quinta-feira, 27 de setembro de 2012

José Tolentino Mendonça (3)


Isto é o meu corpo

"O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar"

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

For you...


Franz Kafka (3)


"Por felicidade, havia apesar de tudo excepções; davam-se quando sofrias sem nada dizer, quando o amor e a bondade aplicavam a sua força em triunfar de tudo o que lhes era contrário e a embargá-lo imediatamente.  Era, por exemplo, quando estava calor no Verão e te via cabecear no armazém depois do almoço, o ar lasso, o cotovelo apoiado em cima do balcão; ou ao domingo, quando vinhas, com ar derreado, juntar-te a nós no campo; ou então quando te escondias na biblioteca dominado pelos soluços; ou ainda durante a minha última doença, quando entravas suavemente no quarto de Ottla para me ver, e ficavas no limiar, estendias o pescoço para te dares conta de mim na cama e te limitavas a saudar-me com a mão, respeitando a minha fadiga. Em tais momentos, deitava-me e chorava de felicidade, e choro agora enquanto o escrevo"

sábado, 15 de setembro de 2012

My infant spirit would awake


Nuno Júdice (6)

O Brilho das Cinzas

"A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis.
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra."

in Poesia Reunida, Dom Quixote


terça-feira, 10 de julho de 2012

Joseph Conrad




"Todas estas palavras eram acompanhadas de um olhar fixo, constante, que não largava, e que, combinando-se com a futilidade do seu discurso, sugeria uma impressão de loucura desolada e mansa. E quando fez um breve movimento mais brusco na cadeira, descendo a voz para um diapasão quase surdo de mistério, veio-me à cabeça num relâmpago a ideia de que uma reputação profissional de alto nível não é prova necessária de saúde mental."

quinta-feira, 21 de junho de 2012

(In)dizível


Desassossego (15)

"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados"

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Inês

Obrigada pelo belo Coração de Papel que guardas dentro do teu peito de livreira...
O meu fica amarfanhado...

Last night I felt...


Carlos Alberto Machado (3)

"Não disse as palavras certas
faltou-me o tom e o talento
não tires da minha boca
as palavras que não ouviste
a responsabilidade é tua já te disse
organiza como quiseres as palavras
e os silêncios
o ritmo certo da morte escolhe-o tu
a minha boca continua fechada."

in A Realidade Inclinada, Averno

Garfield



terça-feira, 19 de junho de 2012

Jorge Roque (4)

Chave

"A porta encravou-se na fechadura. O sorriso ficou esmagado
contra o batente. Carne, dor, ferro e ossos, fundidos num só
corpo sangue. Como ver através de tanto sangue? Como o
decifrar? Como o receber? A chave que procuras só o tempo
a poderá trazer. Entretanto, é tomar o comprimido e esperar,
já não por outro dia, mas por outro ano, outra vida. Sabendo
que só há esta. Sabendo que os anos, como os dias, se repetem.
Sabendo que a chave que houver, só poderá abrir outra porta.
Sabendo que o sorriso que nascer, só poderá pertencer a 
outros lábios."

in Broto Sofro, Averno

Edgar Allan Poe (2)

A Dream Within A Dream

"Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?"

560 (15)


segunda-feira, 4 de junho de 2012

(embalo)


Canto(s)

"canta, dizes tu.
(Brel toca baixinho)
e eu não sei cantar.

doi-me os pés dos
sapatos novos que me deste
a pizza que nos serviram
estava já fria

canta, dizes tu.
(Brel continua a toca baixinho)
e eu não sei se cantar.

quero uma daquelas
parvoices de cinema
que me tomes nos braços
e me dês um beijo.

canta, dizes tu.
- eu amo-te
(acho que Brel ainda toca baixinho)"

Raquel G.

*para o Gabriel

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Rui Pires Cabral (3)

«We are flint and steel to each other.»

