senhora da limpeza areja-o de quando em vez
escova o pó das palavras de que mais gosta junta-as
numa caixinha que era da senhora sua mãe
para que quero eu tanto lixo
está sempre ela a perguntar-me
e eu não sei responder por isso não me zango com ela
um destes dias ofereço o baú à minha zeladora de palavras."

in A Realidade Inclinada, Averno

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Slow and sweet


Mário Cesariny (2)


Lembra-te

"Lembra-te 
que todos os momentos 
que nos coroaram 
todas as estradas 
radiosas que abrimos 
irão achando sem fim 
seu ansioso lugar 
seu botão de florir 
o horizonte 
e que dessa procura 
extenuante e precisa 
não teremos sinal 
senão o de saber 
que irá por onde fomos 
um para o outro 
vividos"

in Pena Capital, Assírio & Alvim

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Diogo Vaz Pinto (2)

"Começar outra vez com tão
pouco: uma luz difícil caída por ali
e os nativos da chuva, magros
e quietos, como em velhas fotografias
sem moldura, cuspindo do silêncio
os caroços no leito seco do rio
que nos junta a todos na mesma sede.

De teu, vêm aqui dar sinais:
uns cabelos leves, meio estragados
mas a que o mel da tarde
se juntava tão bem, e aquele odor
meigo e teimoso, frutado, a que encostei
a boca e quis esquecer-me e foi fácil.
O amor, mentira que começava 
a interessar-me. Mas deixa lá.

Desço as mesmas ruas, torcendo-se,
onde me doem todos os anúncios
cansados, a fantasia podre
destes dias e os reflexos frágeis de mim
que apanho a meio de algum gesto,
patéticos, pedindo direcções,
por vezes, a medo, sugerindo-me
merdas e eu entre o lixo dos meus
finais possíveis, numa vontade
infectada de azul, vou estripando
com a caneta algum muro.

Para o poema tenho só restos
de noites mal dormidas, outras
descoladas da memória. Caminhos
e desvios de alguém que demora mais
cinco minutos hoje que ontem
para chegar a casa. Perdido o gosto,
o entusiasmo das coisas
em que nos sentia, isto de estarmos
sentados como se fôssemos longe.
E a água, os olhos num jeito de ir,
ficando, baços, grossos de sono.

Pouso a chávena do café no parapeito,
abotoas a camisa mas tão devagar
e fica-te um botão esquecido,
do outro lado uma corda tensa e a roupa
estendida sobre ela. Foi a uma
terça, mas de que mês, que dia e
para quê, caralho?

As árvores daqui vão dar
as primeiras flores - é apenas um aviso,
quase sem cor. Alguma coisa sempre
se recupera.

E ainda que o vento se canse
dói-me de um mesmo modo
ouvi-lo chegar assim,
como um requiem. Ponho a voz 
colada à da gravação e não me importa
o que se derrama nestes lábios...
(Wild is the wind)
Pudesse com esta canção acabar
o mundo também. Se ao menos
o inverno."

in Nervo, Averno

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Janela


The Girl by the Window, 1893

Edvard Munch (Norwegian, 1863-1944)




"Aquela janela...
embala-te enquanto cantas, pedia.
mostra-me: as tuas formas humanas,
o disparate que é a tua vida
esse lento respirar de aceitação
de um ar que está cansado,
a luz que se filtra pelas janelas
e suaviza a escravidão do aposento,
o amargo matar dos minutos em horas
descontadas em dias tão iguais,
a condensação que se eleva
da panela da sopa que te alimenta,
as vozes que te rodeiam e matam o teu cantar.
roubo-te a intimidade com o meu olhar?
desculpa."

Espelho...


domingo, 30 de setembro de 2012

You know life's too short


Rui Baião

"Que tudo fique como dantes. Aconselhou-te
o medo, o cabelo aos caracóis, a culpa
no lugar da memória. Fazes bem,
fizeste tudo como vinha no livrinho. 
Importante, a rebentação
nos vultos; esses B-sides
delinquentes de subúrbio.
Intacto, o circunscrito momento. Era
uma vez, um dia
sem dia seguinte..."

in Telhados de Vidro, Averno

sábado, 29 de setembro de 2012

Fernando Pessoa (2)


Claude Monet, "The Parc Monceau"


