"Os meus livros (que não sabem que existo) São uma parte de mim, como este rosto De têmporas e olhos já cinzentos Que em vão vou procurando nos espelhos" Jorge Luis Borges
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Patrick Suskind
"Um pânico de morte: é assim, sem dúvida, como na hora teria descrito este momento, mas tal não correspondia à verdade, pois o medo apenas surgira mais tarde. Tratava-se antes de uma estupefacção de morte.
Durante uns cinco, talvez dez segundos - a nível pessoal pareceram-lhe eternos -, manteve-se com a mão na maçaneta, o pé levantado para dar o primeiro passo, como se tivesse ficado na ombreira da porta, sem poder avançar nem recuar. Seguiu-se um pequeno movimento. Fosse porque a pomba mudou de apoio de uma pata para a outra ou porque se sacudiu um pouco, a verdade é que de qualquer maneira um leve estremecimento lhe percorreu o corpo e ao mesmo tempo duas pálpebras se fecharam com um ruído seco sobre o olho, uma por baixo e outra por cima, sem que se tratassem realmente de verdadeiras pálpebras mas antes de quaisquer batentes em borracha e que engoliram o olho como dois lábios surgidos do nada. Por um momento desapareceu. E só então é que o medo assaltou Jonathan e lhe pôs os cabelos em pé."
domingo, 21 de agosto de 2011
A livreira (9)
Hoje percebi porque cantam os pássaros.
A livreira não encontra forma de explicar a experiência que teve.
E digo que não existem palavras, frases nem livros que possam descrever algo assim.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Gao Xingjian
O templo
"Nadávamos numa felicidade perfeita, no desejo, no amor louco, na ternura e na doçura da viagem de núpcias que se seguira ao nosso casamento, embora só tivéssemos quinze dias de férias: dez dias concedidos para a ocasião e uma semana de férias normais. O casamento é uma questão para toda a vida, para nós nada poderia ser mais importante, como poderíamos não ter pedido alguns dias suplementares? Mas o meu chefe, tão avarento, regateava quase ao centavo cada vez que alguém pedia férias, era duro. Inicialmente, na autorização estava assinalada uma dispensa de duas semanas, mas ele transformara-a numa semana, e depois dissera-me um pouco embaraçado: "Espero que possa voltar a tempo". - "Certamente, certamente, respondera eu, o nosso pequeno salário não nos permitirá demorar a viagem." Então ele acabou por assinar de uma penada. As férias foram concedidas.
A partir daí deixava de ser solteiro. Tinha uma família. De facto tinha combinado esta viagem com Fangfang há muito tempo. A partir de agora, constituíamos uma família, já não poderia, ao receber o meu salário no princípio do mês, ir ao restaurante, convidar amigos, gastar à vontade e chegar ao fim do mês sem tostão, sem poder sequer comprar um maço de cigarros, obrigado a procurar nas algibeiras ou a virar gavetas para desencantar alguns trocos. É melhor nem falar nisso. Dizia que estávamos felizes. De facto, a felicidade é bastante rara na nossa vida tão curta."
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
domingo, 7 de agosto de 2011
Milan Kundera
"Oh, como se passara tudo ao contrário do que ela quisera! Sonhara morrer misteriosamente. Fizera tudo para que ninguém pudesse saber se a sua morte fora um acidente ou suicídio. Quisera enviar-lhe a sua morte como sinal secreto, um sinal de amor vindo do além, só para ele compreensível. Fora tudo bem previsto excepto, talvez, o número de soníferos, excepto, talvez, a temperatura que, enquanto ela adormecia, subira. Pensara que o gelo a ia mergulhar no sono e na morte, mas o sono era demasiado fraco; abrira os olhos e vira o céu negro.
Os dois céus tinham dividido a sua vida em duas partes: o céu azul, o céu negro. Era sob este outro céu que ia em direcção à sua morte, a sua verdadeira morte, a morte longínqua e trivial da velhice.
E ele? Ele vivia sob um céu que para ela não existia."
A livreira (8)
No meio do seu mundo de livros, a livreira, procura respostas.
As respostas não surgem. O tempo não pára, segue célere.
