"Os meus livros (que não sabem que existo) São uma parte de mim, como este rosto De têmporas e olhos já cinzentos Que em vão vou procurando nos espelhos" Jorge Luis Borges
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Josep M. Rodríguez (2)
Equação
"De pé neste penhasco,
aceito a mentira da paisagem.
Tudo é inacessível:
o orvalho
-que é suor vegetal-
e o comboio que passa.
Uma cegonha voa a preto e branco.
Tem o seu ninho no cimo da igreja
que fica junto ao cemitério.
Estranho paradoxo,
a pedra testemunha a fugacidade,
a carne é apenas um leito para o tempo.
(Cada osso que tenho é uma lápide
pelos mortos que escondo no meu íntimo.)
Para quê contar o tempo que nos resta?
Viver é abraçar escuridões:
do que não sabemos ao que não sabemos,
de uma distância a outra distância.
Tudo é inacessível.
Quem vê um comboio passa compreende o resto."
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Desassossego (16)
"Que há-de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço."
Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
Tiago Araújo (3)
2.
"as noites de insónia são de eterno retorno, onde entra, com
uma porosidade que absorve as trevas do quarto, para corrigir
o dia. estudo os movimentos, as imagens, repetidamente. volto
repetidamente ao corpo de trevas, aos lugares onde estive. a figura
que observas descreve-te as horas ausentes, com gestos ancorados.
por momentos, entre as horas, a noite é um processo mental de
te observares do exterior: és um habitante lento da cidade, entre
outros habitantes; prolongas o teu rasto de leite pela sombra."
Averno
Helder Moura Pereira (5)
"Assaltou-me a dúvida. Dei
o que tinha, que remédio, a dúvida
apontava-me uma pistola, que podia
ser de carnaval, mas também
podia não ser. E aí está
como a dúvida me levou
tudo. Socorri-me do amor, pedi
que me defendesse, mas o amor
fez orelhas moucas, o mais
que consegui foi que me deitasse
sortes, sortes que disseram
para eu contrariar a dúvida
com outra dúvida maior.
Doesse a quem doesse,
furiosamente escrevi resmas
e resmas de papel, baptizei
a minha nova dúvida de verdade
(muito conveniente), e fiz
o pino, trocei de mim, fiz pouco
das outras verdades que fui
encontrando nos livros
à medida que quis conhecer
o conteúdo exacto de todas
as religiões e depois, com seca
frieza e decisão, abracei-me
à dúvida por uma ribanceira"
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Nunca um grafite ficou tão bem numa parede (6)
Sangue
"Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...
É só com sangue que se escrevem versos."
Saúl Dias, in Sangue
*(a cidade por vezes consegue ser bela)
Jorge Roque (5)
Diferença
"Não te afastes. Não me finjas outro que sabes não sou. Escuta
a dor da minha diferença, escuta a ferida que nela lateja. Para
me veres nos meus olhos nus, não podes ter medo do meu rosto verdadeiro.
Escuta, sou eu quem te fala (desdobro-me em palavras para chegar a ti,
desdobro-me em gestos que nunca te alcançam.) Custa esta violência surda,
de nada, de ninguém, de mim e ti, todos nós, custa sobretudo porque sem palavras
(por isso, repara, calo cada vez mais). Custa estar tão só nesta diferença que só
pode ser um corpo, neste silêncio que é a forma da tua boca fechada, morte que
avança e tem o teu olhar (é esse mesmo que vejo no espelho).
Custa esse teu grito, último gesto, sei-o bem, último apelo, desencontrar-me,
seguir para lá de mim, extinguir-se ninguém. Mas ainda assim não te afastes.
Escuto a tua ferida, nela corre sangue igual ao meu,
Estás só, por isso estás comigo.
in Broto Sofro, Averno
"Não te afastes. Não me finjas outro que sabes não sou. Escuta
a dor da minha diferença, escuta a ferida que nela lateja. Para
me veres nos meus olhos nus, não podes ter medo do meu rosto verdadeiro.