"Ontem choveu sem descanso
e fizemos tudo mal. São dias
de pedra e aço - alguém sabe
onde nos levam? Dão-nos
um amor volúvel que lisonjeia
os sentidos, mas não podem
consolar-nos da penúria
de existirmos, tu e eu, cada um
na sua pele, no seu áspero

lugar. E lembram-nos a todo
o instante do que já estava perdido
no escuro de uma gaveta
antes de ter começado,
como um verso interrompido
nas costas de um envelope
ou uma velha cassete
que mal chegamos a ouvir,
hora e meia de remorso

e distorção. Não te salvo,
não me salvas - nem é certo,
quando o medo se demora,
que haja ainda o que salvar.
Contra o frio que nos ronda,
resta o lume que ateamos
por ternura, desfastio
ou vontade de vingar
o dissabor de viver."

in Oráculos de Cabeceira, Averno

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Let the wind blow through your heart

"Love me love me love me
Say you do
Let me fly away
with you
For my love is like
the wind
And wild is the wind

Give me more
than one caress
Satisfy this
hungriness
Let the wind
blow through your heart
For wild is the wind

You...
touch me...
I hear the sound
of mandolins
You...
kiss me...
With your kiss
my life begins
You're spring to me
All things
to me

Don't you know you're
life itself
Like a leaf clings
to a tree
Oh my darling,
cling to me
For we're creatures
of the wind
And wild is the wind
So wild is the wind

Wild is the wind
Wild is the wind"

Nina Simone

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Carlos Alberto Machado (2)

"Anos a fio guardaste
fios de conversas
alheias ao teu ouvir
fios que se esticavam
e se uniam a outros
iguais ou diferentes
a todos a tua paciência
e as tuas mãos hábeis
orientaram para um fim
da vida assim tecida mas
um dia algo se quebrou
em ti ou na dureza dos fios
e tombaste na terra fria
sem adivinhares o sentido
da vida por desfiar."

in A Realidade Inclinada, Averno

Shaun Tan




Albert Camus (2)



"Nunca tive necessidade de aprender a viver. Nesse ponto, já tudo eu sabia ao nascer. Há pessoas cujo problema consiste em resguardarem-se dos homens ou, pelo menos, acomodarem-se a eles. Quanto a mim a acomodação estava feita. Familiar quando era preciso, silencioso se necessário, capaz de desenvoltura como de gravidade, estava sempre ao nível. Era por isso grande a minha popularidade, e os meus êxitos na sociedade nem se contavam. Tinha boa figura, revelava-me simultaneamente bailarino infatigável e discreto erudito, chegava a amar ao mesmo tempo, o que não é nada fácil, as mulheres e a justiça, dedicava-me aos desportos e às belas artes, enfim, não digo mais, não vá suspeitar que me envaideço. Mas imagine, peço-lhe, um homem na força da idade, de perfeita saúde, generosamente dotado, hábil nos exercícios do corpo como nos do intelecto, nem pobre nem rico, de sono fácil e profundamente satisfeito consigo mesmo, sem que o mostrasse, a não ser por uma feliz sociabilidade. Admitirá, pois, que eu possa falar com verdadeira modéstia de uma vida em pleno êxito."

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Nunca um grafite ficou tão bem numa parede (5)


Eugénio de Andrade (2)

Corpo habitado


"Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.

Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.

Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.

Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação."

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Meus olhos não aguentam o sal


Jorge Roque (3)

"Calaram-se todos os poemas, restou só o silêncio da morte sem mácula. Calaram-se todas as esperanças, restou só o movimento dos meus gestos sem futuro. Contra o céu maior da eternidade da minha morte, da eternidade da morte de tudo, todo o som é vão, toda a resposta inútil.

Bichos que nascem, crescem, lutam, cansam, ganham, perdem, morrem. Para lá disto só o amor, por um instante maior que a morte. Para lá disto só o amor que também morre.

Porque é aqui mesmo que estamos, com maior ou menor ilusão. E aqui mesmo permanecemos, sem ilusão também. Porque tão pouco a negação da glória o alcança, num sentido digamos religioso. Como não o alcança o oco da glória, num sentido ardentemente chão que não pode ser mais alto do que o chão que há.

