quinta-feira, 8 de março de 2012

Far Away

"Far away, once so close
But now you’re far away
You’re still here with me
But not like yesterday, so far
Far away, I hear you breathe
But you’re so far away
Once so colourful
But now all turns to grey, so far
It’s oh so strange
When centimetres feels like miles
Seconds like hours
Now it’s true love has died
No more roads left to try, far away
Far away, long ago
When love was here to stay
Now it’s gone
It doesn’t matter what we say, so far
Every word is like a knife
But the silence cuts you twice"

Jay Jay Johanson

José Miguel Silva

Preocupações Naturais

"Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo as horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda de temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garatem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro."

A Caminho do Fogão

"Adoro essa paixão absurda que tens por Hitchcock,
o ar despenteado com que chegas a casa e me dizes:
outra vez sopa de nabos; adoro a impaciência com
que me arrancas aos diálgos com o nada, quando
me contas os teus feitos na república do frio; adoro
a tua insónia, o teu espírito lavado por agudos desenganos;
outrossim acompanhar-te nas perguntas sublinhadas
pelo tempo, e o teu corpo possuído pela mágica
da música amorosa, quando dança seminu à minha 
frente e eu só penso: que bem feito está o mundo."

Esconde-Esconde

"A nossa vida, libertada, pode agora
começar, dissemos, com o optimismo
de quem inaugura um abrigo decente
e se pretende a salvo das cargas
do mundo. A salvo? Lá  mais para
diante se verá que não é bem assim.
Mas por enquanto não pensemos nisso.
Apreciemos a herança de cada tarde,
quando o oiro do crepúsculo acumula
sentimento sobre muros tão perfeitos
que podiam estar no British Museum
e nenhuma convulsão nos prende a vista"

in Serém, 24 de Março, Averno

quarta-feira, 7 de março de 2012

Born With a Broken Heart

"You cannot miss what don't exist
You cannot break a broken heart
I'd like to tell you my story
But there's no story to tell

'Til now my life has been boring
A list of fond farewells
I'm a ridiculous creature
I'm like a bird without wings

My heart's in permanent winter
Yours is forever spring
You're a truly lovely thing

But I was born with a broken heart, girl
I was born with a broken heart
I should have told you from the start, girl
I should have told you from the start
I was born with a broken heart

I look alright on the outside
I look like all of the rest
But there is always a downside
A secret to confess
I've tried so hard not to show it

I've tried so hard to be warm
But I can see that you sense it
When you are in my arms
I don't wanna see you harmed

I was born with a broken heart, girl
I was born with a broken heart
I should have told you from the start, girl
I should have told you from the start
I was born with a broken heart

You cannot miss what don't exist
You cannot break a broken heart

I was born with a broken heart
I should have told you from the start, girl
I should have told you from the start
But I was born with a broken heart"

The Divine Comedy

it was you who covered up my face


Para o Gabriel*

terça-feira, 6 de março de 2012

Weeping Tree

"Weeping tree, shoulders to the sky
Never understood why
Weeping tree, should've let you go
How was I to know?

And if you find a clue
I hope you find it soon
Some people hold their breath forever
And if you find a house
Where you can live without the one you love
Weeping tree, fruitless, stands alone
where lovers long dead used to go
Weeping tree, should've let you go
But how was I to know?

And if you find a clue
I hope you find it soon
Some people hold their breath forever
And if you find a house
Where you can live without the one you love "

Perry Blake

Desassossego (12)

"Saber que será má a obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. Essa planta é a alegria dela, e também por vezes a minha. O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou me não basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida.
     Um tédio que inclui a antecipação só de mais tédio; a pena, já, de amanhã ter pena de ter tido pena hoje - grandes emaranhamentos sem utilidade nem verdade, grandes emaranhamentos...
     ... onde, encolhido num banco de espera da estação apeadeiro, o meu desprezo dorme entre o gabão do meu desalento’...
     ... o mundo de imagens sonhadas de que se compõe, por igual, o meu conhecimento e a minha vida...
     Em nada me pesa ou em mim dura o escrúpulo da hora presente. Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições."


Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

Maria Velho da Costa

128.

