segunda-feira, 26 de março de 2012

Rainer Maria Rilke (2)

Solidão  

"A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios..."

in O Livro das Imagens, Relógio d'Água

So I love Peanuts

Peanuts







sexta-feira, 23 de março de 2012

Ana Hatherly (2)

A matéria das palavras


"Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
                                                                        perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes."

in O Pavão Negro, Assírio & Alvim

quinta-feira, 22 de março de 2012

Absolute Beginners

"I've nothing much to offer
There's nothing much to take
I'm an absolute beginner
And I'm absolutely sane
As long as we're together
The rest can go to hell
I absolutely love you
But we're absolute beginners
With eyes completely open
But nervous all the same

If our love song
Could fly over mountains
Could laugh at the ocean
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true

Nothing much could happen
Nothing we can't shake
Oh we're absolute beginners
With nothing much at stake
As long as you're still smiling
There's nothing more I need
I absolutely love you
But we're absolute beginners
But if my love is your love
We're certain to succeed

If our love song
Could fly over mountains
Sail over heartaches
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true" 


*To little M.

quarta-feira, 21 de março de 2012

José Tolentino Mendonça (2)

De Profundis

"Faltam aos planos das cidades
esfinges aladas
palmas fora de tempo, matagais
pequenos acrescentos a vermelho

Faltam atlas com algum detalhe
para as emissões nocturnas
nos agudos da nossa incerteza
falta um beleza
a olhar para nós
indiscernível, entreaberta ainda

Talvez a nós próprios falte
essa grande medida
insondáveis cordas na travessia
uma juventude que o mundo possa
documentar

os teus olhos são o que resta
dos livros sagrados
e da grande pintura perdida"

in O Viajante Sem Sono, Assírio & Alvim

Desassossego (13)

"De repente, como se um destino médico’ me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.
     Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.
     Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
     Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara."

 Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Take me out tonight


Jorge Roque (2)

Criança triste

"Que noite tão escura devorou os teus olhos? Que sombra projectas que os dias te estranham? Que caminhos te restam sob esta luz? Olhas em volta, tentas repetir os gestos com que outros fazem a vida. Mas nas tuas mãos esses gestos são sempre ocos, nada predem, nada deslocam, apenas o vazio cresce no buraco cada vez mais largo do peito. Só que parar também não é solução. Privado de movimento o vazio torna-se peso e oprime ainda mais. É preciso assim continuar, mover as pernas sobre terra igual e nada buscar. Outrora conseguias fazê-lo como forma de exercício. Com o tempo até o exercício se cansou, pois mesmo ele supunha um propósito que o vazio apagou. Olha-te no espelho dos teus olhos gastos: há muito que perdeste as lágrimas, sustenta-te agora de um fio de voz, linha frágil que te separa da noite total onde a dor é apenas escuro esmagado e a esperança boca separada do ar. Olha-te de frente: o que chamavas vida acabou, esse que te olha nada tem a dizer-lhe. Repara: tem o olhar fixo dos mortos, não é o infinito ou o vazio que fita, é o próprio olho objecto absoluto. Não sei se viste. Não sei sequer se era de mim que falavas. Sei que as tuas mãos pararam um momento sobre a conversa e tu disseste: é assustador porque és uma criança triste, nenhuma palavra te pode alcançar. Assim dito, como negá-lo? Sou de facto uma criança triste que deixou na infância a parte do sorriso que precisava para poder iluminar a alegria. A dor foi sempre maior que a vida, tanto que passei a vida a matar-me para nela me reconhecer. Algures devo ter morrido, assim me habituei a entendê-lo, renascer implicaria voltar atrás e conhecer essa morte, desenterrar o rosto que o negro cobriu. Mas são anos e anos de terra pisada, camadas e camadas de negro cumulado, removê-lo demoraria mais do que a vida e ainda que uma vida bastasse, haveria todo o negro entretanto. Tarde demais ambos sabemos, e eu só posso dizer-te: sim, sou essa criança triste. Faz-me uma carícia ao de leve, diz-me palavras em voz serena. Deixa que os meus olhos se fechem, deixa que o negro se esqueça. Depois sai e fecha a porta sem ruído."

