segunda-feira, 23 de maio de 2011

Diogo Vaz Pinto


FLOR SUFICIENTE

Uma idade em que nos apetecia ainda
falar de idade, sem futuro nem constrangimentos. 
                                                     
                                                             para o Manuel



"A doce insolência de uns dias
mais a sul, esse regresso pontual aos lugares
onde fiz à pressa os primeiros seis anos
e quis ser tudo menos, é claro,
poeta, emprestou-me uma razão.
Na demora do crepúsculo a luz
inchava e faz parecer
belo o fim da rua que subi.


Entro no supermercado, atravesso
sozinho os corredores enquanto penso
na glória obscena e acessível
deste nosso princípio de século.
Bolachas e iogurtes, fiambre, um saco
de café, cervejas e sabão. Não é
o real quotidiano,  mas umas coisas
que tinha em falta quando saí.


Volto por um outro caminho
a ver se espreito um pouco dessa vocação
litoral. Putos dos que têm ainda
as ruas e montam ventos (desses
que às miúdas levantam as saias), andam
aos chutos na fuça do mar, trepam descalços
às árvores e fazem guerras com a fruta.


Um acerta noutro em cheio e grita
morreste!, esse cai ao chão. Larga cuspo
nos dedos, esfrega a estrela de sangue
que lhe abre o joelho e volta lá para cima.
Morrer e matar, também brincávamos
a isso. Mas a coisa depois
foi ficando séria. Deixámos para trás
infâncias épicas, muitas mesmo
inventadas. O tempo mordia-nos então
com doçura, agora, as vezes,
magoa.


À distância (segura) de algumas pedradas,
devolvemos imagens à memória,
nós com eles, trincando o caule das azedas
com uns dois, três cães velhos
sempre por perto, ao alcance de um
último afago, de vez em quando as sobras
do lanche, pedaços de pão com manteiga.


Um dos miúdos isolou-se entretanto.
Com um isqueiro, a chama lambendo
as murtas, ele soprando cinza. Os olhos,
à frente, devagar, batendo a beleza cansada
de terra baldia, a medir com um suspiro
ou mais a dimensão desse jardim deserto


O mesmo assobio, tão antigo,
o mesmo vigor melodioso, preso entre
aqueles dois lábios breves e a falta
de ritmo que dói nestes versos.
Um silêncio afogando-se noutro
e a cor que o atingiu aos poucos.
Abrindo o mais que pôde, uma flor
foi suficiente para aproximar-nos
em idade e no resto."

Quando uma só vida não chega para filmes assim (4)

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (11)

Numa livraria nem sempre entram compradores de livros, por vezes entram também vendedores que acreditam piamente nos seus produtos: vendedores de tapetes, de quadros, de perfumes, de flores de plástico, de telemóveis...
De facto já vi um pouco de tudo, mas ouve uma situação que me marcou especialmente.
A livreira tem certas dificuldades em se manter acordada durante as primeiras horas do dia, ou não fosse ela fã acérrima de um lema "só gostava de ter tanto sono à noite como tenho de manhã", e quando o insólito a procurou estava realmente a dormir em pé. 
Entra um jovem cheio de energia pela livraria dentro:
Jovem - Ora muito BOM DIA! (devia ter tomado no mínimo 10 cafés)
Eu - Bom dia!
Jovem - Trago aqui uma maravilha para lhe mostrar!
Eu - (por favor, mal consigo abrir os olhos) Peço desculpa, mas se é para vender alguma coisa aviso-o que está a perder o seu tempo.
Jovem - Não tem de me comprar nada, apenas lhe quero mostrar as maravilhas que este produto pode fazer. (tira de uma mala um produto muito semelhante a um qualquer vulgar limpa vidros)
Posso começar?
Eu - Começar?
Jovem - Sim, vou começar por lhe limpar o chão. (ajoelha-se e começa a deitar o produto no chão, de seguida esfrega com a mão) Está a ver, tudo preto! Este produto tira tudo! (passa um pano no chão e mostra-me a diferença do antes e do depois, confesso que gosto mais daquelas fotos de produtos para emagrecer, aí o antes e o depois sempre me fascinou.)
Eu - Pois, mas qualquer outro produto pode fazer o mesmo.
Jovem - Nem pensar! Repare nisto (e começa a borrifar as calças com aquilo o_O) Não M-A-N-C-H-A! 
(de seguida deita na mão) Está a ver não faz mal à pele! (agarra na minha mão e borrifa-me com aquilo) Não tenha medo menina, não faz mal! Posso limpar até os seu livros com isto!
Eu - Não me parece! É melhor nem sequer tentar.
Jovem - Duvida de mim? Tem medo que lhe estrague alguma coisa? Pode ficar com o nº do meu BI! (estende-me o BI)
Eu - Não é necessário. Agradeço a sua demonstração. Mas de facto não preci... (começa a deitar aquele liquido no meu balcão que quando o comprei foi-me dito mais de mil vezes para o limpar só com um pano seco, quando muito um pano húmido) Mas o que está a fazer? Esse balcão não pode ser limpo com produtos.
Jovem - Não tem mal nenhum! Não estraga nada! É um produto maravilhoso! (neste momento tira a tampa do produto e começa a BEBER!!!??? entrei em pânico, literalmente em pânico)
Eu - Por favor não faça uma coisa dessas, mas o que é que me quer demonstrar afinal, isso não se bebe (e estava ligeiramente alterada quando disse isto)
Jovem - Mas não faz mal nenhum beber, não entende que o produto é biodegradável!  