"A regra de uma solidão de pedra, ou aérea, face à tua arte.
O levantamento da mão que prossegue após haver soletrado rostos,
partição de rosas, o desatamento nas trevas de uma visualidade
extrema de todos os sentidos - não fales onde o teu amor balbucia
como o fio de água, precariamente, pelo leito que se prefaz na
recorrência das chuvas."

in Da rosa fixa, Quetzal

Lost in...

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ana Teresa Pereira (6)


"Passou o dia comigo, silenciosa, enquanto eu trabalhava na mesa de carvalho. Ao entardecer, quando o vermelho invadiu tudo, ela levantou-se, o cabelo vermelho, o corpo magro vermelho, veio beijar-me a fronte. Acariciou o Sam, deu um último jeito nas flores, deteve-se por instantes, com um sorriso a vaguear-lhe no rosto, no canto onde a aranha imóvel respirava na sua teia. (...)
Apoiei os cotovelos ne mesa, fiquei a olhar para o mar imóvel, a água esverdeada, o azul profundo ao longe, um resto de vermelho, depois o escuro. E o som das vagas."

Jorge de Sena (2)

De correr mundo

"De correr mundo as terras e os humanos
como paisagem que ante os olhos passa,
e às vezes percorrer umas e outros
nos breves intervalos entre duas viagens,
uma incerteza deixa que é diversa
da que se aprende no convívio longo:
quem se demora vê, sob as fachadas
ou as perspectivas de alta torre feitas
um gesto em que se mostra uma outra vida,
ou troca frases que desnudam crua
o que de interno ser sob as fachadas vive;
mas quem só passa e mal aos outros toca
com mais que olhares ou fugidias vozes,
mais adivinha o que não é paisagem
mas dia a dia tão diverso dela
ou pelo menos para além ansioso.
Mas, se num caso a vida se conhece
e noutro caso nos conhece a nós,
por ambos aprendemos que do mundo
se vive o que não passa, ou se não vive
o que passando é só terras e gentes -
-o conhecer, porém, não se conhece nunca.
Apenas resta a escolha: como descobrir
essa experiência inútil. Antes, pois,
correr do mundo as terras e os humanos
que consumir-se alguém ao lado deles sempre."

in Visão Perpétua

For the days we care about



domingo, 4 de março de 2012

Manuel de Freitas (4)

September Song

"Ouve, pelo começo de Setembro,
o clamor e a melancolia
deste mar atravessando a tua vida,
as páginas de um livro por abrir.

Ouve como quem vê,
sobre as falésias deste mês abrupto,
alguém que te celebra
muito depois das palavras.

É tão difícil escrever um poema
que não fale de morte."

in Intermezzi, Op.25, Opera Omnia

quinta-feira, 1 de março de 2012

Nuno Júdice (5)

Fumo

"A luz da manhã limpou as sombras da noite,
num gesto de vassoura, atenta e rápida.
Agora, tudo é suave e transparente, como
o frio seco que sacode os pássaros e as folhas.

Passo neste mundo natural que a manhã
me oferece; e só falta um fio de fumo
dessas cinzas em que o dia aquece as mãos,
enquanto o vento não sopra a apagá-las.

Dia e noite juntam-se nesse fumo
em que o céu respira; e a sua linha
desenha no ar uma frágil fronteira.

Para um lado, o espaço sem limites
em que tudo premanece; para aqui, o breve
sentimento do eterno, antes que o fumo se dissipe."

in O Breve Sentimento do Eterno, Edições Nelson de Matos

Qué quieres que te cante

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

António Ramos Rosa (2)

O horizonte das palavras

"Sem direcção, sem caminho
escrevo esta página que não tem alma dentro.
Se conseguir chegar à substância de um muro
acenderei a lâmpada de pedra na montanha.
E sem apoio penetro nos interstícios fugidios
ou enuncio as simples reiterações da terra, 
as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.
Tentarei construir a consistência num adágio 
e sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.
E na substância entra a mão, o balbucio branco
de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,
um organismo verde aberto sobre o mar,
as teclas do verão, as indústrias da água.
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito."

