"Os meus livros (que não sabem que existo) São uma parte de mim, como este rosto De têmporas e olhos já cinzentos Que em vão vou procurando nos espelhos" Jorge Luis Borges
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Eugénio de Andrade (2)
Corpo habitado
"Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.
Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.
Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.
Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação."
"Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.
Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.
Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.
Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação."
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Jorge Roque (3)
"Calaram-se todos os poemas, restou só o silêncio da morte sem mácula. Calaram-se todas as esperanças, restou só o movimento dos meus gestos sem futuro. Contra o céu maior da eternidade da minha morte, da eternidade da morte de tudo, todo o som é vão, toda a resposta inútil.
Bichos que nascem, crescem, lutam, cansam, ganham, perdem, morrem. Para lá disto só o amor, por um instante maior que a morte. Para lá disto só o amor que também morre.
Porque é aqui mesmo que estamos, com maior ou menor ilusão. E aqui mesmo permanecemos, sem ilusão também. Porque tão pouco a negação da glória o alcança, num sentido digamos religioso. Como não o alcança o oco da glória, num sentido ardentemente chão que não pode ser mais alto do que o chão que há.
Porque é isso mesmo que sobra:nada. E é deste mesmo excesso que a vida se faz."
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Mário Cesariny
Voz numa Pedra
"Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Ísis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco e flecha negro e azul do vento
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do mênstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe a cidade futura
onde “a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela”
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhes como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
“a machadada e o propósito de não sacrificar-se não constituirão ao sol coisa nenhuma”
nada está escrito afinal"
"Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Ísis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco e flecha negro e azul do vento
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do mênstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe a cidade futura
onde “a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela”
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhes como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
“a machadada e o propósito de não sacrificar-se não constituirão ao sol coisa nenhuma”
nada está escrito afinal"
terça-feira, 24 de abril de 2012
Herberto Helder (5)
"Estremece-se às vezes desde o chão,
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive - tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso - estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou à mão
ao gesto
amassando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
- o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
ou é Deus que nos olha em cheio: dentro"
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive - tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso - estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou à mão
ao gesto
amassando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
- o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
ou é Deus que nos olha em cheio: dentro"
sexta-feira, 20 de abril de 2012
António Ramos Rosa (3)
Um mundo
"É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo."
"É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo."
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Tiago Araújo (2)
15. (parábola)
"era um jogo. desenhávamos a giz formas no alcatrão, dávamo-lhes o nome de países: dentro delas não podiam tocar-nos e a restrição estava convencionada com a rigidez de uma moralidade infantil; se saíamos, para o desabrigo da rua onde se cresce, tentávamos não nos deixar apanhar. com o tempo a maioria de nós foi trazendo para dentro pequenos objectos e pessoas. criámos um espaço de conforto até a distinção entre interior e exterior se ter totalmente esbatido. poderia dizer-se que as linhas fechadas continham o negrume e que a dado momento, sem que nos tenhamos apercebido, perderam funções e propriedades. cá dentro podem tocar-nos, sem que seja possível distinguir a repulsa do prazer, quem ganhou e quem perdeu."
Ana Teresa Pereira (7)
"Caía uma chuva miudinha quando John saiu do cinema. Levantou a gola do impermeável e afundou-se na rua submersa em nevoeiro.
Na sua mente continuavam a passar imagens do filme. Um filme de Alfred Hitchcock, com Cary Grant e Ingrid Bergman. Aquele beijo interminável, a mulher cambaleando junto ao banco de jardim, o baile, a chave escondida na mão, tudo lhe fazia lembrar um conto de fadas. Talvez porque, como Chesterton, tinha uma visão do mundo nascida dos contos de fadas...
O nevoeiro transformara-se numa leve neblina quando se aproximou do parque. As trevas tornaram-se menos frias, quase doces e um perfume de flores e terra molhada fê-lo respirar fundo. Inesperadamente, ouviu uma voz que cantava entre as árvores.