in Broto Sofro, Averno

Lenore







Para o Gabriel*

sexta-feira, 9 de março de 2012

In a Bar

"I wanna meet a friend in a bar tonight
the evening is long
so long i hardly move
A can in my hand
a picture in my mind
a voice I need to hear, a laugh I need to show
We' re lonely, babe
in a boat, again
I need to see a friend tonight or see the people in a bar
I wish they could not see me at all
How I wish I could describe their pain
or my pain
The mystic light, the choir of smoke
The smell of wood, the pose, the joke
The dirty little world inside that needs to come out
needs to come out
I wanna meet a friend in a bar tonight
the evening is long
If only I had that strength
to see those people, all so lonely as me"

Flannery O'Connor (3)

 O Gerânio

"Nova Iorque era elegante e agitada num instante, suja e mortiça no seguinte. A filha dele nem sequer morava numa casa. Morava num prédio - no meio de uma fileira de prédios todos iguais, cinzentões e vermelhos, enegrecidos, cheios de gente de voz aspera que ficava pendurada para fora da janela a olhar para outras janelas e outra gente como aquela que olhava também. Dentro do prédio podia subir-se e podia descer-se e havia um sem-fim de corredores que faziam lembrar fitas métricas desenroladas com portas de centímetro em centímetro. Recordava-se de ter ficado espantado com o prédio na primeira semana. Acordava na expectativa de os corredores terem mudado de sítio a meio da noite, espreitava pela porta e lá estavam eles, estendidos como canis corridos. As ruas também eram assim. Perguntava-se a si próprio onde iria parar se caminhasse até ao fim de uma delas. Numa noite sonhou que assim fazia e ia ter à porta do prédio - a lado nenhum.
Na semana seguinte tornou-se mais consciente da presença da filha, do genro e do filho de ambos - não havia canto onde não os estorvasse. O genro era uma ave rara. Conduzia um camião e só vinha a casa aos fins-de-semana. Dizia «ná» em vez de «não» e nunca tinha ouvido falar em sarigueias.
O velho Dudley dormia no quarto com o menino, que tinha dezasseis anos e com quem não se podia falar. Mas às vezes, quando o velho Dudley e a filha ficavam sós no apartamento, esta sentava-se para conversar com ele. Primeiro tinha de pensar em qualquer coisa para dizer. Normalmente esgotava o assunto antes de chegar o que considerava ser a altura correcta para se levantar e ir fazer outra coisa, portanto ele tinha de dizer fosse o que fosse. Ela nunca se dignava a ouvir a mesma conversa duas vezes. Estava empenhada em que o pai passasse os últimos anos de vida com a própria família e não numa residência decrépita cheia de velhotas de cabeças trémulas. Estava a cumprir o seu dever. Tinha irmãos e irmãs que não cumpriam."

in O Gerânio - Contos Dispersos, Cavalo de Ferro

quinta-feira, 8 de março de 2012

The kind that helps me to heal

Quando uma só vida não chega para filmes assim (19)

Far Away

"Far away, once so close
But now you’re far away
You’re still here with me
But not like yesterday, so far
Far away, I hear you breathe
But you’re so far away
Once so colourful
But now all turns to grey, so far
It’s oh so strange
When centimetres feels like miles
Seconds like hours
Now it’s true love has died
No more roads left to try, far away
Far away, long ago
When love was here to stay
Now it’s gone
It doesn’t matter what we say, so far
Every word is like a knife
But the silence cuts you twice"

Jay Jay Johanson

José Miguel Silva

Preocupações Naturais

"Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo as horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda de temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garatem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro."

A Caminho do Fogão

"Adoro essa paixão absurda que tens por Hitchcock,
o ar despenteado com que chegas a casa e me dizes:
outra vez sopa de nabos; adoro a impaciência com
que me arrancas aos diálgos com o nada, quando
me contas os teus feitos na república do frio; adoro
a tua insónia, o teu espírito lavado por agudos desenganos;
outrossim acompanhar-te nas perguntas sublinhadas
pelo tempo, e o teu corpo possuído pela mágica
da música amorosa, quando dança seminu à minha 
frente e eu só penso: que bem feito está o mundo."