in Acordes, Quetzal

Justo Jorge Padrón

Limos do Desprezo

"Se pudesse olhar-me na sede dos teus olhos
em nenhum território perderia os meus vestígios.
Os segredos mais ácidos secariam
as suas ocultas raízes destruidoras,
as sílabas clementes do perdão
voltariam a ouvir-me comovidas
sob as grandes asas de uma luz aprazível. 
Mas a cabeça assegura o seu erro no delírio.
Sente elevar-se a sombra que o desprezo derrama,
onde só surge a impiedade
de uma tribo de espectros dilacerantes. 
Ainda continuo contigo, meu desolado corpo,
incapaz de morrer, vislumbrando os dois
terríveis abandonos: a morte sem repouso
e a vida que morre sem viver nem se extinguir."

in Extensão da Morte, Teorema

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Put the book back on the shelf

Truman Capote (3)



"Lá longe, dois falcões planavam por cima do fumo amarelo que se elevava em espiral da chaminé da cozinha de Landing. Devia ser a Zoo a fazer o jantar, pensou ele, parando na berma da estrada a calcar uma colónia de formigas que comiam uma rã morta. Estava farto da comida de Zoo; era sempre a mesma coisa, acelgas, inhames, grão-de-bico, pão de milho. Naquele momento só lhe apetecia encontrar o Homem de Neve. Todas as tardes, em Nova Orleães, o Homem de Neve aparecia a empurrar a sua carripana deliciosa, a tocar a sineta deliciosa e, por umas moedinhas, comprava-se um cone de gelo perfumado com uma dúzia de aromas: cereja, chocolate, uva, amora, tudo misturado como um arco-íris.
As formigas fugiam como faúlhas e, pensado em Idabel, Joel começou a saltaricar, esmagando-as com o pé, mas aquela dança malévola não conseguiu diminuir a dor do insulto. Espera! Espera até ele ser Governador, havia de pôr a polícia no seu encalço, havia de a mandar para um calabouço com um pequeno alçapão no tecto por onde ele poderia espreitar e rir-se dela."

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

As I Sat Sadly By Her Side

Jorge Fallorca

"Contaram-me que as letras descansam de lado, nas páginas macias dos livros antigos. 
Outros afirmam-me que os textos mudam ao sabor das edições, e que nenhuma se compara
à que se leu primeiro.

Há ainda quem me confidencie que recebe os livros de braços abertos, às vezes até com as pernas,
e dou por mim a olhar para as lombadas que me rodeiam, a senti-las latejar como um animal magnífico,
alheio a interpretações domésticas.

Sei que se estender a mão o irei acordar; prefiro entreter-me a escrever este texto,
onde as letras são ainda verticais e se estampam no papel, como uma mancha de tinta,
uma ave suicida, um eco sem som.

                                                                 *

Também conheço um poeta exilado num condomínio de metáforas. Rodeou-se de palavras
que cultica em cadernos e guardanapos de papel, com a dedicação e a paciência de um
jardineiro cego.

Ninguém se atreve a dizer-lhe que nem as piteiras sobrevivem na aridez desse jardim meticulosamente
escrito, onde passa horas infindáveis a podar o vazio e a regar o silêncio que brota
das suas páginas inéditas.

E, no dia em que morrer, uma duna será tudo o que restará da sua obra, que o vento
e o tempo se encarregarão de aliviar do jugo das metáforas.

                                                             *

E conheço uma música frágil como a chuva ou as lágrimas evitadas. É uma música 
que ouço muitas vezes enquanto escrevo ou leio, ou que ecoa dentro de mim enquanto 
leio o que escrevi.

Cada vez que a ouço, que percorro o teclado infindável do piano onde me refugio,
esqueço-me do que escrevi e leio as lágrimas que não chorei sulcadas no meu rosto,
à espera que chovesse.