As respostas não surgem. O tempo não pára, segue célere.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Julio Ramón Ribeyro
89
"Durante dez anos vivi emancipado do sentido da propriedade, da profissão, da família, do domicílio, e viajei pelo mundo com uma mala cheia de livros, uma máquina de escrever e um gira-discos portátil. Mas era vulnerável e cedi a sortilégios tão antigos como a mulher, o lar, o trabalho, os bens. Foi assim que criei raízes, escolhi um lugar, o ocupei e comecei a povoá-lo de objectos e presenças. Primeiro de alguém a quem amar, depois do que este ser desejasse, em seguida dos adereços: uma cama, uma cadeira, um quadro, um filho. Mas tratou-se apenas do princípio, pois todos começamos por ser recolectores, tornamo-nos coleccionadores e acabamos como mais um elo da cadeia infinita de consumidores. De modo que, estando já velhos e gastos para o desfrute, vemo-nos circunscritos pelas coisas. Livros que não queremos ler, discos que não temos tempo de ouvir, quadros que não nos apetece contemplar, vinhos que nos fazem mal, cigarros que estamos proibidos de fumar, mulheres que nos falta a força para amar, recordações a que não queremos voltar, amigos para quem não temos perguntas e experiências que não há maneira de aproveitar. O tardio, o supérfluo o que antes era cobiçado, amontoa-se em torno de nós, organiza-se naquilo a que poderíamos chamar de casa, mas tão-só quando já estamos a despedir-nos de tudo, pois esta vida cumulativa acaba por se edificar no umbral da nossa morte."
João Luís Barreto Guimarães (2)
1 de Agosto
"Escolhi um lugar à sombra nas mesas da esplanada. Uma pastilha elástica secou sob o tampo da mesa.
Não apetece escrever. A sombra resiste ao sol que vem lentamente a crescer, acendendo-a imperceptível centímetro após centímetro. Eu, que escolhera lugar escondido do sol de Agosto, brevemente me verei sem ter que me mudar, molhado pelo calor do Verão.
Talvez uma ideia então, ilumine esta caneta a tempo de salvar o poema."
in Lugares Comuns
Mariposa Azual
domingo, 31 de julho de 2011
John Cheever
Camponês de Verão
"É verdade, mesmo em relação aos melhores de entre nós, que se um observador nos surpreender a entrar num comboio num apeadeiro; se reparar na nossa cara, riscada pela ansiedade da determinação; se considerar a nossa bagagem, a nossa indumentária, e olhar pela janela a ver quem nos conduziu à estação; se escutar as palavras duras ou ternas que dizemos se estamos com a nossa família ou reparar na maneira como pomos a mala na bagageira, verificamos a posição da carteira, o nosso molho de chaves, e como limpamos o suor da nuca, poderá colher uma imagem mais vasta das nossas vidas do que a maior parte de nós quereria."
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Gastão Cruz
Alteração
1
"Já então me faltava o sentido
do mundo já tudo me faltava ou
tudo havia já então a esperança
permitia o cansaço ou nada
permitia já nos braços
de novo me faltava ou tinha tudo o
que a dor prometia
Já nos braços havia o sentido
a tristeza havia a tarde
a noite e tudo o mais que o tempo
dava faltava-me o sentido
da tristeza tinha o tempo
e o medo da esperança que
o cansaço permitia
2
Está tudo como antes até esta
perfeita liberdade de perdermos
com a vinda da noite o que
ainda tivermos a vida
por exemplo se tudo pois
assim puder perder-se
Está tudo como antes até este
medo intacto de tudo
se perder até que a névoa a
neve a noite por exemplo
suspendam o que ainda
houver por suspender
Está tudo como antes até esta
completa suspensão da noite
por exemplo o desejo o prazer
a solidão por vezes a esperança
dos nervos está tudo como antes
até anoitecer"
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Rui Manuel Amaral (2)
Uma pessoa feliz
"Innocentius Prioris era, sem dúvida alguma, uma pessoa feliz. Muito feliz. Desde sempre, profundamente feliz. Por isso, esfregava as mãos e girava sobre si mesmo cantarolando velhas valsas. E enchia o peito aspirando o ar com prazer, consciente de que era iluminado por uma boa estrelinha. E abria os braços e batia com os pés no chão, e mostrava os dentes amarelos, e deitava a língua de fora, e fazia piruetas, e dava gritinhos, porque se sentia muito feliz. E adormecia satisfeito e tinha sonhos felizes, e acordava cheio de felicidade. E dava graças a Deus e a Santo Inácio, e a todos os santos, e a todas as santas pela alegria concedida. Oh, era feliz, feliz, feliz, feliz. E se multiplicássemos a sua boa fortuna por mil ainda ficaríamos longe da medida correcta da sua felicidade.
E pronto, é tudo.