A Livreira (3)

A livreira quando era pequena lembra-se que lhe perguntavam o que gostava de ser quando fosse grande.
- Quero ter um sítio para guardar muitos livros.
Aqueles que esperavam ouvir médica, advogada ou astronauta, ficaram escandalizados (coitada da criancinha!).
A livreira estudava de dia com afinco, mas passava a noite acordada a ler livros. Quantas vezes foi para a escola sem dormir!
Quando entrou na universidade, a livreira arrastava-se com o sentimento de que algo estava mal. Longe de casa, refugiava-se na leitura, por vezes não trazia roupa suficiente para a semana toda, mas os livros não podiam faltar e a mala era pequena.
Mudou de universidade para perto de casa e para novo curso em que sentia que algo poderia nascer. Mas enquanto se debatia para ser uma grande Socióloga o bichinho de criança, de ter um sítio para guardar livros, começou a ser tão grande que era impossível de conter.
Quis o destino que a livreira fosse trabalhar para um sítio enorme, um que guardava muitos livros, mas ainda não era seu, faltava essa parte.
Um dia, depois de oito horas de trabalho, passeia com quem partilha o seu mundo de papel; de repente:
- Pára o carro! Pára agora!
Sai e fica extasiada a olhar para a loja vazia. Olha para o lado e a sorrir diz:
- É esta. É agora. Vamos montar a livraria.
E nesse dia o seu coração de papel, quase se sentiu com vida.

sábado, 21 de maio de 2011

Quando uma só vida não chega para filmes assim (3)

560 (6)

Carlos Alberto Machado


"Um milagre qualquer põe sombras nos teus olhos
um rimel especial para tornar castanho o olhar
sob a pressão das pálpebras indecisas
vieste assim triste é essa a sabedoria de prender
os corpos uma laranja que se solta
ao ritmo do coração desarranjado
as pessoas tristes não sabem soluçar
o pensamento está preso fundo muito fundo
e é por isso que apenas se deixam adivinhar
vieste assim triste como eu não sabia
foi ontem há muito tempo esquecemos
ficámos esquecidos a olhar o tempo
trocámos longas cartas com ausência de luz
queimadas desfeitas nas nossas mãos
vieste assim triste e fiquei a olhar-te a pensar
na escuridão a soletrar palavras desconhecidas
vieste assim triste e virás repetidamente virás
até o meu olhar aprender a olhar o teu
vejo ao  longe o mar que ainda brilha
penso em ti assim triste que não virás
as sobras frias do peixe frito sobre a mesa."