Que me lembre, é uma música onde tu não estás. Uma música que se calhar até nem existe, ou
não existe assim, e não passa de uma desajeitada desculpa para finalmente poder chorar."


in Telhados de Vidro nº11, Averno

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Spend all your time with your eyes on the ground

Rui Caeiro

A Dois Passos

"Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em 
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso - esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno - estava-se bem."

in Telhados de Vidro nº12, Averno.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

José Tolentino Mendonça

A presença mais pura

"Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

a altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos de supermecado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um 'não esquecer' fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso

porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome

ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»"

in Baldios

Cause, I built a home

Desassossego (11)

"Todos têm, como eu, um coração exaltado e triste. Conheço-os bem: uns são moços de lojas, outros são empregados de escritório, outros são comerciantes de pequenos comércios; outros são os vencedores dos cafés e das tascas, gloriosos sem saberem no êxtase da palavra egotista, a contento no silêncio do egotismo avaro sem ter que guardar. Mas todos, coitados, são poetas, e arrastam, a meus olhos, como eu aos olhos deles, a igual miséria da nossa comum incongruência. Têm todos, como eu, o futuro no passado.

Agora mesmo, que estou inerte no escritório, e foram todos almoçar salvo eu, fito, através da janela baça, o velho oscilante que percorre lentamente o passeio do outro lado da rua. Não vai bêbado; vai sonhador. Está atento ao inexistente; talvez ainda espere. Os Deuses, se são justos em sua injustiça, nos conservem os sonhos ainda quando sejam impossíveis, e nos dêem bons sonhos, ainda que sejam baixos. Hoje, que não sou velho ainda, posso sonhar com ilhas do Sul e com Índias impossíveis; amanhã talvez me seja dado, pelos mesmos Deuses, o sonho de ser dono de uma tabacaria pequena, ou reformado numa casa dos arredores. Qualquer dos sonhos é o mesmo sonho, porque são todos sonhos. Mudem-me os deuses os sonhos, mas não o dom de sonhar."

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Quando uma só vida não chega para filmes assim (18)

Rainer Maria Rilke

"Talvez pesadas montanhas atravesse
por duros veio, sozinho com um mineral;
estou a tal profundidade, que não há fim que ver pudesse
nem distância: a proximidade é tudo o que acontece
e toda a proximidade é pedra, afinal.

Não sou ainda entendido em sofrimento,
por isso esta grande escuridão me empequenece;
mas se fores Tu: torna-te pesado, aparece:
que tua mão em mim tenha cumprimento
e eu em ti com o meu relicário sedento."

in O Livro De Horas

Alexandre O'Neill

O amor é o amor

"O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?..

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!"



in Poesias Completas 

be soft don't be stern

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Herberto Helder (4)

"Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discuro. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição. 
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.

São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos - poema, bicicleta, poeta e mão - 
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida."

in Oficio Cantante

I stick in their heart like a rusty spur

Desassossego (10)

"Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino..."

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Al Berto (6)

"esqueço-me de tudo, por isso escrevo, longe do terror ao sismo inesperado das estrelas,
escrevo com a certeza de que tudo o que escrevo se apagará do papel no momento da
minha morte.
o olhar fugiu pelos interstícios dos objectos, sinto-me como se tivesse cegado por excesso
de olhar o mundo. as palavras para nomear o que é belo definharam, raramente as escrevo,
penso-me só. aqui sentado, imobilizado pela luz amarelenta do candeeiro, continuo a desejar aquilo que nunca verei: a cintilização dum corpo na cal, o sorriso dum rosto ardendo de suicídio em suicídio.
ignoro o mundo e a noite que o envolve e devora. deixo escoar o cansaço do corpo pela janela do quarto. fecho os olhos, finjo o sono, e vou pelos lugares desabitados do meu corpo.
a noite cheira a musgo molhado e a bolor. excrementos de aves acumularam-se 
na palma das mãos, sujam aslinhas do destino e do coração. um pano de flanela resguarda da poeira
os poucos brinquedos que resistiram às mudanças de casa. a humidade manchou a memória.
levanto-me da cama, arrasto-me até à janela. o mar talvez se aviste dali. mas o mar só se torna nítido
quando sonho, não se consegue avistar da janela. volto a deitar-me.
o mar, o dos sonhos, depositou sal luminoso nos cantos da casa, formando desérticas paisagens
onde queimo os dedos, o tacto, vagarosamente. nos corredores já não é possível encontrar sinais de 
passsos nem de facas pelas paredes. silêncio, apenas o silêncio com gumes de luz atravessa o alicerce
ósseo da casa.
lá fora, os estames porosos dos hibiscos oferecem-se aos insectos, crescem como cabelos. o polén das acácias embriaga quem se aproxima da casa, ou quem ousa lavrar as incertezas da noite num lençol
sujo de insónias e de agonia. 
dentro e fora da casa, as sombras dos mortos esburacam a terra e os soalhos, colam-se aos corpos dos que permanecem aqui."