Deteve-se por instantes, sem saber o que fazer. Não se via ninguém e o mundo era um espaço nevoento que os candeeiros a gás, de longe a longe, tornavam ainda mais irreal.
Deu uns passos em frente e apercebeu-se de que a claridade do luar atravessava a folhagem das árvores, como se o jardim estivesse noutra dimensão, longe dos chuviscos e do nevoeiro de Londres.
Agora já percebia as palavras.
«I wish, I wish, but it's all in vain,
I wish I were a maid again;
But a maid again I never shall be
Till apples grow on a orange tree.»
A impressão de irrealidade acentuou-se quando viu a mulher.
Ela estava de pé, junto aos baloiços vazios, e tinha um vestido branco.
John aproximou-se e viu-a estender o braço para um baloiço que se pôs em movimento com um pequeno rangido.
«Um jardim para crianças mortas», pensou, olhando para a areia molhada."
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Pablo Neruda
O Teu Riso
"Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria."
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria."
João Ricardo Lopes (4)
Nota de Rodapé
"lâmpada baça por onde vem o silêncio
segregado e resfolegam os olhos.
faço-o de novo até muito tarde
e tu reclamas-me docemente, por entre
capítulos obscuros de papel pardo
e destroços de carvão.
às vezes distrai-me a asa de um queixume
o teu corpo sai a terreiro, como que a
defender o quinhão de lume que lhe pertence.
é tarde e tu respiras convulsionando
as minhas palavras, adormecida.
não cheguei a dizer-to, nunca chego
a dizê-lo. o amor é sempre tão de repente"
terça-feira, 17 de abril de 2012
Lev Tolstói
"Quando entrou na sala de estar tudo lhe pareceu louco e antinatural. Ainda de manhã se levantara enérgico, com a firme decisão de acabar, de esquecer, de se proibir de pensar nela. Porém, contra a sua vontade, passou toda a manhã sem de interessar pelo trabalho, fazendo tudo para se libertar dele. O que havia pouco era importante para ele e lhe dava prazer parecia agora insignificante. Inconscientemente, tentava esquivar-se do trabalho, achava que só podia reflectir e analisar as coisas se se livrasse dele. Pôs então de lado todas as tarefas e isolou-se. Mal ficou sozinho, porém, foi vaguear pelo jardim, pela floresta. Sentia que todos os lugares por onde passava estavam emporcalhados pelas recordações, recordações que ao mesmo tempo o fascinavam. Deu por si a andar pelo jardim e a dizer a si mesmo que estava a reflectir em qualquer coisa, mas na verdade não pensava em nada, apenas esperava por ela numa ânsia louca, infundada, esperava por ela, por um qualquer milagre, percebesse como ele a desejava e aparecesse de repente, ali ou noutro sítio onde ninguém os visse, ou de noite, sem lua, e nem ela o veria, e ele tocaria o seu corpo..."
Desassossego (14)
"Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no infinito. Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair. Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contacto de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece - não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!"
Fiama Hasse Pais Brandão
A um poema
"A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelado nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.
O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-Ihe-ei
rigor evocativo, em nada diminui
sequer no poema a emoção abrupta.
Tão perturbada com a intensa mancha
colorida. Umas passadas hesitantes.
entre formas vulgares e tão diferentes.
A descrição distante. Sobretudo esta
alheada distância em relação a um Poema."
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Helder Moura Pereira (4)
Quando estamos assim
"Quando estamos assim
deitados e nus, sem
a minha cara saber
se é a tua cara à frente
dela, parece-me bem
que o mundo é uma coisa
às escuras, sem importância
nenhuma. Dou a volta,
rodopio como um artista
de circo, estou dentro
de uma rotina, quando
lavo os dentes e visto
o pijama de flanela às riscas
sinto-me um miúdo pequeno
que desconhece o que é
morrer. Chamaste-me
sentimental, sentimental
é a tua tia."