Lydia Davis



A Empregada Doméstica


"Eu sei que não sou bonita. O meu cabelo é escuro, muito curto e tão fino que mal cobre o crânio. Caminho de forma desengonçada, como se tivesse uma deficiência numa das pernas. Quando comprei os meu óculos, pensei que eram elegantes - a armação é negra e em forma de asas de borboleta - mas agora sei que não me ficam bem e estou presa a eles, uma vez que não tenho dinheiro para comprar uns novos. A minha pele tem a cor da barriga dos sapos e os meu lábios são estreitos. Ainda assim, sou bastante menos feia do que a minha mãe, que é muito mais velha. A cara dela é pequena, enrugada e preta como uma ameixa, e os dentes balançam-lhe na boca. Mal aguento sentar-me em frente dela ao jantar e posso dizer, pelo modo como me olha, que o sentimento é recíproco. 
Há muitos anos que vivemos juntas na cave. Ela é a cozinheira; eu sou a empregada doméstica. Não somos boas serviçais, mas ninguém nos despede porque ainda somos melhores do que a maioria. O sonho da minha mãe é juntar dinheiro suficiente para me deixar e ir viver no campo. O meu sonho é quase igual, excepto num detalhe: quando me sinto furiosa e infeliz, olho para as suas mãos que mais parecem garras, do outro lado da mesa, e desejo que morra engasgada com a comida. Então ninguém me impediria de ir ao seu armário e abrir a sua caixa do dinheiro. Vestiria os seus vestidos e os seus chapéus, e abriria as janelas do seu quarto, para deixar sair o cheiro."

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Quando uma só vida não chega para filmes assim (2)

A loaded gun won't set you free

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (10)

(Contado por um livreiro que trabalhou na Feira do Livro do Porto e teve o prazer de presenciar este delicioso momento de humor)


Cliente - Boa tarde! Pedro Almeida Vieira... 
Livreiro - Boa tarde! João Lopes, muito prazer! (culminado com um aperto de mão)
Cliente - (atarantado) José Carvalho.


(Salvou o momento o livreiro que presenciou a cena e que com sangue frio foi procurar A Mão Esquerda de Deus)

Sebastião Alba

NINGUÉM MEU AMOR


Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.



* A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (9)

Cliente - Bom Dia!
Eu - Bom dia! Precisa de ajuda?
Cliente - Sim, ando à procura de um livro mas não me lembro do nome. Sei que fala de um homem que come outros homens, come-lhes o fígado e o coração. E depois um policia mulher apaixona-se por ele, e depois existe um homem mau que o vai dar de comer aos porcos... Está a ver qual é o livro? 
Eu - Certamente será o Hannibal.
Cliente -  Mas não leia isso menina, não leia, o livro é muito violento
Eu - Mas já me contou a história quase toda. E se é assim tão violento porque o vai ler?
Cliente - Porque eu sou macho! 

Quando uma só vida não chega para filmes assim

quinta-feira, 19 de maio de 2011

560 (5)

Álvaro de Campos



TABACARIA

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu."

                           Álvaro de Campos

Muriel Spark


"Mary Macgregor, embora tenha vivido até ao seu vigésimo quarto aniversário, nunca chegou a compreender que as confidências de Jean Brodie não eram partilhadas com o resto do corpo docente e que a sua história de amor só foi divulgada às alunas. Não pensara muito em Jean Brodie, mas é claro que nunca lhe tivera aversão, quando, um ano depois do início da Segunda Guerra mundial. ingressou na Wrens, onde era desastrada e incompetente e muito censurada. Numa ocasião de verdadeiro infortúnio - quando o seu primeiro e último namorado, um cabo que ela conhecia havia duas semanas, a abandonou, não comparecendo a um encontro e nunca mais a tendo procurado - ela passou em revista o passado para ver se alguma vez na vida tinha sido realmente feliz; ocorreu-lhe  então que os primeiros anos com Miss Brodie, sentada a ouvir todas aquelas histórias e opiniões que nada tinham que ver com o mundo normal, haviam sido o tempo mais feliz da sua vida. Pensou isto de fugida e nunca mais Miss Brodie lhe veio à ideia, mas já tinha ultrapassado o seu infortúnio e recaído na habitual pasmaceira, antes de morrer num incêndio no hotel, quando estava de licença em Cumberland. Mary Macgregor correu para trás e para a frente ao longo dos corredores, por entre o fumo cada vez mais espesso. Correu para um doa lados; depois voltou correu para o outro lado; e em cada uma das extremidades a fornalha do incêndio saiu-lhe ao caminho. Não ouvia gritos, porque o rugido do fogo abafava os gritos; não deu nenhum grito, porque o fumo estava a sufocá-la. Na terceira volta chocou contra alguém, desequilibrou-se e morreu. Mas no início dos anos 30, quando tinha dez anos, lá estava ela apaticamente sentada entre as alunas de Miss Brodie. "Quem espirrou tinta para o chão - foste tu Mary?"
- Não sei Miss Brodie."