Esperavam talvez que, de repente, alguma coisa conduzisse a história numa direcção totalmente diversa? Que irrompesse de algum lado um grão de areia, uma pedra, um vidrinho afiado que colocasse um ponto final em tanta felicidade? Compreendo. Mas não. Innocentius viveu e morreu feliz, muito, muito feliz. E não digo nada acerca da alegria com que foi recebido no Paraíso, por ser coisa óbvia."
terça-feira, 26 de julho de 2011
Miguel-Manso
Balada da Rua Damasceno Monteiro
"ardia de amor pela casa
numa confusão de silêncios ou
dizendo de outro modo
afundava-se numa líquida recordação cardíaca
ocultos pólen pólvora fósforos
a má reputação dos dedos
paixão cartografada remota
toponímia de enganos
braço a braço crescia alto
o incêndio no interior do peito
deliberado ritual de lâminas e pele
a transparente certeza
da cicatriz
mas ardia de amor pela casa soturna
silêncio dando para o saguão luz muitíssimo
extinta por sobre a larga extensão destruída
morrer, principalmente de amor, é
uma compendiosa tarefa doméstica
dentro do coração antigo
serei breve"
domingo, 24 de julho de 2011
Albert Camus
"A princípio, as pessoas tinham aceitado estarem isoladas do exterior, como teriam aceitado qualquer outro inconveniente temporário que apenas perturbasse alguns dos seus hábitos. Mas, subitamente conscientes de uma espécie de sequestro, sob a tampa do céu onde o verão começava a crepitar, sentiam confusamente que esta reclusão lhes ameaçava toda a vida e, chegada a noite, a energia que eles recuperavam com a frescura lançava-os, por vezes, em actos de desespero.
Em primeiro lugar, e quer seja ou não efeito de uma coincidência, foi a partir desse domingo que houve na nossa cidade uma espécie de medo, bastante geral e bastante profundo, para que se pudesse suspeitar de que os nossos concidadãos começavam verdadeiramente a tomar consciência da sua situação. Sob este ponto de vista, a atmosfera da nossa cidade modificou-se um pouco. A questão, porém, é saber se, na verdade, a modificação estava na atmosfera ou nos corações."
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Tchékhov
Os Papa-Jantares
"O velho septuagenário Mikhail Petrov Zótov, popular de condição, decrépito e solitário, acordou por causa do frio e da quebreira no corpo todo. Ainda estava escuro no quarto, mas a lamparina do ícone já não ardia. Zótov levantou a ponta da cortina e espreitou pela janela. As nuvens que cobriam o céu já começavam a esbranquiçar, o ar a tornar-se transparente - passaria das quatro, não mais.
Zótov gemeu, tossiu e encolhido de frio, saiu da cama. pelo seu costume de sempre ficou muito tempo diante do ícone, a rezar. Rezou o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, rezou por muita gente, um rol de nomes. Havia muito que já não se recordava a quem correspondiam esses nomes, rezava só por hábito. Também por hábito, varreu o quarto e o vestíbulo e pôs a aquecer o pequeno e barrigudo samovar de cobre vermelho e quatro penas. Não tivesse Zótov estes hábitos e não saberia como preencher a velhice."
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Raymond Guérin
"Há aqui cada número! Gente de toda a parte, e de toda a espécie! As refilonas e as cómicas. Mas eu é que não estava lá muito em forma. Sentia umas guinadas na barriga. Era uma metrite. Há meses que eu deveria ter começado a tratar-me. O médico que me viu bem mo recomendou. Aquilo ainda me ia pregar uma partida, a continuar assim. Mas eu estava sempre a adiar. Não é nada simpático, deixarmo-nos examinar. Põem-nos de cabeça para baixo e esgaravatam cá dentro com umas luvas de borracha. Além disso, sempre incomoda estar toda nua, naquela posição, ao pé de um homem que a gente não sabe quem é! Enfim, não sei quando é que irei continuar a tratar-me. Não é aqui que vou fazer as irrigações. Há lá um irrigador, na enfermaria. mas toda a gente se serviu dele e isso a mim mete-me nojo. Ir no fim de toda a gente, não, obrigada!"
e. e. Cummings
Chamar a Si Todo o Céu com um Sorrisoque o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos
que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens
e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos
que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens
e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso
quarta-feira, 20 de julho de 2011
João Luís Barreto Guimarães
21 de Dezembro
"Abro o caderno e escrevo que estou a escrever no caderno.
Por vezes a escrita dói, a tinta escorre e faz-se sangue, haver duas palavras amigas a pairar sobre o poema e ao soar da caneta só uma poder ter lugar.
Um rosto molhado aparece acenando pelo lado da chuva.