"Quando estamos assim
deitados e nus, sem
a minha cara saber
se é a tua cara à frente
dela, parece-me bem
que o mundo é uma coisa
às escuras, sem importância
nenhuma. Dou a volta,
rodopio como um artista
de circo, estou dentro
de uma rotina, quando
lavo os dentes e visto
o pijama de flanela às riscas
sinto-me um miúdo pequeno
que desconhece o que é
morrer. Chamaste-me
sentimental, sentimental
é a tua tia."
Al Berto (7)
"a manhã começou a furar a noite
chega-me pelas frinchas das persianas
cheira a cimento molhado e a bolor
parto dentro de breves instantes
apenas levo a roupa que trago vestida e algum dinheiro
muito pouco
daquele que normalmente se destina às despesas da casa
espero que encontres neste acto um pretexto para me odiares
não levo recordações
a não ser aquelas que por mero acaso mencionei nesta carta
quase nada
poderás deitar fora a minha roupa
e todos os meus objectos pessoais
para onde vou não preciso deles
as fotografias queimei-as ontem enquanto saíste
se telefonarem do emprego diz
que fui ver se ainda existem Índias por descobrir
ou que morri ou que me transformei
diz o que te der mais jeito
pensei deixar-te duas cartas para meteres no correio
mas no último instante eu mesmo as ponho no marco da esquina
quando te levantares e abrires a janela
a luz espalhar-se-á por toda a casa
sem mim a casa amanhecerá doutra maneira
a ausência que já sou estando aqui e a culpa
impregnar-se-ão em tudo quanto existiu entre nós
tornar-se-á insuportável continuares a viver sozinha
eu estarei longe
nas costas dalguma Etiópia
onde quantidades de lumes se avistam
longe
no cimo lúcido de meu próprio corpo contemplando
o fulgurante sangue dos astros
muito longe
no segredo desse lugar único
em que a escuridão da noite parece eterna claridade"
sábado, 31 de março de 2012
Ana Hatherly (3)
Falo do que é físico
"Falo do que é físico porque não tenho outra realidade.
Falo do corpo
do mundo
do que ainda não sabemos e chamamos divino.
Falo do que é físico
porque tudo o que é real tem corpo e ocupa espaço.
Falo disso.
Falo do que existe
e tudo é tanto que nunca chega o tempo
nunca chega o fôlego.
Vejo até à asfixia
gente, coisas, o invisível.
Tudo me faz estar em permanente frêmito
sair para a rua de noite
e andar até cair de cansaço.
Pensando em tudo isso
extremamente sobreposto
como se uma grande dor não anulasse outra
como se fosse possível
pensar em mais de uma coisa de uma só vez
sentindo o simultâneo impossível
querendo abranger
a incontrolável voracidade dentro de tudo.
Corro por mim fora
como um grande atleta
campeão de barreiras e distâncias invencíveis
tentando vencer
mas tudo é enorme e intrincado
tudo em mim são olhos vigilantes
sem jamais pálpebra.
Mas tudo isso não chega.
Tudo é enorme
e morro tão depressa."
in A Idade da Escrita, edições Tema
"Roubado" aqui
sexta-feira, 30 de março de 2012
Renata Correia Botelho (2)
La Confession
"também eu trago nos ossos
a culpa, a minha grande culpa,
um hábito antigo e longo
que me disfarça as cicatrizes.
tenho frio e uma confissão
para te fazer: traí-te tanto
com outros versos, corpos
belíssimos, esguios e quentes
aninhando-se comigo na cama.
trago esta culpa nos ossos,
enganei-te letra após letra,
sem pudor, feri de morte ton espoir
etnton grand sens de l'honneur,
essa vaidade de verso livre
com que atravessas o papel.
traí-te sem pensar e dir-te-ia
para partires já, ligeiro e mudo,
não fosse esta grande culpa
nos ossos, que me reescrever-te
ainda sobre o vazio do poema."
in small song, Averno
"também eu trago nos ossos
a culpa, a minha grande culpa,
um hábito antigo e longo
que me disfarça as cicatrizes.