quarta-feira, 18 de maio de 2011

José Francisco Azevedo



"Através de qualquer coisa que a marca, a foto deixa de ser uma qualquer." 


Roland Barthes



PHILIPPE HERREWEGHE, 2010


"Chovia muito, mas não serei eu a afirmar
que as últimas notas (Lux aeterna)
faziam da própria morte uma certeza branda.


Até porque a dor impediu um amigo meu
de sair esta noite, até porque sabemos todos que
o amor não é, infelizmente, a única doença incurável.


Nisso, pelo menos, concordamos os três com Mozart
(e com Leonard Cohen). Quase nem parecemos tristes,
saltando de poça em poça, esperando como única estrela


a luz verde de um táxi qualquer em que possamos,
de mãos dadas, esquecer os pecados deste mundo."


Manuel de Freitas




*Emanuel Cameira . Manuel de Freitas . Paulo da Costa Domingos / Edição dos autores

It's not the red of which we bleed

terça-feira, 17 de maio de 2011

A livreira (2)

A livreira aprendeu cedo a ler certas palavras que considerava misteriosas: morte, sofrimento, alegria, prazer, felicidade, dor...
Tentava em vão que os livros lhe explicassem tais mistérios, percebeu depois que, só "na pele" os poderia entender.  No meio dos seus livros, meditava sobre um mundo que de vez em quando lhe atirava pedras à cabeça. 
E foi entre os livros que acabou por ouvir novamente todas as palavras misteriosas, desta vez não procurou entender, desta vez sentiu. Passou a sentir também que as palavras tem duplos significados, e que por vezes uma só palavra pode trazer atrás uma torrente de tantas outras. 
Sem utilizar dicionários sentiu que amar é igual a: felicidade, alegria, prazer.
Recentemente apercebeu-se de uma palavra terrível, uma que se recusava usar por ser feia(e qualquer um pode dizer que não há palavras feias), desta vez a livreira, tão segura no seu mundo de palavras, tão comodamente rodeada pelos seus livros, entendeu e sentiu que cancro é igual: sofrimento, dor, agonia e morte. 
A livreira preferia ficar ignorante de certas palavras. Preferia viver somente nos livros e apenas através deles desvendar os mistérios da vida, pois o seu coração de papel acabará um dia desfeito.

Iris Murdoch (2)


"Na manhã seguinte, como é óbvio, acordei num tormento. Talvez o leitor pense que foi uma estupidez da minha parte não prever que a minha felicidade, neste contexto, não poderia durar indefinidamente. Mas é provável que o leitor, se não estiver neste momento loucamente apaixonado, se tenha misericordiosamente esquecido do que tal estado de espírito significa (e isto, claro, partindo do principio de que alguma vez o conheceu). Como eu próprio disse atrás, trata-se de uma espécie de insanidade. Não será uma insanidade concentrar toda a nossa atenção exclusivamente numa pessoa, esvaziando de sentido tudo o resto à nossa volta, não ter um pensamento, um sentimento, uma existência que não seja em relação com o ser amado? O que esse ser amado «é» ou «representa» não tem aqui a menor importância. Claro que há quem enlouqueça de amor por alguém que, aos olhos de outras pessoas, não vale nada. Vermos pessoas que estimamos escravizadas por gente frívola, vulgar ou desprezível é algo que nos deixa perplexos. Mas mesmo que um homem ou uma mulher fossem tão excelentes e tão sensatos que ninguém pudesse negar-lhes tais atributos, mesmo assim seria uma forma de insanidade dedicar-lhes aquela forma de atenção veneradora a que chamamos amor."