in O Medo

This june bug street sings low and lovely

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Quando uma só vida não chega para filmes assim (17)

Nuno Júdice (4)

Eco

"Hoje, perguntando onde estás, e o
que fazes, ouço as palavras tristes
da solidão que me responde, sem
nada me dizer, ao dizer-me tudo.

O que fazes e onde estás, pergunto
ao silêncio que me deixaste; e ouço
em mim a resposta, num eco que
vem de ti, perguntando por mim.

E neste espelho que entre mim e ti
a ausência constrói, outro espelho
reflecte o vazio da sua imagem, até

esse infinito em que a minha pergunta
te responde, para que me devolvas
o eco em que as nossas vozes se juntam."

in O Breve Sentimento do Eterno

Cormac McCarthy (4)

"Com quê, uma caçadeira?
Pois.
Por roubares melancias.
Pois.
Suttree sentou-se na cama de baixo e ergueu um pé e começou a massajar o tornozelo. Ao fim de um certo tempo, ergueu os olhos. Harrogate estava deitado de bruços, a espreitar sobre a borda do catre. 
Deixa lá ver onde é que levaste essa chumbada, disse Suttree.
Harrogate ajoelhou-se na cama e arregaçou a camisola. Pequenas pregas cor de malva cobriam-lhe a carne pálida pelo flanco abaixo, como cicatrizes de bexigas.
Também tenho a perna toda cheia disto. Ainda não consigo andar como deve ser.
Suttree levantou o rosto para fitar os olhos do rapaz. Iluminados por uma espécie de percepção animal, por uma benevolência incipiente. Bom, disse. Está a ficar uma autêntica selva, este mundo, não é verdade?
Caramba, eu cá pensei que tinha morrido.
Tens sorte em estares vivo, dá-me impressão.
Foi o que me disseram lá no hospital.
Suttree estendeu-se na cama. É preciso um tipo ser muito sacana para dar um tiro em alguém só porque lhe roubou meia dúzia de melancias, hem? disse."

domingo, 12 de fevereiro de 2012

If you could see inside and underskin

Ana Hatherly

Um rio de luzes



"Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca


No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta


Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido"

in O Pavão Negro 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Desassossego (9)

"Suponho que seja o que chamam um decadente, que haja em mim, como definição externa do meu espírito, essas lucilações tristes de uma estranheza postiça que incorporam em palavras inesperadas uma alma ansiosa e malabar. Sinto que sou assim e que sou absurdo. Por isso busco, por uma imitação de uma hipótese dos clássicos, figurar ao menos em uma matemática expressiva as sensações decorativas da minha alma substituída. Em certa altura da cogitação escrita, já não sei onde tenho o centro da atenção - se nas sensações dispersas que procuro descrever, como a tapeçarias incógnitas, se nas palavras com que, querendo descrever a própria descrição, me embrenho, me descaminho e vejo outras coisas. Formam-se em mim associações de ideias, de imagens, de palavras - tudo lúcido e difuso -, e tanto estou dizendo o que sinto, como o que suponho que sinto, nem distingo o que a alma me sugere do que as imagens, que a alma deixou cair, me enfloram no chão, nem até, se um som de palavra bárbara, ou um ritmo de frase interposta, me não tiram do assunto já incerto, da sensação já em parque, e me absolvem de pensar e de dizer, como grandes viagens para distrair. E isto tudo, que, se o repito, deveria dar-me uma sensação de futilidade, de falência, de sofrimento, não conseguem senão dar-me asas de ouro. Desde que falo de imagens, talvez porque fosse a condenar o abuso delas, nascem-me imagens; desde que me ergo de mim para repudiar o que não sinto, eu o estou sentindo já e o próprio repúdio é uma sensação com bordados; desde que, perdida enfim a fé no esforço, me quero abandonar ao extravio, um termo clássico’, um adjectivo espacial e sóbrio, fazem-me de repente, como uma luz de sol, ver clara diante .de mim a página escrita dormentemente, e as letras da minha tinta da caneta são um mapa absurdo de sinais mágicos. E deponho-me como à caneta, e traço a capa de me reclinar sem nexo, longínquo, intermédio e súcubo, final como um náufrago afogando-se à vista de ilhas maravilhosas, em aqueles mesmos mares doirados de violeta que em leitos remotos verdadeiramente sonhara."