Escuta, sou eu quem te fala (desdobro-me em palavras para chegar a ti,
desdobro-me em gestos que nunca te alcançam.) Custa esta violência surda,
de nada, de ninguém, de mim e ti, todos nós, custa sobretudo porque sem palavras
(por isso, repara, calo cada vez mais). Custa estar tão só nesta diferença que só
pode ser um corpo, neste silêncio que é a forma da tua boca fechada, morte que
avança e tem o teu olhar (é esse mesmo que vejo no espelho).
Custa esse teu grito, último gesto, sei-o bem, último apelo, desencontrar-me,
seguir para lá de mim, extinguir-se ninguém. Mas ainda assim não te afastes.
Escuto a tua ferida, nela corre sangue igual ao meu,
Estás só, por isso estás comigo.
in Broto Sofro, Averno
domingo, 7 de outubro de 2012
Thomas Mann (2)
"As observações e vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido."
sábado, 6 de outubro de 2012
Carlos Alberto Machado (4)
"O meu baú é só metade da saudade do que não escrevi
a outra metade é dos despojos do que não sei
o meu baú envelheceu e as traças alimentam-se
de metáforas ilusões novelos de vidas e de mortes
a senhora da limpeza areja-o de quando em vez
escova o pó das palavras de que mais gosta junta-as
numa caixinha que era da senhora sua mãe
para que quero eu tanto lixo
está sempre ela a perguntar-me
e eu não sei responder por isso não me zango com ela
um destes dias ofereço o baú à minha zeladora de palavras."
in A Realidade Inclinada, Averno
a outra metade é dos despojos do que não sei
o meu baú envelheceu e as traças alimentam-se
de metáforas ilusões novelos de vidas e de mortes
a senhora da limpeza areja-o de quando em vez
escova o pó das palavras de que mais gosta junta-as
numa caixinha que era da senhora sua mãe
para que quero eu tanto lixo
está sempre ela a perguntar-me
e eu não sei responder por isso não me zango com ela
um destes dias ofereço o baú à minha zeladora de palavras."
in A Realidade Inclinada, Averno
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Mário Cesariny (2)
Lembra-te
"Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos"
in Pena Capital, Assírio & Alvim
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Diogo Vaz Pinto (2)
"Começar outra vez com tão
pouco: uma luz difícil caída por ali
e os nativos da chuva, magros
e quietos, como em velhas fotografias
sem moldura, cuspindo do silêncio
os caroços no leito seco do rio
que nos junta a todos na mesma sede.
De teu, vêm aqui dar sinais:
uns cabelos leves, meio estragados
mas a que o mel da tarde
se juntava tão bem, e aquele odor
meigo e teimoso, frutado, a que encostei
a boca e quis esquecer-me e foi fácil.
O amor, mentira que começava
a interessar-me. Mas deixa lá.
Desço as mesmas ruas, torcendo-se,
onde me doem todos os anúncios
cansados, a fantasia podre
destes dias e os reflexos frágeis de mim
que apanho a meio de algum gesto,
patéticos, pedindo direcções,
por vezes, a medo, sugerindo-me
merdas e eu entre o lixo dos meus
finais possíveis, numa vontade
infectada de azul, vou estripando
com a caneta algum muro.
Para o poema tenho só restos
de noites mal dormidas, outras
descoladas da memória. Caminhos
e desvios de alguém que demora mais
cinco minutos hoje que ontem
para chegar a casa. Perdido o gosto,
o entusiasmo das coisas
em que nos sentia, isto de estarmos
sentados como se fôssemos longe.
E a água, os olhos num jeito de ir,
ficando, baços, grossos de sono.
Pouso a chávena do café no parapeito,
abotoas a camisa mas tão devagar
e fica-te um botão esquecido,
do outro lado uma corda tensa e a roupa
estendida sobre ela. Foi a uma
terça, mas de que mês, que dia e
para quê, caralho?
As árvores daqui vão dar
as primeiras flores - é apenas um aviso,
quase sem cor. Alguma coisa sempre
se recupera.