560 (4)

Telhados de Vidro (2)


Se Pudesses Guardar Um Pouco 
Do Sol Para As Noites De Frio


I


"Um movimento mal calculado, um atrito ou um deslize inesperados, a faca desviou-se do seu curso, nada a fará voltar atrás agora. O gume encontrou o dedo, atravessou a pele, rasgou vasos sanguíneos, camadas sucessivas de tecido celular, imobilizou-se junto à trama fibrosa dos tendões e recuou, afastado num gesto reflexo a que, um instante depois, se juntou em clarão a dor. Só então o sangue em lençol fino, progressivamente mais grosso e escuro, cobriu o dedo e começou a gotejar, formando pequenas poças nos lugares de sobreposição, alternadas com pingos em distribuição aleatória. O desalento, a revolta, a raiva de não controlar o tempo, a realidade, a vida. Inúteis, bem sabes. Venha pois o raciocínio, a acção consequente: avaliar o golpe, lavar, desinfectar, fazer um penso em compressão para estancar a hemorragia. Iniciar o lento trabalho de aceitação. Delimitar, conformar, deslocar para outro ângulo de onde descobrir novo olhar. O poema, por exemplo.


II



Da paixão cansei-me (pode acolher tanta morte um corpo, esse mesmo que brilha à luz do desejo, esse mesmo que guarda a promessa da alegria). A verdade gastou-se (isto é o mais fácil de compreender: a verdade gasta-se, quando chegarmos ao lugar de a encontrar, sabemos por fim que não existe). Sobrou o que sou e o que não sou também, pelo meio a linha de uma estreita solidão, e é isto que te dou (isto o que te posso dar). Só aqui, só agora, este sorriso de estar vivo, e por vezes o cansaço, tantas vezes o cansaço (que embora não pareça, faz parte do sorriso). E agora já me entendes?
E agora ainda me queres?"


Jorge Roque


* Telhados de Vidro Nº13, da (fabulosa) Averno

segunda-feira, 16 de maio de 2011

560 (3)

Rui Manuel Amaral


História do homem que não tinha coração


"João Alberto era uma pessoa sem coração. Terá sido alguma vez uma pessoa com coração? Há quem julgue que sim; outros afirmam sem pestanejar que ele nunca teve coração. A verdade é que em seu lugar, João Alberto tinha outra coisa. Teodora, a sua mulher, dizia que era uma pedra: "Tu não tens coração, tens uma pedra". E, no entanto, nessas alturas sentia que se lhe apertava o coração, mesmo sabendo que isso era impossível, porque não tinha coração. Oh! Como amava a sua mulher! A querida da sua alma! A menina dos seus olhos! Teodora! Teodorinha!
Um dia, cansada de se deitar com um homem sem coração e também por outras razões - não esperem que eu conte tudo tintim por tintim -, a mulher partiu. Aproveitando a ocasião, Cupido também se foi embora sob o pretexto de que João Alberto não lhe pagava o salário há mais de três meses.
João Alberto ficou só. Tão só que uma noite se deixou morrer. Antes, porém, bebeu mais uma cerveja.
Na manhã seguinte, e contra todas as evidências, os médicos juravam a pés juntos que João Alberto morrera de paragem cardíaca."

Livros Infanto-Adultos (3)


"Ele diz que o verde cheira a relva acabada de cortar e sabe a gelado de limão.
Para o Tomás, o preto é o rei das cores. É suave como a seda quando a mãe o abraça e o cobre com o seu cabelo.
O Tomás gosta de todas as cores porque as ouve, cheira e saboreia"


*Livro em Braille. Para tocar quem não vê e mais ainda quem vê. 