Esconde-Esconde

"A nossa vida, libertada, pode agora
começar, dissemos, com o optimismo
de quem inaugura um abrigo decente
e se pretende a salvo das cargas
do mundo. A salvo? Lá  mais para
diante se verá que não é bem assim.
Mas por enquanto não pensemos nisso.
Apreciemos a herança de cada tarde,
quando o oiro do crepúsculo acumula
sentimento sobre muros tão perfeitos
que podiam estar no British Museum
e nenhuma convulsão nos prende a vista"

in Serém, 24 de Março, Averno

quarta-feira, 7 de março de 2012

Born With a Broken Heart

"You cannot miss what don't exist
You cannot break a broken heart
I'd like to tell you my story
But there's no story to tell

'Til now my life has been boring
A list of fond farewells
I'm a ridiculous creature
I'm like a bird without wings

My heart's in permanent winter
Yours is forever spring
You're a truly lovely thing

But I was born with a broken heart, girl
I was born with a broken heart
I should have told you from the start, girl
I should have told you from the start
I was born with a broken heart

I look alright on the outside
I look like all of the rest
But there is always a downside
A secret to confess
I've tried so hard not to show it

I've tried so hard to be warm
But I can see that you sense it
When you are in my arms
I don't wanna see you harmed

I was born with a broken heart, girl
I was born with a broken heart
I should have told you from the start, girl
I should have told you from the start
I was born with a broken heart

You cannot miss what don't exist
You cannot break a broken heart

I was born with a broken heart
I should have told you from the start, girl
I should have told you from the start
But I was born with a broken heart"

The Divine Comedy

it was you who covered up my face


Para o Gabriel*

terça-feira, 6 de março de 2012

Weeping Tree

"Weeping tree, shoulders to the sky
Never understood why
Weeping tree, should've let you go
How was I to know?

And if you find a clue
I hope you find it soon
Some people hold their breath forever
And if you find a house
Where you can live without the one you love
Weeping tree, fruitless, stands alone
where lovers long dead used to go
Weeping tree, should've let you go
But how was I to know?

And if you find a clue
I hope you find it soon
Some people hold their breath forever
And if you find a house
Where you can live without the one you love "

Perry Blake

Desassossego (12)

"Saber que será má a obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. Essa planta é a alegria dela, e também por vezes a minha. O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou me não basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida.
     Um tédio que inclui a antecipação só de mais tédio; a pena, já, de amanhã ter pena de ter tido pena hoje - grandes emaranhamentos sem utilidade nem verdade, grandes emaranhamentos...
     ... onde, encolhido num banco de espera da estação apeadeiro, o meu desprezo dorme entre o gabão do meu desalento’...
     ... o mundo de imagens sonhadas de que se compõe, por igual, o meu conhecimento e a minha vida...
     Em nada me pesa ou em mim dura o escrúpulo da hora presente. Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições."


Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

Maria Velho da Costa

128.

"A regra de uma solidão de pedra, ou aérea, face à tua arte.
O levantamento da mão que prossegue após haver soletrado rostos,
partição de rosas, o desatamento nas trevas de uma visualidade
extrema de todos os sentidos - não fales onde o teu amor balbucia
como o fio de água, precariamente, pelo leito que se prefaz na
recorrência das chuvas."

in Da rosa fixa, Quetzal

Lost in...

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ana Teresa Pereira (6)


"Passou o dia comigo, silenciosa, enquanto eu trabalhava na mesa de carvalho. Ao entardecer, quando o vermelho invadiu tudo, ela levantou-se, o cabelo vermelho, o corpo magro vermelho, veio beijar-me a fronte. Acariciou o Sam, deu um último jeito nas flores, deteve-se por instantes, com um sorriso a vaguear-lhe no rosto, no canto onde a aranha imóvel respirava na sua teia. (...)
Apoiei os cotovelos ne mesa, fiquei a olhar para o mar imóvel, a água esverdeada, o azul profundo ao longe, um resto de vermelho, depois o escuro. E o som das vagas."

Jorge de Sena (2)

De correr mundo

"De correr mundo as terras e os humanos
como paisagem que ante os olhos passa,
e às vezes percorrer umas e outros
nos breves intervalos entre duas viagens,
uma incerteza deixa que é diversa
da que se aprende no convívio longo:
quem se demora vê, sob as fachadas
ou as perspectivas de alta torre feitas
um gesto em que se mostra uma outra vida,
ou troca frases que desnudam crua
o que de interno ser sob as fachadas vive;
mas quem só passa e mal aos outros toca
com mais que olhares ou fugidias vozes,
mais adivinha o que não é paisagem
mas dia a dia tão diverso dela
ou pelo menos para além ansioso.
Mas, se num caso a vida se conhece
e noutro caso nos conhece a nós,
por ambos aprendemos que do mundo
se vive o que não passa, ou se não vive
o que passando é só terras e gentes -
-o conhecer, porém, não se conhece nunca.
Apenas resta a escolha: como descobrir
essa experiência inútil. Antes, pois,
correr do mundo as terras e os humanos
que consumir-se alguém ao lado deles sempre."

in Visão Perpétua

For the days we care about



domingo, 4 de março de 2012

Manuel de Freitas (4)

September Song

"Ouve, pelo começo de Setembro,
o clamor e a melancolia
deste mar atravessando a tua vida,
as páginas de um livro por abrir.