Gesticula a pergunta se me encontro a escrever. Sorriu, aquiescendo. Deixa ficar um adeus e avança sobre os charcos, sem se ter apercebido que fiquei a escrever sobre isso, sobre aquele gesto dele, no fundo a escrever sobre ele.
Não tivesse tocado no vidro não teria tocado no poema."
Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (15)
Contado por um amigo livreiro.
Aconteceu durante uma feira do livro.
Um cliente pede um título muito especifico. O livreiro vai buscar o livro (este é um daqueles livros que mais parece uma lista telefónica, daqueles mesmo muito grandes e grossos). Segue-se esta conversa:
Livreiro: Este livro vem com um "brinde", dá para levar para a praia e fazer de almofada. (diz num tom de brincadeira e na mais perfeita inocência)
Cliente: É? Que bom. (aproxima-se da caixa para efectuar o pagamento)
Livreiro: São x euros.
Cliente: E o brinde?
Livreiro: Brinde?
Cliente: Sim o brinde! O senhor é que disse que o livro vinha com um brinde. Uma almofada para levar para a praia!
Aconteceu durante uma feira do livro.
Um cliente pede um título muito especifico. O livreiro vai buscar o livro (este é um daqueles livros que mais parece uma lista telefónica, daqueles mesmo muito grandes e grossos). Segue-se esta conversa:
Livreiro: Este livro vem com um "brinde", dá para levar para a praia e fazer de almofada. (diz num tom de brincadeira e na mais perfeita inocência)
Cliente: É? Que bom. (aproxima-se da caixa para efectuar o pagamento)
Livreiro: São x euros.
Cliente: E o brinde?
Livreiro: Brinde?
Cliente: Sim o brinde! O senhor é que disse que o livro vinha com um brinde. Uma almofada para levar para a praia!
terça-feira, 19 de julho de 2011
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Boris Vian
"Colin acabava de se vestir. Ao sair do banho envolvera-se numa toalha ampla de tecido felpudo, que apenas deixava à mostra as pernas e o tronco. Tirou o vaporizador da prateleira de vidro e pulverizou com óleo fluído e odorífero os cabelos claros. O pente de âmbar repartiu a cabeleira sedosa em compridos fios cor de laranja, semelhantes aos sulcos que o agricultor brincalhão traça com o garfo na compota de damasco."
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Telhados de Vidro (6)
2
"Empate a zero de todas as razões. Vitória a nada de todos os nadas. Eu morro, tu morres, ele morre. Com poesia poderia dizer: eu pouco, tu pouco, ele pouco, e no entanto, tão mais do que ousaríamos esperar (embora fosse, é claro, nada mais do que a mentira que uso para me enganar). Eu morro, tu morres, ele morre (tenho de o repetir para que o poema, ora aí está a mentira, faça sentido). Mas de algum modo, também a poesia não resolve, e eu tenho de voltar ao princípio que cada uma das minhas palavras gastou e repetir de novo: eu morro, tu morrer, ele morre. Este o verbo universal sem rosto. Esta a carne absoluta sem razão. Como queres que te diga quem vence? (Como queres que acredite que há vencedor?)"
Jorge Roque
* Telhados de Vidro nº15 da (fabulosa) Averno
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Augusto Monterroso
A boa consciência
"Existiu no centro da Selva, há muito tempo, uma extravagante família de plantas carnívoras que, com o passar do tempo, tomaram consciência do seu estranho costume, principalmente devido aos constantes rumores que o bom Zéfiro lhes trazia de todos os cantos da cidade.
Sensíveis à crítica, pouco a pouco foram ganhando repugnância à carne, até que chegou o momento em que não só a repudiaram em sentido figurado, ou seja, sexual, como por último se negaram a comê-la, a tal ponto enjoadas que a sua simples visão lhes causava náuseas.
Então decidiram tornar-se vegetarianas.
A partir desse dia comem-se unicamente umas às outras e vivem tranquilas, esquecidas do seu passado infame."
Margarida Vale de Gato
Com Paixão e Hipocondria
"Confortamo-nos com histórias laterais,
evitamos o toque, há risco de contágio;
por mais que preservemos a franqueza
passou o estágio já da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes - entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía"
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Helder Moura Pereira (3)
| Vivo agora aqui |
"Vivo agora aqui, num quarto fechado, a tua roupa, todos os teus
objectos caem sobre mim como trovões. Há um terror teimoso
que me prende a estas gavetas cheias, já me deixei fulminar
numa noite de onde não me queria levantar, e tu à mesma dormindo,
sem dares por nada. A partir daí a minha testa de zombi chocou
contra vidros, paredes e jarras de flores, é testa dura que não se parte.