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (8)

Eu - Boa tarde. Precisa de Ajuda?
Cliente - cpmnbhfryjkmbf
Eu - (oh não, não percebi nada e agora?) Peço desculpa, não se importa de voltar a repetir?
Cliente - cpmnbhfryjkmbf
Eu - ( não pode ser, o que é que se passa, será que me está a pedir um livro em alemão e eu não entendo?) Pode dizer o nome do autor? (enquanto faço de conta que estou a fazer uma grande pesquisa na net)
Cliente - shikjfgryiklpplçj
Eu -(porra, porra, e agora? já sei faço de conta que sou meio louca e deixo-a a falar sozinha! Tenho vergonha de perguntar outra vez. E se é deficiente, e se tem algum problema na fala? Vou-me sentir mal para o resto da vida... Pego num papel e numa caneta com grande resolução.) Peço desculpa, mas eu hoje estou com problemas de audição, deve ser por estar cansada, o problema não é seu. Mas seria muito incómodo escrever o nome do livro?
Cliente - (Pega no papel e escreve o nome do livro)
 Eu - (pego no papel e leio O Crepúsculo. Em baixo numa letra mais pequena diz assim:"Acabei de meter um aparelho nos dentes")

That the Spiderman is having me for dinner tonight

Nuno Júdice


A Voz que Nos Rasgou por Dentro"De onde vem - a voz que 
nos rasgou por dentro, que 
trouxe consigo a chuva negra 
do outono, que fugiu por 
entre névoas e campos 
devorados pela erva? 

Esteve aqui — aqui dentro 
de nós, como se sempre aqui 
tivesse estado; e não a 
ouvimos, como se não nos 
falasse desde sempre, 
aqui, dentro de nós. 

E agora que a queremos ouvir, 
como se a tivéssemos re- 
conhecido outrora, onde está? A voz 
que dança de noite, no inverno, 
sem luz nem eco, enquanto 
segura pela mão o fio 
obscuro do horizonte. 

Diz: "Não chores o que te espera, 
nem desças já pela margem 
do rio derradeiro. Respira, 
numa breve inspiração, o cheiro 
da resina, nos bosques, e 
o sopro húmido dos versos." 

Como se a ouvíssemos." 

domingo, 15 de maio de 2011

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (7)

Cliente - Procurava um daqueles livros, sabe, daqueles que falam da intimidade entre um homem e uma mulher, daquela intimidade de amor.
Eu - Procura literatura erótica?
Cliente- Acho que deve ser isso... tem imagens?
Eu - Certamente está à procura de outra coisa. Será o Kamasutra?
Cliente - Tem imagens esse?
Eu - Sim, tenho Kamasutras ilustrados.
Cliente - Então pode ser mesmo esse (e faz um ar satisfeito). Mas é melhor embru...
Eu - Sim já sei é para oferecer... (a si mesmo)

sábado, 14 de maio de 2011

And if you can't laugh, then smile.

Herberto Helder




"Eu sou o vento que sopra à flor do mar,
sou a vaga do mar,
o bramido do mar.
Sou o boi das sete lutas,
ave de rapina sobrevoando as falésias,
e dardo solar.
Eu sou o que navega, o inteligente.
Javali sangrento.
Lago na planície violenta.
Sou palavras de ciência.
Espada viva abrindo a noz das armaduras.
Eu sou o deus que implanta o fogo na cabeça,
e espalha a luz pelas montanhas,
e anuncia as idades lunares,
e ensina ao sol onde morrer."

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (6)

Cliente - Boa tarde! Andava à procura de um livro. Só sei que a capa é azul... e tem formato, assim, formato de livro.
Eu - Entendo 0_o mas com tão pouca informação é difícil descobrir qual é o livro. Não se lembra do autor, da editora, qualquer coisa mais certamente ajudaria.
Cliente - Não, não me consigo lembrar de mais nada. Espere, lembro que a capa tinha letras! (e diz isto com uma enorme satisfação)

Tom Baker



"Os gritos da mulher aterrorizada fizeram com que Robert soltasse uma gargalhada escarninha. Observou com um absoluto deleite o pobre cavalo e a aterrorizada cavaleira caindo em cima de um autocarro que transportava cerca de sessenta cidadãos idosos. O cavalo estatelou-se no tejadilho em cima do condutor, matando-o instantaneamente. A pobre amazona ainda estava viva quando aterrou na cabina do autocarro, ainda presa ao cavalo, mas escapou por muito pouco. O autocarro saiu da via lenta e atravessou as outras duas vias, galgando a barreira de separação. Um camião de transporte de combustível que vinha em sentido contrário embateu de frente no autocarro e a explosão que se seguiu proporcionaria a Robert mais dois minutos de prazer." 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Telhados de Vidro



Homenagem a 4 Poetas e 1 Cineasta


"Livra-me das tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E por último , faz com que,
todo o iogurte que coma seja
- foda-se! -
de morango."
Ana Paula Inácio


*Telhados de vidro Nº 11 - (fabulosa) Averno

Ana Teresa Pereira


"Talvez seja possível amar uma mulher por causa de um livro, de um poema sublinhado, de um filme a preto e branco, de uma casa, do olhar de um homem quando fala com ela, da forma como o seu cão a espera. Da reprodução de um Mondrian na parede da sala."