Ouve como quem vê,
sobre as falésias deste mês abrupto,
alguém que te celebra
muito depois das palavras.

É tão difícil escrever um poema
que não fale de morte."

in Intermezzi, Op.25, Opera Omnia

quinta-feira, 1 de março de 2012

Nuno Júdice (5)

Fumo

"A luz da manhã limpou as sombras da noite,
num gesto de vassoura, atenta e rápida.
Agora, tudo é suave e transparente, como
o frio seco que sacode os pássaros e as folhas.

Passo neste mundo natural que a manhã
me oferece; e só falta um fio de fumo
dessas cinzas em que o dia aquece as mãos,
enquanto o vento não sopra a apagá-las.

Dia e noite juntam-se nesse fumo
em que o céu respira; e a sua linha
desenha no ar uma frágil fronteira.

Para um lado, o espaço sem limites
em que tudo premanece; para aqui, o breve
sentimento do eterno, antes que o fumo se dissipe."

in O Breve Sentimento do Eterno, Edições Nelson de Matos

Qué quieres que te cante

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

António Ramos Rosa (2)

O horizonte das palavras

"Sem direcção, sem caminho
escrevo esta página que não tem alma dentro.
Se conseguir chegar à substância de um muro
acenderei a lâmpada de pedra na montanha.
E sem apoio penetro nos interstícios fugidios
ou enuncio as simples reiterações da terra, 
as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.
Tentarei construir a consistência num adágio 
e sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.
E na substância entra a mão, o balbucio branco
de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,
um organismo verde aberto sobre o mar,
as teclas do verão, as indústrias da água.
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito."

in Acordes, Quetzal

Justo Jorge Padrón

Limos do Desprezo

"Se pudesse olhar-me na sede dos teus olhos
em nenhum território perderia os meus vestígios.
Os segredos mais ácidos secariam
as suas ocultas raízes destruidoras,
as sílabas clementes do perdão
voltariam a ouvir-me comovidas
sob as grandes asas de uma luz aprazível. 
Mas a cabeça assegura o seu erro no delírio.
Sente elevar-se a sombra que o desprezo derrama,
onde só surge a impiedade
de uma tribo de espectros dilacerantes. 
Ainda continuo contigo, meu desolado corpo,
incapaz de morrer, vislumbrando os dois
terríveis abandonos: a morte sem repouso
e a vida que morre sem viver nem se extinguir."

in Extensão da Morte, Teorema

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Put the book back on the shelf

Truman Capote (3)



"Lá longe, dois falcões planavam por cima do fumo amarelo que se elevava em espiral da chaminé da cozinha de Landing. Devia ser a Zoo a fazer o jantar, pensou ele, parando na berma da estrada a calcar uma colónia de formigas que comiam uma rã morta. Estava farto da comida de Zoo; era sempre a mesma coisa, acelgas, inhames, grão-de-bico, pão de milho. Naquele momento só lhe apetecia encontrar o Homem de Neve. Todas as tardes, em Nova Orleães, o Homem de Neve aparecia a empurrar a sua carripana deliciosa, a tocar a sineta deliciosa e, por umas moedinhas, comprava-se um cone de gelo perfumado com uma dúzia de aromas: cereja, chocolate, uva, amora, tudo misturado como um arco-íris.
As formigas fugiam como faúlhas e, pensado em Idabel, Joel começou a saltaricar, esmagando-as com o pé, mas aquela dança malévola não conseguiu diminuir a dor do insulto. Espera! Espera até ele ser Governador, havia de pôr a polícia no seu encalço, havia de a mandar para um calabouço com um pequeno alçapão no tecto por onde ele poderia espreitar e rir-se dela."

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

As I Sat Sadly By Her Side

Jorge Fallorca

"Contaram-me que as letras descansam de lado, nas páginas macias dos livros antigos. 
Outros afirmam-me que os textos mudam ao sabor das edições, e que nenhuma se compara
à que se leu primeiro.