tenho frio e uma confissão
para te fazer: traí-te tanto
com outros versos, corpos
belíssimos, esguios e quentes
aninhando-se comigo na cama.
trago esta culpa nos ossos,
enganei-te letra após letra,
sem pudor, feri de morte ton espoir
etnton grand sens de l'honneur,
essa vaidade de verso livre
com que atravessas o papel.
traí-te sem pensar e dir-te-ia
para partires já, ligeiro e mudo,
não fosse esta grande culpa
nos ossos, que me reescrever-te
ainda sobre o vazio do poema."
in small song, Averno
Everybody Here Wants You
"Twenty-nine pearls in your kiss, a singing smile,
Coffee smell and lilac skin, your flame in me.
Twenty-nine pearls in your kiss, a singing smile,
Coffee smell and lilac skin, your flame in me.
I'm only here for this moment.
I know everybody here wants you.
I know everybody here thinks he needs you.
I'll be waiting right here just to show you
How our love will blow it all away.
Such a thing of wonder in this crowd,
I'm a stranger in this town, you're free with me.
And our eyes locked in downcast love, I sit here proud,
Even now you're undressed in your dreams with me.
I'm only here for this moment.
I know everybody here wants you.
I know everybody here thinks he needs you.
I'll be waiting right here just to show you
How our love will blow it all away.
I know the tears we cried have dried on yesterday
The sea of fools has parted for us
There's nothing in our way, my love
Don't you see, don't you see?
You're just the torch to put the flame
to all our guilt and shame,
And I'll rise like an ember in your name.
I know, I know
I know everybody here wants you.
I know everybody here thinks he needs you.
I'll be waiting right here just to show you
Let me show that love can rise, rise just like
embers.
Love can taste like the wine of the ages, baby.
And I know they all look so good from a distance,
But I tell you I'm the one.
I know everybody here will thinks he needs you,
thinks he needs you
And I'll be waiting right here just to show you."
segunda-feira, 26 de março de 2012
Almada Negreiros
Canção da Saudade
"Se eu fosse cego amava toda a gente.
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, e amo-a a fantaziá-la viva na minha idade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longíssimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemitérios — as lagens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente."
in Frisos - Revista Orpheu nº1
"Se eu fosse cego amava toda a gente.
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, e amo-a a fantaziá-la viva na minha idade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longíssimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemitérios — as lagens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente."
in Frisos - Revista Orpheu nº1
Rainer Maria Rilke (2)
Solidão
"A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios..."
"A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios..."
in O Livro das Imagens, Relógio d'Água
sexta-feira, 23 de março de 2012
Ana Hatherly (2)
A matéria das palavras
É a hora do infinito desacerto-acerto.
O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.
Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.
Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.
Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.
Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.
Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes."
in O Pavão Negro, Assírio & Alvim
quinta-feira, 22 de março de 2012
Absolute Beginners
"I've nothing much to offer
There's nothing much to take
I'm an absolute beginner
And I'm absolutely sane
As long as we're together
The rest can go to hell
I absolutely love you
But we're absolute beginners
With eyes completely open
But nervous all the same
If our love song
Could fly over mountains
Could laugh at the ocean
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true
Nothing much could happen
Nothing we can't shake
Oh we're absolute beginners
With nothing much at stake
As long as you're still smiling
There's nothing more I need
I absolutely love you
But we're absolute beginners
But if my love is your love
We're certain to succeed
If our love song
Could fly over mountains
Sail over heartaches
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true"
There's nothing much to take
I'm an absolute beginner
And I'm absolutely sane
As long as we're together
The rest can go to hell
I absolutely love you
But we're absolute beginners
With eyes completely open
But nervous all the same
If our love song
Could fly over mountains
Could laugh at the ocean
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true
Nothing much could happen
Nothing we can't shake
Oh we're absolute beginners
With nothing much at stake
As long as you're still smiling
There's nothing more I need
I absolutely love you
But we're absolute beginners
But if my love is your love
We're certain to succeed
If our love song
Could fly over mountains
Sail over heartaches
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true"
*To little M.
