segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

José Tolentino Mendonça

A presença mais pura

"Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

a altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos de supermecado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um 'não esquecer' fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso

porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome

ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»"

in Baldios

Cause, I built a home

Desassossego (11)

"Todos têm, como eu, um coração exaltado e triste. Conheço-os bem: uns são moços de lojas, outros são empregados de escritório, outros são comerciantes de pequenos comércios; outros são os vencedores dos cafés e das tascas, gloriosos sem saberem no êxtase da palavra egotista, a contento no silêncio do egotismo avaro sem ter que guardar. Mas todos, coitados, são poetas, e arrastam, a meus olhos, como eu aos olhos deles, a igual miséria da nossa comum incongruência. Têm todos, como eu, o futuro no passado.

Agora mesmo, que estou inerte no escritório, e foram todos almoçar salvo eu, fito, através da janela baça, o velho oscilante que percorre lentamente o passeio do outro lado da rua. Não vai bêbado; vai sonhador. Está atento ao inexistente; talvez ainda espere. Os Deuses, se são justos em sua injustiça, nos conservem os sonhos ainda quando sejam impossíveis, e nos dêem bons sonhos, ainda que sejam baixos. Hoje, que não sou velho ainda, posso sonhar com ilhas do Sul e com Índias impossíveis; amanhã talvez me seja dado, pelos mesmos Deuses, o sonho de ser dono de uma tabacaria pequena, ou reformado numa casa dos arredores. Qualquer dos sonhos é o mesmo sonho, porque são todos sonhos. Mudem-me os deuses os sonhos, mas não o dom de sonhar."

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Quando uma só vida não chega para filmes assim (18)

Rainer Maria Rilke

"Talvez pesadas montanhas atravesse
por duros veio, sozinho com um mineral;
estou a tal profundidade, que não há fim que ver pudesse
nem distância: a proximidade é tudo o que acontece
e toda a proximidade é pedra, afinal.

Não sou ainda entendido em sofrimento,
por isso esta grande escuridão me empequenece;
mas se fores Tu: torna-te pesado, aparece:
que tua mão em mim tenha cumprimento
e eu em ti com o meu relicário sedento."

in O Livro De Horas

Alexandre O'Neill

O amor é o amor

"O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?..

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!"



in Poesias Completas 

be soft don't be stern

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Herberto Helder (4)

"Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discuro. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição. 
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.

São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos - poema, bicicleta, poeta e mão - 
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida."

in Oficio Cantante

I stick in their heart like a rusty spur

Desassossego (10)

"Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino..."

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Al Berto (6)

"esqueço-me de tudo, por isso escrevo, longe do terror ao sismo inesperado das estrelas,
escrevo com a certeza de que tudo o que escrevo se apagará do papel no momento da
minha morte.
o olhar fugiu pelos interstícios dos objectos, sinto-me como se tivesse cegado por excesso
de olhar o mundo. as palavras para nomear o que é belo definharam, raramente as escrevo,
penso-me só. aqui sentado, imobilizado pela luz amarelenta do candeeiro, continuo a desejar aquilo que nunca verei: a cintilização dum corpo na cal, o sorriso dum rosto ardendo de suicídio em suicídio.
ignoro o mundo e a noite que o envolve e devora. deixo escoar o cansaço do corpo pela janela do quarto. fecho os olhos, finjo o sono, e vou pelos lugares desabitados do meu corpo.
a noite cheira a musgo molhado e a bolor. excrementos de aves acumularam-se 
na palma das mãos, sujam aslinhas do destino e do coração. um pano de flanela resguarda da poeira
os poucos brinquedos que resistiram às mudanças de casa. a humidade manchou a memória.
levanto-me da cama, arrasto-me até à janela. o mar talvez se aviste dali. mas o mar só se torna nítido
quando sonho, não se consegue avistar da janela. volto a deitar-me.
o mar, o dos sonhos, depositou sal luminoso nos cantos da casa, formando desérticas paisagens
onde queimo os dedos, o tacto, vagarosamente. nos corredores já não é possível encontrar sinais de 
passsos nem de facas pelas paredes. silêncio, apenas o silêncio com gumes de luz atravessa o alicerce
ósseo da casa.
lá fora, os estames porosos dos hibiscos oferecem-se aos insectos, crescem como cabelos. o polén das acácias embriaga quem se aproxima da casa, ou quem ousa lavrar as incertezas da noite num lençol
sujo de insónias e de agonia. 
dentro e fora da casa, as sombras dos mortos esburacam a terra e os soalhos, colam-se aos corpos dos que permanecem aqui."