Porque é isso mesmo que sobra:nada. E é deste mesmo excesso que a vida se faz."

in Telhados de Vidro nº8, Averno

quinta-feira, 26 de abril de 2012

560 (14)


Mário Cesariny

Voz numa Pedra

"Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Ísis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco e flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do mênstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe a cidade futura
onde “a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela”
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhes como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
“a machadada e o propósito de não sacrificar-se não constituirão ao sol coisa nenhuma”
nada está escrito afinal"

in Pena Capital, Assirio & Alvim

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sock Monkey






Herberto Helder (5)

"Estremece-se às vezes desde o chão,
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive - tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso - estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou à mão
ao gesto
amassando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
- o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
ou é Deus que nos olha em cheio: dentro"


in Ofício Cantante, Assírio & Alvim

560 (13)


sexta-feira, 20 de abril de 2012

António Ramos Rosa (3)

Um mundo

"É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo."

in Acordes, Quetzal

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Tiago Araújo (2)

15. (parábola)

"era um jogo. desenhávamos a giz formas no alcatrão, dávamo-lhes o nome de países: dentro delas não podiam tocar-nos e a restrição estava convencionada com a rigidez de uma moralidade infantil; se saíamos, para o desabrigo da rua onde se cresce, tentávamos não nos deixar apanhar. com o tempo a maioria de nós foi trazendo para dentro pequenos objectos e pessoas. criámos um espaço de conforto até a distinção entre interior e exterior se ter totalmente esbatido. poderia dizer-se que as linhas fechadas continham o negrume e que a dado momento, sem que nos tenhamos apercebido, perderam funções e propriedades. cá dentro podem tocar-nos, sem que seja possível distinguir a repulsa do prazer, quem ganhou e quem perdeu."

in Livre Arbítrio, Averno

Ana Teresa Pereira (7)



"Caía uma chuva miudinha quando John saiu do cinema. Levantou a gola do impermeável e afundou-se na rua submersa em nevoeiro.
Na sua mente continuavam a passar imagens do filme. Um filme de Alfred Hitchcock, com Cary Grant e Ingrid Bergman. Aquele beijo interminável, a mulher cambaleando junto ao banco de jardim, o baile, a chave escondida na mão, tudo lhe fazia lembrar um conto de fadas. Talvez porque, como Chesterton, tinha uma visão do mundo nascida dos contos de fadas...
O nevoeiro transformara-se numa leve neblina quando se aproximou do parque. As trevas tornaram-se menos frias, quase doces e um perfume de flores e terra molhada fê-lo respirar fundo. Inesperadamente, ouviu uma voz que cantava entre as árvores.
Deteve-se por instantes, sem saber o que fazer. Não se via ninguém e o mundo era um espaço nevoento que os candeeiros a gás, de longe a longe, tornavam ainda mais irreal.
Deu uns passos em frente e apercebeu-se de que a claridade do luar atravessava a folhagem das árvores, como se o jardim estivesse noutra dimensão, longe dos chuviscos e do nevoeiro de Londres.
Agora já percebia as palavras.
«I wish, I wish, but it's all in vain,
I wish I were a maid again;
But a maid again I never shall be
Till apples grow on a orange tree.»
A impressão de irrealidade acentuou-se quando viu a mulher.
Ela estava de pé, junto aos baloiços vazios, e tinha um vestido branco.
John aproximou-se e viu-a estender o braço para um baloiço que se pôs em movimento com um pequeno rangido.
«Um jardim para crianças mortas», pensou, olhando para a areia molhada."

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Pablo Neruda

O Teu Riso

"Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria."

in Cem Sonetos de Amor

Are you?