Há ainda quem me confidencie que recebe os livros de braços abertos, às vezes até com as pernas,
e dou por mim a olhar para as lombadas que me rodeiam, a senti-las latejar como um animal magnífico,
alheio a interpretações domésticas.

Sei que se estender a mão o irei acordar; prefiro entreter-me a escrever este texto,
onde as letras são ainda verticais e se estampam no papel, como uma mancha de tinta,
uma ave suicida, um eco sem som.

                                                                 *

Também conheço um poeta exilado num condomínio de metáforas. Rodeou-se de palavras
que cultica em cadernos e guardanapos de papel, com a dedicação e a paciência de um
jardineiro cego.

Ninguém se atreve a dizer-lhe que nem as piteiras sobrevivem na aridez desse jardim meticulosamente
escrito, onde passa horas infindáveis a podar o vazio e a regar o silêncio que brota
das suas páginas inéditas.

E, no dia em que morrer, uma duna será tudo o que restará da sua obra, que o vento
e o tempo se encarregarão de aliviar do jugo das metáforas.

                                                             *

E conheço uma música frágil como a chuva ou as lágrimas evitadas. É uma música 
que ouço muitas vezes enquanto escrevo ou leio, ou que ecoa dentro de mim enquanto 
leio o que escrevi.

Cada vez que a ouço, que percorro o teclado infindável do piano onde me refugio,
esqueço-me do que escrevi e leio as lágrimas que não chorei sulcadas no meu rosto,
à espera que chovesse.

Que me lembre, é uma música onde tu não estás. Uma música que se calhar até nem existe, ou
não existe assim, e não passa de uma desajeitada desculpa para finalmente poder chorar."


in Telhados de Vidro nº11, Averno

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Spend all your time with your eyes on the ground

Rui Caeiro

A Dois Passos

"Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em 
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso - esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno - estava-se bem."

in Telhados de Vidro nº12, Averno.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

José Tolentino Mendonça

A presença mais pura

"Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

a altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos de supermecado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um 'não esquecer' fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso

porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome

ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»"

in Baldios

Cause, I built a home

Desassossego (11)

"Todos têm, como eu, um coração exaltado e triste. Conheço-os bem: uns são moços de lojas, outros são empregados de escritório, outros são comerciantes de pequenos comércios; outros são os vencedores dos cafés e das tascas, gloriosos sem saberem no êxtase da palavra egotista, a contento no silêncio do egotismo avaro sem ter que guardar. Mas todos, coitados, são poetas, e arrastam, a meus olhos, como eu aos olhos deles, a igual miséria da nossa comum incongruência. Têm todos, como eu, o futuro no passado.

Agora mesmo, que estou inerte no escritório, e foram todos almoçar salvo eu, fito, através da janela baça, o velho oscilante que percorre lentamente o passeio do outro lado da rua. Não vai bêbado; vai sonhador. Está atento ao inexistente; talvez ainda espere. Os Deuses, se são justos em sua injustiça, nos conservem os sonhos ainda quando sejam impossíveis, e nos dêem bons sonhos, ainda que sejam baixos. Hoje, que não sou velho ainda, posso sonhar com ilhas do Sul e com Índias impossíveis; amanhã talvez me seja dado, pelos mesmos Deuses, o sonho de ser dono de uma tabacaria pequena, ou reformado numa casa dos arredores. Qualquer dos sonhos é o mesmo sonho, porque são todos sonhos. Mudem-me os deuses os sonhos, mas não o dom de sonhar."

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Quando uma só vida não chega para filmes assim (18)

Rainer Maria Rilke

"Talvez pesadas montanhas atravesse
por duros veio, sozinho com um mineral;
estou a tal profundidade, que não há fim que ver pudesse
nem distância: a proximidade é tudo o que acontece
e toda a proximidade é pedra, afinal.

Não sou ainda entendido em sofrimento,
por isso esta grande escuridão me empequenece;
mas se fores Tu: torna-te pesado, aparece:
que tua mão em mim tenha cumprimento
e eu em ti com o meu relicário sedento."

in O Livro De Horas

Alexandre O'Neill

O amor é o amor

"O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?..

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!"



in Poesias Completas 

be soft don't be stern

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Herberto Helder (4)

"Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discuro. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição. 
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.

São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos - poema, bicicleta, poeta e mão - 
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida."

in Oficio Cantante

I stick in their heart like a rusty spur