Foi missa ligeira a que assistimos sem crer, mais um dos nossos
mortos ia a enterrar, cumprir o dever de aparecer por ali e depois,
deitados, nós dois tão afastados, tão mortos. Ver-te no cinzeiro
fora do quarto, de calças oscilantes, arrumando na distância
Ios teus assuntos práticos, é ver-me nisso tudo que perdi e sentir-me
frio, frio, cada vez mais frio. Tenho andado a pensar no nosso caso
e - tirando da estante um livro - está tudo aqui bem claro, disse.
Nunca serei para ti a Grande Mãe, esse maníaco corpo onde te queres
enroscar e buscas protecção para os temores da noite e de deus.
Não te acompanharei nessa viagem sexual até à exausta escuridão
do infinito, não contes comigo para cobrar impostos à tua amoralidade,
nem penses que me comove a tua pena, a tua dor, o teu sofrimento.
Os teus objectos, todas as tuas coisas, os teus sapatos, a tua tristeza,
já não são bem coisas, são palavras que eu levaria comigo para outra casa.
Serei eu quem me lembro de ter sido? É uma questão que só ocorre
num quarto fechado de paredes desiguais, quando a memória
não é senão um facto igual a tantos outros e o teu cordão de histórias
repete datas - num dia de setembro, por exemplo, amámo-nos.
Dez dias fora. Ao longo dos dez dias vou sentindo cada vez mais
escuridão e contudo no dia marcado para o teu regresso há tanta alegria
na minha boca (mesmo se fechada a boca põe os lábios
de outra maneira, deixa entrever metade dos seus dentes) que
só me apetece escrever um enorme e ridículo poema épico."
|
sábado, 9 de julho de 2011
A Livreira (7)
A Livreira vai entrar numa aventura...
Amanhã dia 10, vai ler uma série de contos e poemas na feira do livro que está a decorrer na cidade.
Entre o belo sotaque e com certeza alguns engasganços, vários poetas e alguns autores vão ser ouvidos em voz alta.
Amanhã dia 10, vai ler uma série de contos e poemas na feira do livro que está a decorrer na cidade.
Entre o belo sotaque e com certeza alguns engasganços, vários poetas e alguns autores vão ser ouvidos em voz alta.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Nunca um grafite ficou tão bem numa parede (4)
Escrevias pela Noite Fora
"Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal."
Helder Moura Pereira
quinta-feira, 7 de julho de 2011
João Almeida
77
"começa a alvorada como se houvesse outras mais
irá florir a ameixoeira na varanda
e a indestrutível batata-doce
perdi um amigo
talvez dois
desencontrámo-nos, quebranto de encruzilhada
ou por simples fastio
é verdade que não sou íntegro
nem honesto, caio por pouco sem ninguém saber
para fugir à dor na estrada desavinda
por um afago de mão enganada na barriga
mas hoje imponho-me a alegria da rectidão
arrumei a roupa e tomei banho
saio sem pecado para o conhecimento da manhã
aonde quer que me leve"
terça-feira, 5 de julho de 2011
Truman Capote (2)
A forma das coisas (1944)
"Uma mulher pequenina e magra, o cabelo branco à Pompadour, avançou num passo vacilante pelo corredor do vagão-restaurante e, não sem algum labor, sentou-se numa cadeira junto a uma janela. Acabou de assinalar a lápis o seu pedido, e, depois, semicerrou uns olhos de míope para o par que ocupava os lugares em frente, um fuzileiro de faces bem coradas e uma rapariga cujo o rosto parecia ter sido moldado na forma de um coração. Num só relance, reparou numa aliança de ouro que brilhava no dedo da rapariga, numa fitinha de tecido vermelha, entrelaçada no seu cabelo, e decidiu que havia nela qualquer coisa de reles; mentalmente, rotulou-a de noiva de guerra. Os seus lábios desenharam um ténue sorriso, que era um convite à conversa."
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Cormac McCarthy
"Acordou antes da alvorada e viu nascer o dia cinzento. Vagaroso e semiopaco. Levantou-se enquanto o rapaz ainda dormia e calçou os sapatos e, embrulhado no cobertor, afastou-se por entre as árvores. Desceu até uma fenda na rocha e ali se agachou a tossir e tossiu durante muito tempo. Depois deixou-se ficar somente ajoelhado nas cinzas. Ergueu o rosto para o dia exangue. Estás aí?, sussurrou. Irei ver-te no derradeiro momento? Tens pescoço para eu te puder esganar? Tens coração? Amaldiçoado sejas eternamente, tens alma? Oh Deus, sussurrou. Oh, Deus."
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