Knut Hamsun


"E à medida que o tempo passava, ia ficando cada vez mais oco, tanto espiritualmente como fisicamente, de dia para dia, ia condescendendo com acções cada vez menos honestas. Avançava com mentiras sem me embaraçar, enganava gente pobre com om pagamento da renda, tinha até de lutar contra os pensamentos mais vis, de apoderar-me de edredões das outras pessoas, tudo isso sem qualquer arrependimento, sem má consciência. No meu íntimo, tinham começado a aparecer manchas de putrefacção, negros fungos que iam alastrando  mais e mais. E Deus, sentado lá no céu, mantinha os olhos postos em mim e fazia com que a minha perdição avançasse mais e mais, de acordo com as regras do jogo, lenta mas irreversivelmente, sem interrupções. Entretanto, nos abismos do Inferno, os diabos andavam furiosos e impacientavam-se que eu demorasse tanto tempo a cometer um pecado imperdoável, pelo qual Deus, na sua infinita justiça, teria de fazer-me cair lá..."

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (5)

Aproxima-se um cliente com um livro da editora Casa das Letras, na lombada o logótipo da editora tem mais ou menos este aspecto: III
Cliente - Oh menina, precisava de uma ajuda!
Eu - Sim, em que posso ajudar?
Cliente - Eu gostei deste livro... até gostei muito, mas o problema é que aqui (e aponta para a lombada), diz que já vai no terceiro. Não tem o primeiro e o segundo?

Wait(s)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Peanuts

Shirley Jackson



"A influência maligna sobre a aldeia nunca foi causada pelos Blackwood; os aldeões pertenciam ali e a aldeia era o único lugar adequado para eles.
Eu pensava sempre em podridão quando me aproximava da fila de lojas; pensava numa podridão negra dolorosamente ardente que comia as coisas a partir do seu interior, magoando-as terrivelmente. Desejei aquilo para a aldeia.
Tinha uma lista de artigos a comprar na mercearia; Constance fazia-ma todas as terças e sextas-feiras, antes de eu sair de casa. As pessoas da aldeia não gostavam do facto de termos sempre muito dinheiro para pagarmos tudo aquilo que quiséssemos; claro que tínhamos tirado o nosso dinheiro do banco, e eu sabia que falavam do dinheiro escondido em nossa casa, como se fossem grandes pilas de moedas de ouro(...) Quando eu tirava a minha lista de compras do saco também tirava a carteira, de modo que o Elbert da mercearia soubesse que eu trouxera dinheiro e não pudesse recusar-se a vender-me nada."

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (4)

Cliente - Procuro um livro em que a capa têm de ter tons vermelhos.
Eu - Peço desculpa mas não estou a entender.
Cliente - Um livro em tons vermelhos! E tem de ser grande, vistoso... assim com aspecto de caro, entende?
Eu - Bem... Mas... Pois...
Cliente - É só para enfeitar a minha sala nova!

Iris Murdoch

"Acendi a lareira no quartinho vermelho e deixei abertas as portas do andar de baixo. Transferi um monte de lenha para o quarto interior, onde espero que venha a secar. Começo a habituar-me ao cheiro a fumo que invade agora toda a casa.
Parou de chover e o sol brilha, mas sobre a maior parte do mar o céu mostra uma densa cor de chumbo. As rochas douradas, batidas pelo sol, destacam-se contra esse fundo negro. Que paraíso  nunca me cansarei deste céu nem deste mar. Se conseguisse transportar uma mesa e uma cadeira pelas pedras até à torre, poderia escrever lá, com vista para a baía do Corvo. Tenho de ir agora examinar as minhas poças de água nos rochedos, enquanto dura esta luz intensa."