"Sonhar mais um sonho impossível

Lutar quando é fácil ceder

Vencer o inimigo invencível

Negar quando a regra é vender

Sofrer a tortura implacável

Romper a incabível prisão

Voar num limite provável

Tocar o inacessível chão

É minha lei, é minha questão

Virar este mundo, cravar este chão

Não me importa saber

Se é terrível demais

Quantas guerras terei que vencer

Por um pouco de paz

E amanhã se este chão que eu beijei

For meu leito e perdão

Vou saber que valeu

Delirar e morrer de paixão

E assim, seja lá como for

Vai ter fim a infinita aflição

E o mundo vai ver uma flor

Brotar do impossível chão"

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

(esmaga)


José Tolentino Mendonça (3)


Isto é o meu corpo

"O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar"

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

For you...


Franz Kafka (3)


"Por felicidade, havia apesar de tudo excepções; davam-se quando sofrias sem nada dizer, quando o amor e a bondade aplicavam a sua força em triunfar de tudo o que lhes era contrário e a embargá-lo imediatamente.  Era, por exemplo, quando estava calor no Verão e te via cabecear no armazém depois do almoço, o ar lasso, o cotovelo apoiado em cima do balcão; ou ao domingo, quando vinhas, com ar derreado, juntar-te a nós no campo; ou então quando te escondias na biblioteca dominado pelos soluços; ou ainda durante a minha última doença, quando entravas suavemente no quarto de Ottla para me ver, e ficavas no limiar, estendias o pescoço para te dares conta de mim na cama e te limitavas a saudar-me com a mão, respeitando a minha fadiga. Em tais momentos, deitava-me e chorava de felicidade, e choro agora enquanto o escrevo"

sábado, 15 de setembro de 2012

My infant spirit would awake


Nuno Júdice (6)

O Brilho das Cinzas

"A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis.
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra."

in Poesia Reunida, Dom Quixote


terça-feira, 10 de julho de 2012

Joseph Conrad




"Todas estas palavras eram acompanhadas de um olhar fixo, constante, que não largava, e que, combinando-se com a futilidade do seu discurso, sugeria uma impressão de loucura desolada e mansa. E quando fez um breve movimento mais brusco na cadeira, descendo a voz para um diapasão quase surdo de mistério, veio-me à cabeça num relâmpago a ideia de que uma reputação profissional de alto nível não é prova necessária de saúde mental."

quinta-feira, 21 de junho de 2012

(In)dizível


Desassossego (15)

"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados"

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Inês

Obrigada pelo belo Coração de Papel que guardas dentro do teu peito de livreira...
O meu fica amarfanhado...

Last night I felt...


Carlos Alberto Machado (3)

"Não disse as palavras certas
faltou-me o tom e o talento
não tires da minha boca
as palavras que não ouviste
a responsabilidade é tua já te disse
organiza como quiseres as palavras
e os silêncios
o ritmo certo da morte escolhe-o tu
a minha boca continua fechada."

in A Realidade Inclinada, Averno

Garfield



terça-feira, 19 de junho de 2012

Jorge Roque (4)

Chave

"A porta encravou-se na fechadura. O sorriso ficou esmagado
contra o batente. Carne, dor, ferro e ossos, fundidos num só
corpo sangue. Como ver através de tanto sangue? Como o
decifrar? Como o receber? A chave que procuras só o tempo
a poderá trazer. Entretanto, é tomar o comprimido e esperar,
já não por outro dia, mas por outro ano, outra vida. Sabendo
que só há esta. Sabendo que os anos, como os dias, se repetem.
Sabendo que a chave que houver, só poderá abrir outra porta.
Sabendo que o sorriso que nascer, só poderá pertencer a 
outros lábios."

in Broto Sofro, Averno

Edgar Allan Poe (2)

A Dream Within A Dream

"Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?"

560 (15)


segunda-feira, 4 de junho de 2012

(embalo)


Canto(s)

"canta, dizes tu.
(Brel toca baixinho)
e eu não sei cantar.

doi-me os pés dos
sapatos novos que me deste
a pizza que nos serviram
estava já fria

canta, dizes tu.
(Brel continua a toca baixinho)
e eu não sei se cantar.

quero uma daquelas
parvoices de cinema
que me tomes nos braços
e me dês um beijo.

canta, dizes tu.
- eu amo-te
(acho que Brel ainda toca baixinho)"

Raquel G.

*para o Gabriel