in O Medo

This june bug street sings low and lovely

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Quando uma só vida não chega para filmes assim (17)

Nuno Júdice (4)

Eco

"Hoje, perguntando onde estás, e o
que fazes, ouço as palavras tristes
da solidão que me responde, sem
nada me dizer, ao dizer-me tudo.

O que fazes e onde estás, pergunto
ao silêncio que me deixaste; e ouço
em mim a resposta, num eco que
vem de ti, perguntando por mim.

E neste espelho que entre mim e ti
a ausência constrói, outro espelho
reflecte o vazio da sua imagem, até

esse infinito em que a minha pergunta
te responde, para que me devolvas
o eco em que as nossas vozes se juntam."

in O Breve Sentimento do Eterno

Cormac McCarthy (4)

"Com quê, uma caçadeira?
Pois.
Por roubares melancias.
Pois.
Suttree sentou-se na cama de baixo e ergueu um pé e começou a massajar o tornozelo. Ao fim de um certo tempo, ergueu os olhos. Harrogate estava deitado de bruços, a espreitar sobre a borda do catre. 
Deixa lá ver onde é que levaste essa chumbada, disse Suttree.
Harrogate ajoelhou-se na cama e arregaçou a camisola. Pequenas pregas cor de malva cobriam-lhe a carne pálida pelo flanco abaixo, como cicatrizes de bexigas.
Também tenho a perna toda cheia disto. Ainda não consigo andar como deve ser.
Suttree levantou o rosto para fitar os olhos do rapaz. Iluminados por uma espécie de percepção animal, por uma benevolência incipiente. Bom, disse. Está a ficar uma autêntica selva, este mundo, não é verdade?
Caramba, eu cá pensei que tinha morrido.
Tens sorte em estares vivo, dá-me impressão.
Foi o que me disseram lá no hospital.
Suttree estendeu-se na cama. É preciso um tipo ser muito sacana para dar um tiro em alguém só porque lhe roubou meia dúzia de melancias, hem? disse."

domingo, 12 de fevereiro de 2012

If you could see inside and underskin

Ana Hatherly

Um rio de luzes



"Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca


No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta


Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido"

in O Pavão Negro 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Desassossego (9)

"Suponho que seja o que chamam um decadente, que haja em mim, como definição externa do meu espírito, essas lucilações tristes de uma estranheza postiça que incorporam em palavras inesperadas uma alma ansiosa e malabar. Sinto que sou assim e que sou absurdo. Por isso busco, por uma imitação de uma hipótese dos clássicos, figurar ao menos em uma matemática expressiva as sensações decorativas da minha alma substituída. Em certa altura da cogitação escrita, já não sei onde tenho o centro da atenção - se nas sensações dispersas que procuro descrever, como a tapeçarias incógnitas, se nas palavras com que, querendo descrever a própria descrição, me embrenho, me descaminho e vejo outras coisas. Formam-se em mim associações de ideias, de imagens, de palavras - tudo lúcido e difuso -, e tanto estou dizendo o que sinto, como o que suponho que sinto, nem distingo o que a alma me sugere do que as imagens, que a alma deixou cair, me enfloram no chão, nem até, se um som de palavra bárbara, ou um ritmo de frase interposta, me não tiram do assunto já incerto, da sensação já em parque, e me absolvem de pensar e de dizer, como grandes viagens para distrair. E isto tudo, que, se o repito, deveria dar-me uma sensação de futilidade, de falência, de sofrimento, não conseguem senão dar-me asas de ouro. Desde que falo de imagens, talvez porque fosse a condenar o abuso delas, nascem-me imagens; desde que me ergo de mim para repudiar o que não sinto, eu o estou sentindo já e o próprio repúdio é uma sensação com bordados; desde que, perdida enfim a fé no esforço, me quero abandonar ao extravio, um termo clássico’, um adjectivo espacial e sóbrio, fazem-me de repente, como uma luz de sol, ver clara diante .de mim a página escrita dormentemente, e as letras da minha tinta da caneta são um mapa absurdo de sinais mágicos. E deponho-me como à caneta, e traço a capa de me reclinar sem nexo, longínquo, intermédio e súcubo, final como um náufrago afogando-se à vista de ilhas maravilhosas, em aqueles mesmos mares doirados de violeta que em leitos remotos verdadeiramente sonhara."