E ainda que o vento se canse
dói-me de um mesmo modo
ouvi-lo chegar assim,
como um requiem. Ponho a voz
colada à da gravação e não me importa
o que se derrama nestes lábios...
(Wild is the wind)
Pudesse com esta canção acabar
o mundo também. Se ao menos
o inverno."
in Nervo, Averno
pouco: uma luz difícil caída por ali
e os nativos da chuva, magros
e quietos, como em velhas fotografias
sem moldura, cuspindo do silêncio
os caroços no leito seco do rio
que nos junta a todos na mesma sede.
De teu, vêm aqui dar sinais:
uns cabelos leves, meio estragados
mas a que o mel da tarde
se juntava tão bem, e aquele odor
meigo e teimoso, frutado, a que encostei
a boca e quis esquecer-me e foi fácil.
O amor, mentira que começava
a interessar-me. Mas deixa lá.
Desço as mesmas ruas, torcendo-se,
onde me doem todos os anúncios
cansados, a fantasia podre
destes dias e os reflexos frágeis de mim
que apanho a meio de algum gesto,
patéticos, pedindo direcções,
por vezes, a medo, sugerindo-me
merdas e eu entre o lixo dos meus
finais possíveis, numa vontade
infectada de azul, vou estripando
com a caneta algum muro.
Para o poema tenho só restos
de noites mal dormidas, outras
descoladas da memória. Caminhos
e desvios de alguém que demora mais
cinco minutos hoje que ontem
para chegar a casa. Perdido o gosto,
o entusiasmo das coisas
em que nos sentia, isto de estarmos
sentados como se fôssemos longe.
E a água, os olhos num jeito de ir,
ficando, baços, grossos de sono.
Pouso a chávena do café no parapeito,
abotoas a camisa mas tão devagar
e fica-te um botão esquecido,
do outro lado uma corda tensa e a roupa
estendida sobre ela. Foi a uma
terça, mas de que mês, que dia e
para quê, caralho?
As árvores daqui vão dar
as primeiras flores - é apenas um aviso,
quase sem cor. Alguma coisa sempre
se recupera.
E ainda que o vento se canse
dói-me de um mesmo modo
ouvi-lo chegar assim,
como um requiem. Ponho a voz
colada à da gravação e não me importa
o que se derrama nestes lábios...
(Wild is the wind)
Pudesse com esta canção acabar
o mundo também. Se ao menos
o inverno."
in Nervo, Averno
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Janela
The Girl by the Window, 1893
Edvard Munch (Norwegian, 1863-1944)
"Aquela janela...
embala-te enquanto cantas, pedia.
mostra-me: as tuas formas humanas,
o disparate que é a tua vida
esse lento respirar de aceitação
de um ar que está cansado,
a luz que se filtra pelas janelas
e suaviza a escravidão do aposento,
o amargo matar dos minutos em horas
descontadas em dias tão iguais,
a condensação que se eleva
da panela da sopa que te alimenta,
as vozes que te rodeiam e matam o teu cantar.
roubo-te a intimidade com o meu olhar?
desculpa."
domingo, 30 de setembro de 2012
Rui Baião
"Que tudo fique como dantes. Aconselhou-te
o medo, o cabelo aos caracóis, a culpa
no lugar da memória. Fazes bem,
fizeste tudo como vinha no livrinho.
Importante, a rebentação
nos vultos; esses B-sides
delinquentes de subúrbio.
Intacto, o circunscrito momento. Era
uma vez, um dia
sem dia seguinte..."
in Telhados de Vidro, Averno
o medo, o cabelo aos caracóis, a culpa
no lugar da memória. Fazes bem,
fizeste tudo como vinha no livrinho.
Importante, a rebentação
nos vultos; esses B-sides
delinquentes de subúrbio.
Intacto, o circunscrito momento. Era
uma vez, um dia
sem dia seguinte..."
in Telhados de Vidro, Averno
sábado, 29 de setembro de 2012
Fernando Pessoa (2)
Claude Monet, "The Parc Monceau"
"Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite provável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar este mundo, cravar este chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã se este chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu
Delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão"
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
José Tolentino Mendonça (3)
Isto é o meu corpo
"O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve
O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?
Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar"
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Franz Kafka (3)
"Por felicidade, havia apesar de tudo excepções; davam-se quando sofrias sem nada dizer, quando o amor e a bondade aplicavam a sua força em triunfar de tudo o que lhes era contrário e a embargá-lo imediatamente. Era, por exemplo, quando estava calor no Verão e te via cabecear no armazém depois do almoço, o ar lasso, o cotovelo apoiado em cima do balcão; ou ao domingo, quando vinhas, com ar derreado, juntar-te a nós no campo; ou então quando te escondias na biblioteca dominado pelos soluços; ou ainda durante a minha última doença, quando entravas suavemente no quarto de Ottla para me ver, e ficavas no limiar, estendias o pescoço para te dares conta de mim na cama e te limitavas a saudar-me com a mão, respeitando a minha fadiga. Em tais momentos, deitava-me e chorava de felicidade, e choro agora enquanto o escrevo"
sábado, 15 de setembro de 2012
Nuno Júdice (6)
O Brilho das Cinzas
"A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis.
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra."
in Poesia Reunida, Dom Quixote
"A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis.
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra."
in Poesia Reunida, Dom Quixote
terça-feira, 10 de julho de 2012
Joseph Conrad
"Todas estas palavras eram acompanhadas de um olhar fixo, constante, que não largava, e que, combinando-se com a futilidade do seu discurso, sugeria uma impressão de loucura desolada e mansa. E quando fez um breve movimento mais brusco na cadeira, descendo a voz para um diapasão quase surdo de mistério, veio-me à cabeça num relâmpago a ideia de que uma reputação profissional de alto nível não é prova necessária de saúde mental."
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Desassossego (15)
"E assim sou,
fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons,
nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que
continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser
a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma
criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me
interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos
gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus
dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e
o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte
ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já
lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso
descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele
disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que
recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a
distância - irmãos siameses que não estão pegados"
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Inês
Obrigada pelo belo Coração de Papel que guardas dentro do teu peito de livreira...
O meu fica amarfanhado...
Carlos Alberto Machado (3)
"Não disse as palavras certas
faltou-me o tom e o talento
não tires da minha boca
as palavras que não ouviste
a responsabilidade é tua já te disse
organiza como quiseres as palavras
e os silêncios
o ritmo certo da morte escolhe-o tu
a minha boca continua fechada."
terça-feira, 19 de junho de 2012
Jorge Roque (4)
Chave
"A porta encravou-se na fechadura. O sorriso ficou esmagado
contra o batente. Carne, dor, ferro e ossos, fundidos num só
corpo sangue. Como ver através de tanto sangue? Como o
decifrar? Como o receber? A chave que procuras só o tempo
a poderá trazer. Entretanto, é tomar o comprimido e esperar,
já não por outro dia, mas por outro ano, outra vida. Sabendo
que só há esta. Sabendo que os anos, como os dias, se repetem.
Sabendo que a chave que houver, só poderá abrir outra porta.
Sabendo que o sorriso que nascer, só poderá pertencer a
outros lábios."
Edgar Allan Poe (2)
A Dream Within A Dream
"Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.
I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?"
"Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.
I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?"
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Canto(s)
"canta, dizes tu.
(Brel toca baixinho)
e eu não sei cantar.
doi-me os pés dos
sapatos novos que me deste
a pizza que nos serviram
estava já fria
canta, dizes tu.
(Brel continua a toca baixinho)
e eu não sei se cantar.
quero uma daquelas
parvoices de cinema
que me tomes nos braços
e me dês um beijo.
canta, dizes tu.
- eu amo-te
(acho que Brel ainda toca baixinho)"
Raquel G.
*para o Gabriel
(Brel toca baixinho)
e eu não sei cantar.
doi-me os pés dos
sapatos novos que me deste
a pizza que nos serviram
estava já fria
canta, dizes tu.