A ex-Livreira

Ficou um espaço no coração...
Os dedos já não percorrem lombadas, a pele já não sente o macio das páginas...
O olfacto deixou de sentir o cheiro pungente a papel que o avassalava logo pela manhã...
Os olhos deixaram de percorrer prateleiras na busca de um autor, de um título...
O sorriso morreu na cara por já não entusiasmar ninguém a ler...
Certas palavras deixaram de fazer sentido, tais como: leitores...
Mas ficou a paixão, o brilho no olhar, o conhecimento, o agradecimento, o engrandecimento...
Ficou sobretudo, a imensa paz que traz o ruído silencioso de uma livraria... 
E o coração de papel... ainda não deixou de bater!


Uma vez que se foi livreiro... ficamos livreiros para sempre. 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

...sente...

Aldous Huxley


"Entraram. O ar parecia quente e sofucante, de tal maneira estava carregado pelo perfume de âmbar cinzento e de sândalo. No tecto em cúpula da sala, o órgão de cores tinha momentaneamente pintado um pôr-de-sol tropical. Os dezasseis saxofonistas tocavam um motivo popular: Não Há No Mundo Que Nos Rodeia Outra como tu, Proveta Amada. Quatrocentos pares dançavam um five-step sobre o chão encerado. Lenina e Henry depressa se tornaram no par quatrocentos e um. Os saxofones gemeram como gatos melodiosos ao luar, lamuriaram nos registos alto e tenos como se estivessem desmaiando. Aumentado por uma riqueza prodigiosa de harmónicas, o seu coro balbuciante subia para uma altura mais sonora, sempre mais sonora, até que, por fim, com um gesto da mão, o chefe da orquestra desencadeou a nota final no fragor retumbante de música de ondas, expulsando de toda a existência os dezasseis assopradores simplesmente humanos. Tempestade em lá bemol maior. E então, quase um silêncio, numa meia obscuridade, seguiu-se um abaixamento gradual, em diminuendo descendente, deslizando gradualmente, em quartos de tom, até ao acorde de dominante fracamente murmurado, que se arrastava ainda (enquanto os ritmos de cinco-quatro continuavam os seus compassos no contrabaixo), carregando os obscurecidos segundos com uma intensa espera. E, enfim, a espera foi satisfeita." 

domingo, 13 de novembro de 2011

Simone de Beauvoir


“Hélène abriu os olhos; ele tomou-a nos braços. Aqueles olhos abertos já não viam. Hélène! Já não ouvia. Qualquer coisa permanece que não está ainda ausente de si própria, mas está já ausente da terra, ausente de mim. Estes olhos são ainda um olhar, um olhar congelado que já não é olhar de nada. A respiração parou. Ela tinha dito: Estou contente por estares aí; mas eu não estou aí; sei que se passa qualquer coisa, mas é algo a que não posso assistir; algo que não se passa nem aqui nem noutro lado: para além de toda a presença. Ela respirou uma vez ainda; os olhos velaram-se-lhe; o mundo separa-se dela, o mundo afunda-se; e entretanto ela não está a deslizar para fora do mundo; é no interior do mundo que ela se transforma nesta morta que tenho nos braços. Um esgar repuxa-lhe o canto dos lábios. Já não há o seu olhar. Ele desceu-lhe as pálpebras nos olhos inertes. Querido rosto, querido corpo. Era a tua fronte, eram os teus lábios. Deixaste-me, mas posso ainda amar a tua ausência; a ausência conserva a tua cara; aí está a tua figura ainda; presente nessa forma imóvel. Fica; fica comigo…”