A ex-Livreira

Ficou um espaço no coração...
Os dedos já não percorrem lombadas, a pele já não sente o macio das páginas...
O olfacto deixou de sentir o cheiro pungente a papel que o avassalava logo pela manhã...
Os olhos deixaram de percorrer prateleiras na busca de um autor, de um título...
O sorriso morreu na cara por já não entusiasmar ninguém a ler...
Certas palavras deixaram de fazer sentido, tais como: leitores...
Mas ficou a paixão, o brilho no olhar, o conhecimento, o agradecimento, o engrandecimento...
Ficou sobretudo, a imensa paz que traz o ruído silencioso de uma livraria... 
E o coração de papel... ainda não deixou de bater!


Uma vez que se foi livreiro... ficamos livreiros para sempre. 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

...sente...

Aldous Huxley


"Entraram. O ar parecia quente e sofucante, de tal maneira estava carregado pelo perfume de âmbar cinzento e de sândalo. No tecto em cúpula da sala, o órgão de cores tinha momentaneamente pintado um pôr-de-sol tropical. Os dezasseis saxofonistas tocavam um motivo popular: Não Há No Mundo Que Nos Rodeia Outra como tu, Proveta Amada. Quatrocentos pares dançavam um five-step sobre o chão encerado. Lenina e Henry depressa se tornaram no par quatrocentos e um. Os saxofones gemeram como gatos melodiosos ao luar, lamuriaram nos registos alto e tenos como se estivessem desmaiando. Aumentado por uma riqueza prodigiosa de harmónicas, o seu coro balbuciante subia para uma altura mais sonora, sempre mais sonora, até que, por fim, com um gesto da mão, o chefe da orquestra desencadeou a nota final no fragor retumbante de música de ondas, expulsando de toda a existência os dezasseis assopradores simplesmente humanos. Tempestade em lá bemol maior. E então, quase um silêncio, numa meia obscuridade, seguiu-se um abaixamento gradual, em diminuendo descendente, deslizando gradualmente, em quartos de tom, até ao acorde de dominante fracamente murmurado, que se arrastava ainda (enquanto os ritmos de cinco-quatro continuavam os seus compassos no contrabaixo), carregando os obscurecidos segundos com uma intensa espera. E, enfim, a espera foi satisfeita." 

domingo, 13 de novembro de 2011

Simone de Beauvoir


“Hélène abriu os olhos; ele tomou-a nos braços. Aqueles olhos abertos já não viam. Hélène! Já não ouvia. Qualquer coisa permanece que não está ainda ausente de si própria, mas está já ausente da terra, ausente de mim. Estes olhos são ainda um olhar, um olhar congelado que já não é olhar de nada. A respiração parou. Ela tinha dito: Estou contente por estares aí; mas eu não estou aí; sei que se passa qualquer coisa, mas é algo a que não posso assistir; algo que não se passa nem aqui nem noutro lado: para além de toda a presença. Ela respirou uma vez ainda; os olhos velaram-se-lhe; o mundo separa-se dela, o mundo afunda-se; e entretanto ela não está a deslizar para fora do mundo; é no interior do mundo que ela se transforma nesta morta que tenho nos braços. Um esgar repuxa-lhe o canto dos lábios. Já não há o seu olhar. Ele desceu-lhe as pálpebras nos olhos inertes. Querido rosto, querido corpo. Era a tua fronte, eram os teus lábios. Deixaste-me, mas posso ainda amar a tua ausência; a ausência conserva a tua cara; aí está a tua figura ainda; presente nessa forma imóvel. Fica; fica comigo…”

sábado, 12 de novembro de 2011

João Luís Barreto Guimarães (3)