(Brel continua a toca baixinho)
e eu não sei se cantar.
quero uma daquelas
parvoices de cinema
que me tomes nos braços
e me dês um beijo.
canta, dizes tu.
- eu amo-te
(acho que Brel ainda toca baixinho)"
Raquel G.
*para o Gabriel
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Rui Pires Cabral (3)
«We are flint and steel to each other.»
"Ontem choveu sem descanso
e fizemos tudo mal. São dias
de pedra e aço - alguém sabe
onde nos levam? Dão-nos
um amor volúvel que lisonjeia
os sentidos, mas não podem
consolar-nos da penúria
de existirmos, tu e eu, cada um
na sua pele, no seu áspero
lugar. E lembram-nos a todo
o instante do que já estava perdido
no escuro de uma gaveta
antes de ter começado,
como um verso interrompido
nas costas de um envelope
ou uma velha cassete
que mal chegamos a ouvir,
hora e meia de remorso
e distorção. Não te salvo,
não me salvas - nem é certo,
quando o medo se demora,
que haja ainda o que salvar.
Contra o frio que nos ronda,
resta o lume que ateamos
por ternura, desfastio
ou vontade de vingar
o dissabor de viver."
segunda-feira, 21 de maio de 2012
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Let the wind blow through your heart
"Love me love me love me
Say you do
Let me fly away
with you
For my love is like
the wind
And wild is the wind
Give me more
than one caress
Satisfy this
hungriness
Let the wind
blow through your heart
For wild is the wind
You...
touch me...
I hear the sound
of mandolins
You...
kiss me...
With your kiss
my life begins
You're spring to me
All things
to me
Don't you know you're
life itself
Like a leaf clings
to a tree
Oh my darling,
cling to me
For we're creatures
of the wind
And wild is the wind
So wild is the wind
Wild is the wind
Wild is the wind"
Say you do
Let me fly away
with you
For my love is like
the wind
And wild is the wind
Give me more
than one caress
Satisfy this
hungriness
Let the wind
blow through your heart
For wild is the wind
You...
touch me...
I hear the sound
of mandolins
You...
kiss me...
With your kiss
my life begins
You're spring to me
All things
to me
Don't you know you're
life itself
Like a leaf clings
to a tree
Oh my darling,
cling to me
For we're creatures
of the wind
And wild is the wind
So wild is the wind
Wild is the wind
Wild is the wind"
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Carlos Alberto Machado (2)
"Anos a fio guardaste
fios de conversas
alheias ao teu ouvir
fios que se esticavam
e se uniam a outros
iguais ou diferentes
a todos a tua paciência
e as tuas mãos hábeis
orientaram para um fim
da vida assim tecida mas
um dia algo se quebrou
em ti ou na dureza dos fios
e tombaste na terra fria
sem adivinhares o sentido
da vida por desfiar."
Albert Camus (2)
"Nunca tive necessidade de aprender a viver. Nesse ponto, já tudo eu sabia ao nascer. Há pessoas cujo problema consiste em resguardarem-se dos homens ou, pelo menos, acomodarem-se a eles. Quanto a mim a acomodação estava feita. Familiar quando era preciso, silencioso se necessário, capaz de desenvoltura como de gravidade, estava sempre ao nível. Era por isso grande a minha popularidade, e os meus êxitos na sociedade nem se contavam. Tinha boa figura, revelava-me simultaneamente bailarino infatigável e discreto erudito, chegava a amar ao mesmo tempo, o que não é nada fácil, as mulheres e a justiça, dedicava-me aos desportos e às belas artes, enfim, não digo mais, não vá suspeitar que me envaideço. Mas imagine, peço-lhe, um homem na força da idade, de perfeita saúde, generosamente dotado, hábil nos exercícios do corpo como nos do intelecto, nem pobre nem rico, de sono fácil e profundamente satisfeito consigo mesmo, sem que o mostrasse, a não ser por uma feliz sociabilidade. Admitirá, pois, que eu possa falar com verdadeira modéstia de uma vida em pleno êxito."
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