quarta-feira, 21 de março de 2012
José Tolentino Mendonça (2)
De Profundis
"Faltam aos planos das cidades
esfinges aladas
palmas fora de tempo, matagais
pequenos acrescentos a vermelho
Faltam atlas com algum detalhe
para as emissões nocturnas
nos agudos da nossa incerteza
falta um beleza
a olhar para nós
indiscernível, entreaberta ainda
Talvez a nós próprios falte
essa grande medida
insondáveis cordas na travessia
uma juventude que o mundo possa
documentar
os teus olhos são o que resta
dos livros sagrados
e da grande pintura perdida"
in O Viajante Sem Sono, Assírio & Alvim
Desassossego (13)
"De repente, como se um destino médico’ me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.
Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara."
Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
segunda-feira, 12 de março de 2012
Jorge Roque (2)
Criança triste
in Broto Sofro, Averno
sexta-feira, 9 de março de 2012
In a Bar
"I wanna meet a friend in a bar tonight
the evening is long
so long i hardly move
A can in my hand
a picture in my mind
a voice I need to hear, a laugh I need to show
We' re lonely, babe
in a boat, again
I need to see a friend tonight or see the people in a bar
I wish they could not see me at all
How I wish I could describe their pain
or my pain
The mystic light, the choir of smoke
The smell of wood, the pose, the joke
The dirty little world inside that needs to come out
needs to come out
I wanna meet a friend in a bar tonight
the evening is long
If only I had that strength
to see those people, all so lonely as me"
Flannery O'Connor (3)
O Gerânio
"Nova Iorque era elegante e agitada num instante, suja e mortiça no seguinte. A filha dele nem sequer morava numa casa. Morava num prédio - no meio de uma fileira de prédios todos iguais, cinzentões e vermelhos, enegrecidos, cheios de gente de voz aspera que ficava pendurada para fora da janela a olhar para outras janelas e outra gente como aquela que olhava também. Dentro do prédio podia subir-se e podia descer-se e havia um sem-fim de corredores que faziam lembrar fitas métricas desenroladas com portas de centímetro em centímetro. Recordava-se de ter ficado espantado com o prédio na primeira semana. Acordava na expectativa de os corredores terem mudado de sítio a meio da noite, espreitava pela porta e lá estavam eles, estendidos como canis corridos. As ruas também eram assim. Perguntava-se a si próprio onde iria parar se caminhasse até ao fim de uma delas. Numa noite sonhou que assim fazia e ia ter à porta do prédio - a lado nenhum.
Na semana seguinte tornou-se mais consciente da presença da filha, do genro e do filho de ambos - não havia canto onde não os estorvasse. O genro era uma ave rara. Conduzia um camião e só vinha a casa aos fins-de-semana. Dizia «ná» em vez de «não» e nunca tinha ouvido falar em sarigueias.
O velho Dudley dormia no quarto com o menino, que tinha dezasseis anos e com quem não se podia falar. Mas às vezes, quando o velho Dudley e a filha ficavam sós no apartamento, esta sentava-se para conversar com ele. Primeiro tinha de pensar em qualquer coisa para dizer. Normalmente esgotava o assunto antes de chegar o que considerava ser a altura correcta para se levantar e ir fazer outra coisa, portanto ele tinha de dizer fosse o que fosse. Ela nunca se dignava a ouvir a mesma conversa duas vezes. Estava empenhada em que o pai passasse os últimos anos de vida com a própria família e não numa residência decrépita cheia de velhotas de cabeças trémulas. Estava a cumprir o seu dever. Tinha irmãos e irmãs que não cumpriam."