‎"por favor fala mais alto (deve estar
alguém na linha) eu tenho os cabelos
brancos tu: a pele muito macia. a
solidão ao comprido é como quem joga

com dez (qualquer desculpa é desculpa
para esquecer o comprimido). ato um fio
no dedo para não esquecer a alegria

há aves cegas que cantam para fingir
companhia (segunda sexta domingo terça
sábado quinta) há de tudo nesta idade:

desde o deserto à mentira. por favor
fala mais alto (está decerto alguém
na linha) talvez seja a primavera nas
patas de uma andorinha"



‎"apetece por vezes com os dias morrer por um pequeno
instante e deixar os fogos soltos na areia: acrescentar
água à face e perturbar os sentidos em busca da única
luz ou então sentar os movimentos e escrever a uma


amiga. dizer assim como quem fala: que espécie rara
de deus é o teu? a vida é ficar abraçado às dunas
apenas se há dois braços de areia por quem sonhar.


vir então aos poucos contando os mastros do verão
cumprindo o desejo das cartas de mar e assim
mesmo confundir todos os relógios da rota só
para ter mais tempo para ficar. o resto é saber o


alfabeto de cor até ao fim até que as palavras vão
nascendo devagar para ser: sonho no sono dos dias
ou ser sono dentro de mim"




"Abro o caderno e escrevo que estou a escrever no caderno.
Por vezes a escrita dói, a tinta escorre e faz-se sangue, haver duas
palavras amigas a pairar sobre o poema e ao soar da caneta só
uma poder ter lugar.
Um rosto molhado aparece acenando pelo lado da chuva.
Gesticula a pergunta se me encontro a escrever. Sorrio, aquiescendo .
Deixa ficar um adeus e avança sobre os charcos, sem se ter apercebido
de que fiquei a escrever sobre isso, sobre aquele gesto dele, no fundo a escrever
sobre ele.
Não tivesse tocado no vidro, não teria entrado no poema."


A meias
"Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo um cigarro e tu fumas
do meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu.
Dá-te gozo esse roubar de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo 
a meias."


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

João Ricardo Lopes (3)


Caixa de Tabaco 


"devagar os dedos tacteiam
as vísceras ao tempo


moedas, selos, cartas, uma
coleção de antigos retratos, vida
tão de nós como não nossa
tão de nós como de uma
personagem outrora no teatro


devagaro óxido da caixa 
anos-luz de viagem, quer dizer
de existência – quer dizer
a máscara após máscara com
que nos mira, sabe-se lá
de onde, o não-rosto que nos
mira


moedas, selos, cartas – quer
dizer a memória, quer dizer nós
embaulados algures no cosmo
na pele, no odor acre do tabaco


moral da história: devolvemos
o conteúdo ao silêncio e sempre
a nós próprios regressamos"


para a Marta Peixoto




a livreira confessa que até tem o coração amarfanhado, é por estas coisas que vale a pena viver no meio do papel. 
o belo poema foi retirado aqui

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Desassossego (8)

 "Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.


     É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo - desde a nascença e a consciência -, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural.


     Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-lhes os actos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixa-nos nus até de nós.


     Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir."


Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

There is no cure For what I feel

Julio Ramón Ribeyro (2)

82
"Às vezes corro as cortinas e lanço um olhar ávido ao mundo, interrogo-o, mas não recebo nenhuma mensagem, salvo a do caos e da confusão: automóveis circulando, peões atravessando a praça, lojas acendendo as luzes, escavadoras sulcando um terreno baldio, pássaros errantes procurando um remanso no bulício. São os dias nefandos, nos quais nada conseguimos desvendar, pois a nossa consciência está excessivamente toldada pela razão e os nossos olhos embaciados pela rotina. Limpar ambos do que os embaraça não é tarefa fácil. Umas vezes conseguimo-lo mediante um esforço de concentração, outras acontece naturalmente, graças a um trabalho interior no qual não tivemos uma participação deliberada. Só então a realidade entreabre as suas portas e podemos visualizar o essencial."

in Prosas Apátridas
Ahab

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Edgar Allan Poe

"Tu eras para mim, amor, amor sem par,
Tudo o que a alma vivia desejando:
Uma ilha verde, amor, em pleno mar,
Minha fonte e sacrário, e isto ornado
De frutos e de flores de encantar,
E era eu só que das flores tinha o mando.

Sonho ardente de mais para durar!
Ah, Esperança estrelada, só nascida
Para um dia mais tarde se toldar!
Do futuro essa voz se fez ouvida:
«Segue em frente» - mas somente o Passado
(Triste abismo!) o meu espírito convida
E deixa mudo, imóvel, aterrado!

Porque, ai, para o meu ser, ultimamente,
Da vida o lume quis apagado.
«Não mais, não mais, não mais (diz, impotente,
O mar solene, vendo do outro lado
A areia que na praia lhe faz frente)
Há-de dar fruto o tronco fulminado,
Ou a águia ferida ergue-se novamente.

É puro transe agora o meu viver
E os sonhos que de noite me atormentam
São onde os olhos teus procuram ver
E onde os saudosos passos teus inventam
Etéreas danças que me é dado entrever
Nas margens que na Itália se adormentam.

Pobre de mim, que um dia malfadado
De mim te arrebataram, mas afora,
Trocando Amor por título aviltado,
E num profano leito estás agora,
Longe das brumas nossas, do meu lado,
Onde o salgueiro de prata agora!"

in O Encontro

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

António Barahona




Soneto Vívido
"O meu amor por ti assombra os astros
da noite escassa para o nosso amor.
Soneto vívido de versos castos,
no desgaste da boca um som de flor.


E, no engaste do teu sexo, uma rima
a completar corpo comum de dois,
substantivo ou canção que nos ensina
a fabricar ba pele ethéreos sóis.


Nas mãos, ainda, a ternura extensa,
certeira se dilui nos alvos rubros
e o riso se pratica a comer uvas.


O meu amor por ti marca presença:
dormimos virgens, e os teus ombros cubro-os,
temendo, deste inverno, as ígneas chuvas."



Silêncio
"Silêncio é uma palavra impossível.
Não corresponde a nenhuma realidade.
Não há silêncio no cosmos
nem em cada um de nós.
Numa sala sem eco,
entre paredes de cimento isolante,
ouve-se ecoar a circulação
do nosso próprio sangue."


O Jejum
"Os dias e as noites adquirem uma nitidez deslumbrante. As horas regressam à sua etimologia e constituem, de facto, de fato novo, orações."


Reconstrução
"Reconstruir o pensamento religioso
em cada gesto,
em cada acto do quotidiano:
de tudo, até ao mais ínfimo,
ter a consciência do seu todo.


Reconstruir a harmonia com o cosmos
à custa da dissonância nos versos
e da distância que se move os remos.


Reconstruir a estrada sobre a água
pra navegar em direcção ao fogo
do nosso amor plo mundo, que naufraga.


Reconstruir a vida pra nascer de novo."