João Ricardo Lopes (4)

Nota de Rodapé

"lâmpada baça por onde vem o silêncio
segregado e resfolegam os olhos.
faço-o de novo até muito tarde
e tu reclamas-me docemente, por entre
capítulos obscuros de papel pardo
e destroços de carvão.
às vezes distrai-me a asa de um queixume
o teu corpo sai a terreiro, como que a
defender o quinhão de lume que lhe pertence.
é tarde e tu respiras convulsionando
as minhas palavras, adormecida.
não cheguei a dizer-to, nunca chego
a dizê-lo. o amor é sempre tão de repente"


in reflexões à boca de cena, Labirinto

terça-feira, 17 de abril de 2012

Lev Tolstói




"Quando entrou na sala de estar tudo lhe pareceu louco e antinatural. Ainda de manhã se levantara enérgico, com a firme decisão de acabar, de esquecer, de se proibir de pensar nela. Porém, contra a sua vontade, passou toda a manhã sem de interessar pelo trabalho, fazendo tudo para se libertar dele. O que havia pouco era importante para ele e lhe dava prazer parecia agora insignificante. Inconscientemente, tentava esquivar-se do trabalho, achava que só podia reflectir e analisar as coisas se se livrasse dele. Pôs então de lado todas as tarefas e isolou-se. Mal ficou sozinho, porém, foi vaguear pelo jardim, pela floresta. Sentia que todos os lugares por onde passava estavam emporcalhados pelas recordações, recordações que ao mesmo tempo o fascinavam. Deu por si a andar pelo jardim e a dizer a si mesmo que estava a reflectir em qualquer coisa, mas na verdade não pensava em nada, apenas esperava por ela numa ânsia louca, infundada, esperava por ela, por um qualquer milagre, percebesse como ele a desejava e aparecesse de repente, ali ou noutro sítio onde ninguém os visse, ou de noite, sem lua, e nem ela o veria, e ele tocaria o seu corpo..."

560 (12)

Desassossego (14)

"Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no infinito. Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair. Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contacto de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece - não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!"

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

Fiama Hasse Pais Brandão

A um poema


"A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelado nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.

O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-Ihe-ei
rigor evocativo, em nada diminui

sequer no poema a emoção abrupta.
Tão perturbada com a intensa mancha
colorida. Umas passadas hesitantes.
entre formas vulgares e tão diferentes.
A descrição distante. Sobretudo esta
alheada distância em relação a um Poema."


in Três Rostos - Poemas Revistos

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sleep Dealer

Helder Moura Pereira (4)

Quando estamos assim

"Quando estamos assim
deitados e nus, sem
a minha cara saber
se é a tua cara à frente
dela, parece-me bem
que o mundo é uma coisa
às escuras, sem importância
nenhuma. Dou a volta,
rodopio como um artista
de circo, estou dentro
de uma rotina, quando
lavo os dentes e visto
o pijama de flanela às riscas
sinto-me um miúdo pequeno
que desconhece o que é
morrer. Chamaste-me
sentimental, sentimental
é a tua tia."

in Um Raio de Sol, Assírio & Alvim

Al Berto (7)

"a manhã começou a furar a noite
chega-me pelas frinchas das persianas
cheira a cimento molhado e a bolor
parto dentro de breves instantes
apenas levo a roupa que trago vestida e algum dinheiro
muito pouco
daquele que normalmente se destina às despesas da casa
espero que encontres neste acto um pretexto para me odiares
não levo recordações
a não ser aquelas que por mero acaso mencionei nesta carta
quase nada
poderás deitar fora a minha roupa
e todos os meus objectos pessoais
para onde vou não preciso deles
as fotografias queimei-as ontem enquanto saíste
se telefonarem do emprego diz
que fui ver se ainda existem Índias por descobrir
ou que morri ou que me transformei
diz o que te der mais jeito
pensei deixar-te duas cartas para meteres no correio
mas no último instante eu mesmo as ponho no marco da esquina

quando te levantares e abrires a janela
a luz espalhar-se-á por toda a casa
sem mim a casa amanhecerá doutra maneira
a ausência que já sou estando aqui e a culpa
impregnar-se-ão em tudo quanto existiu entre nós
tornar-se-á insuportável continuares a viver sozinha
eu estarei longe
nas costas dalguma Etiópia
onde quantidades de lumes se avistam
longe
no cimo lúcido de meu próprio corpo contemplando
o fulgurante sangue dos astros
muito longe
no segredo desse lugar único
em que a escuridão da noite parece eterna claridade"


"Carta Da Árvore Triste" in O Medo, Assírio & Alvim