quinta-feira, 8 de março de 2012
Far Away
"Far away, once so close
But now you’re far away
You’re still here with me
But not like yesterday, so far
Far away, I hear you breathe
But you’re so far away
Once so colourful
But now all turns to grey, so far
It’s oh so strange
When centimetres feels like miles
Seconds like hours
Now it’s true love has died
No more roads left to try, far away
Far away, long ago
When love was here to stay
Now it’s gone
It doesn’t matter what we say, so far
Every word is like a knife
But the silence cuts you twice"
Jay Jay Johanson
But now you’re far away
You’re still here with me
But not like yesterday, so far
Far away, I hear you breathe
But you’re so far away
Once so colourful
But now all turns to grey, so far
It’s oh so strange
When centimetres feels like miles
Seconds like hours
Now it’s true love has died
No more roads left to try, far away
Far away, long ago
When love was here to stay
Now it’s gone
It doesn’t matter what we say, so far
Every word is like a knife
But the silence cuts you twice"
José Miguel Silva
Preocupações Naturais
"Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo as horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda de temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garatem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro."
A Caminho do Fogão
"Adoro essa paixão absurda que tens por Hitchcock,
o ar despenteado com que chegas a casa e me dizes:
outra vez sopa de nabos; adoro a impaciência com
que me arrancas aos diálgos com o nada, quando
me contas os teus feitos na república do frio; adoro
a tua insónia, o teu espírito lavado por agudos desenganos;
outrossim acompanhar-te nas perguntas sublinhadas
pelo tempo, e o teu corpo possuído pela mágica
da música amorosa, quando dança seminu à minha
frente e eu só penso: que bem feito está o mundo."
Esconde-Esconde
"A nossa vida, libertada, pode agora
começar, dissemos, com o optimismo
de quem inaugura um abrigo decente
e se pretende a salvo das cargas
do mundo. A salvo? Lá mais para
diante se verá que não é bem assim.
Mas por enquanto não pensemos nisso.
Apreciemos a herança de cada tarde,
quando o oiro do crepúsculo acumula
sentimento sobre muros tão perfeitos
que podiam estar no British Museum
e nenhuma convulsão nos prende a vista"
quarta-feira, 7 de março de 2012
Born With a Broken Heart
"You cannot miss what don't exist
You cannot break a broken heart
I'd like to tell you my story
But there's no story to tell
'Til now my life has been boring
A list of fond farewells
I'm a ridiculous creature
I'm like a bird without wings
My heart's in permanent winter
Yours is forever spring
You're a truly lovely thing
But I was born with a broken heart, girl
I was born with a broken heart
I should have told you from the start, girl
I should have told you from the start
I was born with a broken heart
I look alright on the outside
I look like all of the rest
But there is always a downside
A secret to confess
I've tried so hard not to show it
I've tried so hard to be warm
But I can see that you sense it
When you are in my arms
I don't wanna see you harmed
I was born with a broken heart, girl
I was born with a broken heart
I should have told you from the start, girl
I should have told you from the start
I was born with a broken heart
You cannot miss what don't exist
You cannot break a broken heart
I was born with a broken heart
I should have told you from the start, girl
I should have told you from the start
But I was born with a broken heart"
You cannot break a broken heart
I'd like to tell you my story
But there's no story to tell
'Til now my life has been boring
A list of fond farewells
I'm a ridiculous creature
I'm like a bird without wings
My heart's in permanent winter
Yours is forever spring
You're a truly lovely thing
But I was born with a broken heart, girl
I was born with a broken heart
I should have told you from the start, girl
I should have told you from the start
I was born with a broken heart
I look alright on the outside
I look like all of the rest
But there is always a downside
A secret to confess
I've tried so hard not to show it
I've tried so hard to be warm
But I can see that you sense it
When you are in my arms
I don't wanna see you harmed
I was born with a broken heart, girl
I was born with a broken heart
I should have told you from the start, girl
I should have told you from the start
I was born with a broken heart
You cannot miss what don't exist
You cannot break a broken heart
I was born with a broken heart
I should have told you from the start, girl
I should have told you from the start
But I was born with a broken heart"
it was you who covered up my face
Para o Gabriel*
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