*Fotografia "roubada" aqui

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Flaubert (3)


Um coração simples
"Levantava-se o alvorecer, para não faltar à missa, e trabalhava até o fim da tarde sem interrupção; depois, acabado o jantar, com a loiça em ordem e a porta bem fechada, enterrava a acha de lenha debaixo das cinzas e adormecia diante da lareira, de rosário na mão. Ninguém era mais obstinada a regatear preços. Quanto a asseio, o brilho das suas caçarolas fazia o desespero das outras criadas. Poupada que era, comia devagarinho e recolhia a dedo de cima da mesa as migalhas do seu pão - um pão de doze libras, cozido expressamente para ela, e que durava vinte dias. 
Usava durante todo o ano um lenço de chita preso nas costas por um alfinete, uma touca que lhe tapava o cabelo, meias cinzentas, saia encarnada e, por cima da camisa larga, um avental de peitilho como as enfermeiras do hospital.
Tinha uma cara magra e voz aguda. Aos vinte e cinco davam-lhe quarenta. A partir dos cinquenta deixou de ter idade; e, sempre silenciosa, de figura inteiriça e gestos medidos, parecia feita de madeira, a funcionar automaticamente."

terça-feira, 1 de novembro de 2011

(embalar a alma)

Álvaro de Campos (2)

Acordar


"Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras, 
Acordar da Rua do Ouro, 
Acordar do Rocio, às portas dos cafés, 
Acordar 
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme, 
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono. 


Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar, 
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo. 
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se 
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma, 
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo. 


Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne, 
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha, 
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom, 
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada, 
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes, 
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste, 
Seja 


A mulher que chora baixinho 
Entre o ruído da multidão em vivas... 
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito, 
Cheio de individualidade para quem repara... 
O arcanjo isolado, escultura numa catedral, 
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã, 
Tudo isto tende para o mesmo centro, 
Busca encontrar-se e fundir-se 
Na minha alma. 


Eu adoro todas as coisas 
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite. 
Tenho pela vida um interesse ávido 
Que busca compreendê-la sentindo-a muito. 
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo, 
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas, 
Para aumentar com isso a minha personalidade. 


Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio 
E a minha ambição era trazer o universo ao colo 
Como uma criança a quem a ama beija. 
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras, 
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo 
Do que as que vi ou verei. 
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações. 
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos. 
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca. 


Dá-me lírios, lírios 
E rosas também. 
Dá-me rosas, rosas, 
E lírios também, 
Crisântemos, dálias, 
Violetas, e os girassóis 
Acima de todas as flores... 


Deita-me as mancheias, 
Por cima da alma, 
Dá-me rosas, rosas, 
E lírios também... 


Meu coração chora 
Na sombra dos parques, 
Não tem quem o console 
Verdadeiramente, 
Exceto a própria sombra dos parques 
Entrando-me na alma, 
Através do pranto. 
Dá-me rosas, rosas, 
E lírios também... 


Minha dor é velha 
Como um frasco de essência cheio de pó. 
Minha dor é inútil 
Como uma gaiola numa terra onde não há aves, 
E minha dor é silenciosa e triste 
Como a parte da praia onde o mar não chega. 
Chego às janelas 
Dos palácios arruinados 
E cismo de dentro para fora 
Para me consolar do presente. 
Dá-me rosas, rosas, 
E lírios também... 


Mas por mais rosas e lírios que me dês, 
Eu nunca acharei que a vida é bastante. 
Faltar-me-á sempre qualquer coisa, 
Sobrar-me-á sempre de que desejar, 
Como um palco deserto. 


Por isso, não te importes com o que eu penso, 
E muito embora o que eu te peça 
Te pareça que não quer dizer nada, 
Minha pobre criança tísica, 
Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios, 
Dá-me rosas, rosas, 
E lírios também..."

James Joyce


"Não havia fuga possível Tinha que confessar-se, que explicar por palavras o que tinha feito e pensado, pecado a pecado. Como? Como?
- Padre, eu...
O pensamento penetrou como uma espada fria e brilhante na sua carne tenra: confissão. Mas não ali, na capela do colégio. Confessaria todo e cada pecado dos seus actos e pensamentos, com sinceridade; mas não ali, entre os seus companheiros. Longe dali, num local escuro, murmuraria a sua própria vergonha; e suplicou humildemente a Deus que não se ofendesse por ele não ousar confessar-se na capela do colégio e, numa total abjecção do espírito, implorou silenciosamente o perdão daqueles corações juvenis que o rodeavam. 
O tempo passou. Estava novamente sentado no primeiro banco da capela. A luz do dia, lá fora, já começava a declinar-se e, à medida que descia lentamente pelas persianas vermelhas, parecia que se punha o sol do último dia e que todas as almas estavam a ser arrebanhadas para o julgamento."

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Fiódor Dostoievski


‎"Mas a catástrofe ocorreu oportunamente. Ao suportar o revólver, vinguei-me de todo o meu sombrio passado. E embora ninguém tenha sabido disso, ela soube-o e isso para mim era tudo, porque ela própria era tudo para mim, toda a esperança do meu futuro nos meus sonhos! Ela era a única pessoa que eu preparava para mim e não precisava de mais ninguém - e ela ficara a saber de tudo; ela ficara a saber, ao menos, que se apressara injustamente a juntar-se aos meus inimigos. Este pensamento encantava-me. Aos olhos dela eu não podia ser já um canalha, quando muito um homem estranho, mas até esse pensamento já não me desagradava assim tanto, agora, depois de tudo o que tinha acontecido: ser estranho não é um defeito, pelo contrário, por vezes até seduz o carácter feminino."

Albert Cossery


‎"Cada vez que olhava para aquela paisagem, sentia-se invadido por uma intensa felicidade, como se um destino sagaz lhe tivesse concedido o privilégio de ser a única e insaciável testemunha. Esse delicioso sentimento de orgulho tinha origem numa realidade concreta; com efeito, por todo o lado no resto do mundo, aquela calma encantatória e aquela imutável doçura não passavam de uma lembrança. Por todo o lado no resto do mundo, o despotismo industrial tinha degradado os comoventes espaços da natureza e foi por pouco que aquela paisagem não se transformou também ela numa zona infectada. Para o provar, bastava virar a cabeça para identificar por entre a bruma do calor - cravada no deserto como uma estátua erguida em nome do absurdo - a estrutura metálica de uma torre petrolífera a apodrecer ao sol."

Desassossego (7)

 "Nos primeiros dias do outono subitamente entrado, quando o escurecer toma uma evidência de qualquer coisa prematura, e parece que tardámos muito no que fazemos de dia, gozo, mesmo entre o trabalho quotidiano, esta antecipação de não trabalhar que a própria sombra traz consigo, por isso que é noite e a noite é sono, lares, livramento. Quando as luzes se acendem no escritório amplo que deixa de ser escuro, e fazemos serão sem que cessássemos de trabalhar de dia, sinto um conforto absurdo como uma lembrança de outrem, e estou sossegado com o que escrevo como se estivesse lendo até sentir que irei dormir.
     Somos todos escravos de circunstâncias externas: um dia de sol abre-nos campos largos no meio de um café de viela; uma sombra no campo encolhe-nos para dentro, e abrigamo-nos mal na casa sem portas de nós mesmos; um chegar da noite, até entre coisas do dia, alarga, como um leque [que] se abra lento, a consciência íntima de dever-se repousar."

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

...

Mariano Peyrou



"Pouco mais do que este conhecimento,
inútil porque não o podemos transportar.
Dias e o descuido que associamos 
à generosidade. Várias maneiras de o medir:
com alfinetes, com nomes próprios, com dias.


A fidelidade é ampla e mal iluminada,
sobressaí o óbvio, importa
o indemonstrável. Seria bom que desses a tua opinião."




‎"Tudo se torna signo, alarme
perante o excesso de númeno, solavanco
até ao remoinho sensorial,
a víscera latente e por vezes
manifesta limita-se hoje às suas funções
mais prosaicas. Resumo de eufemismos: o amor
é metáfora de sexo tal como Deus é metáfora
das dúvidas transcendentes e por vezes também
físicas, recordemos em todo o caso o sol
e a chuva, o que equivale a desejar
consciência do seu canto nas sereias
que apesar das minhas meditações hermenêuticas
continuaram a trabalhar e sabem contrapor 
algo desejável. Sonhas,
logo existem."

Eugénio de Andrade

Adeus


"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.


Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.


Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus."