segunda-feira, 16 de maio de 2011

That the Spiderman is having me for dinner tonight

Nuno Júdice


A Voz que Nos Rasgou por Dentro"De onde vem - a voz que 
nos rasgou por dentro, que 
trouxe consigo a chuva negra 
do outono, que fugiu por 
entre névoas e campos 
devorados pela erva? 

Esteve aqui — aqui dentro 
de nós, como se sempre aqui 
tivesse estado; e não a 
ouvimos, como se não nos 
falasse desde sempre, 
aqui, dentro de nós. 

E agora que a queremos ouvir, 
como se a tivéssemos re- 
conhecido outrora, onde está? A voz 
que dança de noite, no inverno, 
sem luz nem eco, enquanto 
segura pela mão o fio 
obscuro do horizonte. 

Diz: "Não chores o que te espera, 
nem desças já pela margem 
do rio derradeiro. Respira, 
numa breve inspiração, o cheiro 
da resina, nos bosques, e 
o sopro húmido dos versos." 

Como se a ouvíssemos." 

domingo, 15 de maio de 2011

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (7)

Cliente - Procurava um daqueles livros, sabe, daqueles que falam da intimidade entre um homem e uma mulher, daquela intimidade de amor.
Eu - Procura literatura erótica?
Cliente- Acho que deve ser isso... tem imagens?
Eu - Certamente está à procura de outra coisa. Será o Kamasutra?
Cliente - Tem imagens esse?
Eu - Sim, tenho Kamasutras ilustrados.
Cliente - Então pode ser mesmo esse (e faz um ar satisfeito). Mas é melhor embru...
Eu - Sim já sei é para oferecer... (a si mesmo)

sábado, 14 de maio de 2011

And if you can't laugh, then smile.

Herberto Helder




"Eu sou o vento que sopra à flor do mar,
sou a vaga do mar,
o bramido do mar.
Sou o boi das sete lutas,
ave de rapina sobrevoando as falésias,
e dardo solar.
Eu sou o que navega, o inteligente.
Javali sangrento.
Lago na planície violenta.
Sou palavras de ciência.
Espada viva abrindo a noz das armaduras.
Eu sou o deus que implanta o fogo na cabeça,
e espalha a luz pelas montanhas,
e anuncia as idades lunares,
e ensina ao sol onde morrer."

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (6)

Cliente - Boa tarde! Andava à procura de um livro. Só sei que a capa é azul... e tem formato, assim, formato de livro.
Eu - Entendo 0_o mas com tão pouca informação é difícil descobrir qual é o livro. Não se lembra do autor, da editora, qualquer coisa mais certamente ajudaria.
Cliente - Não, não me consigo lembrar de mais nada. Espere, lembro que a capa tinha letras! (e diz isto com uma enorme satisfação)

Tom Baker



"Os gritos da mulher aterrorizada fizeram com que Robert soltasse uma gargalhada escarninha. Observou com um absoluto deleite o pobre cavalo e a aterrorizada cavaleira caindo em cima de um autocarro que transportava cerca de sessenta cidadãos idosos. O cavalo estatelou-se no tejadilho em cima do condutor, matando-o instantaneamente. A pobre amazona ainda estava viva quando aterrou na cabina do autocarro, ainda presa ao cavalo, mas escapou por muito pouco. O autocarro saiu da via lenta e atravessou as outras duas vias, galgando a barreira de separação. Um camião de transporte de combustível que vinha em sentido contrário embateu de frente no autocarro e a explosão que se seguiu proporcionaria a Robert mais dois minutos de prazer." 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Telhados de Vidro



Homenagem a 4 Poetas e 1 Cineasta


"Livra-me das tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E por último , faz com que,
todo o iogurte que coma seja
- foda-se! -
de morango."
Ana Paula Inácio


*Telhados de vidro Nº 11 - (fabulosa) Averno

Ana Teresa Pereira


"Talvez seja possível amar uma mulher por causa de um livro, de um poema sublinhado, de um filme a preto e branco, de uma casa, do olhar de um homem quando fala com ela, da forma como o seu cão a espera. Da reprodução de um Mondrian na parede da sala."

Knut Hamsun


"E à medida que o tempo passava, ia ficando cada vez mais oco, tanto espiritualmente como fisicamente, de dia para dia, ia condescendendo com acções cada vez menos honestas. Avançava com mentiras sem me embaraçar, enganava gente pobre com om pagamento da renda, tinha até de lutar contra os pensamentos mais vis, de apoderar-me de edredões das outras pessoas, tudo isso sem qualquer arrependimento, sem má consciência. No meu íntimo, tinham começado a aparecer manchas de putrefacção, negros fungos que iam alastrando  mais e mais. E Deus, sentado lá no céu, mantinha os olhos postos em mim e fazia com que a minha perdição avançasse mais e mais, de acordo com as regras do jogo, lenta mas irreversivelmente, sem interrupções. Entretanto, nos abismos do Inferno, os diabos andavam furiosos e impacientavam-se que eu demorasse tanto tempo a cometer um pecado imperdoável, pelo qual Deus, na sua infinita justiça, teria de fazer-me cair lá..."

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (5)

Aproxima-se um cliente com um livro da editora Casa das Letras, na lombada o logótipo da editora tem mais ou menos este aspecto: III
Cliente - Oh menina, precisava de uma ajuda!
Eu - Sim, em que posso ajudar?
Cliente - Eu gostei deste livro... até gostei muito, mas o problema é que aqui (e aponta para a lombada), diz que já vai no terceiro. Não tem o primeiro e o segundo?

Wait(s)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Peanuts

Shirley Jackson



"A influência maligna sobre a aldeia nunca foi causada pelos Blackwood; os aldeões pertenciam ali e a aldeia era o único lugar adequado para eles.
Eu pensava sempre em podridão quando me aproximava da fila de lojas; pensava numa podridão negra dolorosamente ardente que comia as coisas a partir do seu interior, magoando-as terrivelmente. Desejei aquilo para a aldeia.
Tinha uma lista de artigos a comprar na mercearia; Constance fazia-ma todas as terças e sextas-feiras, antes de eu sair de casa. As pessoas da aldeia não gostavam do facto de termos sempre muito dinheiro para pagarmos tudo aquilo que quiséssemos; claro que tínhamos tirado o nosso dinheiro do banco, e eu sabia que falavam do dinheiro escondido em nossa casa, como se fossem grandes pilas de moedas de ouro(...) Quando eu tirava a minha lista de compras do saco também tirava a carteira, de modo que o Elbert da mercearia soubesse que eu trouxera dinheiro e não pudesse recusar-se a vender-me nada."

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (4)

Cliente - Procuro um livro em que a capa têm de ter tons vermelhos.
Eu - Peço desculpa mas não estou a entender.
Cliente - Um livro em tons vermelhos! E tem de ser grande, vistoso... assim com aspecto de caro, entende?
Eu - Bem... Mas... Pois...
Cliente - É só para enfeitar a minha sala nova!

Iris Murdoch

"Acendi a lareira no quartinho vermelho e deixei abertas as portas do andar de baixo. Transferi um monte de lenha para o quarto interior, onde espero que venha a secar. Começo a habituar-me ao cheiro a fumo que invade agora toda a casa.
Parou de chover e o sol brilha, mas sobre a maior parte do mar o céu mostra uma densa cor de chumbo. As rochas douradas, batidas pelo sol, destacam-se contra esse fundo negro. Que paraíso  nunca me cansarei deste céu nem deste mar. Se conseguisse transportar uma mesa e uma cadeira pelas pedras até à torre, poderia escrever lá, com vista para a baía do Corvo. Tenho de ir agora examinar as minhas poças de água nos rochedos, enquanto dura esta luz intensa."

Ute

Piolho(s)


BiXinho


Bicheiro, um dos apontamentos


"Tal como Holderlin
não tenho onde cair morto 
para poder descansar
absolutamente


o poeta tem duas faces
como a lua e o rosto humano
a lúcida
e a louca
e digo isto de ouvido
pois pessoas importantes
à mesa do café
o disseram


tomei nota
neste livro de apontamentos
onde aponto tudo
o que o outro diz"

terça-feira, 10 de maio de 2011

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (3)

Cliente - Precisava de uma ajuda.
Eu - Claro que sim. Em que posso ajudar?
Cliente - Queria um dicionário de Brasileiro/Português.
Eu - 0_O

Livros Infanto-Adultos (2)



"A aula de desenho tinha terminado, mas a Vera continuava colada à cadeira.


A sua folha estava vazia.


A professora da Vera debruçou-se sobre a folha em branco e comentou:
- Já sei! Um urso polar no meio de uma tempestade de neve.
- Muito engraçado - disse a Vera. - Eu não sei desenhar!
A professora sorriu.
- Tenta fazer uma marca qualquer e vê onde ela te leva.
A Vera agarrou num marcador e, com toda a força, cravou-o em cheio na folha.
- Pronto! Aí tem!"

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (2)

Cliente - Olhe ando à procura de um livro que se chama O Julgamento, o autor é o Fernando Capa.
Eu - (por momentos o meu cérebro quase estala, mas recupero a força e digo com um sorriso)
 - Bem, esse não tenho. Mas posso sempre mostrar-lhe O Processo de Franz Kafka.
Cliente - (com um sorriso amarelo) - Pois, acho que é esse mesmo!

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro

Cliente - Boa tarde. Queria aquele livro que eu não sei qual é. Só me lembro que tem um nome que faz chorar os olhos.
Eu - (Depois de pensar uns segundos digo sem grande convicção e até a medo) - Descascando a Cebola, Gunter Grass?
Cliente - Exacto. É esse mesmo.  

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Helder Moura Pereira (2)




"Sinceramente julgava já ter o luto
feito, mas não tinha o luto feito
coisíssima nenhuma, tal como
Cesariny diz que Álvaro de Campos
fazia, emociono-me - e não consigo
acabar. Bom, isto não é para levar a sério,
às vezes consigo, mas é preciso
não ter nada que me distraia.


Chamar luto a isto é bem visto,
morre o amor como morre uma pessoa.
Mas depois a vida continua, pois
não é verdade, cheia de gente adaptada
às grandes linhas de actuação dos governos.


A propósito de alguma coisa morrer,
hoje tive uma noticia terrível: dois
amigos vão deixar de viver
na mesma cama. Convergiam em tudo 
menos no essencial. No essencial
de agora, que não é o mesmo 
do essencial de outrora. Dizer
que vão deixar de viver 
na mesma cama não é inocente.
Não porque a cama apareça 
a fazer figura de lugar
de grandes actividades sexuais.
Deve ter havido algumas,
mas não é disso que se trata.


A cama era o essencial da união
possível. Ou sonhada. Estava
ali como se fosse um quadro
numa parede, e o amor
podia chegar com admiração
contente de ver o quadro
a mexer-se, a encher-se de pernas
e braços, músculos e abraços."

István Orkény


Balada Sobre o Poder da Poesia


"Na grande avenida havia uma cabine telefónica. A sua porta abria-se e fechava-se continuamente. As pessoas conversavam sobre os seu afazeres, ligavam para a agência de alojamentos, combinavam um encontro, pediam dinheiro emprestado aos seus amigos ou torturavam os namorados (ou as namoradas) com os seus ciúmes. Uma senhora idosa, depois de ter pousado o auscultador, encostou-se à cabine e chorou. Mas um caso como este raramente acontecia.
Numa radiosa tarde de Verão, o poeta entrou na cabina. Ligou para um redactor e disse-lhe assim:
- Já tenho as últimas quatro linhas!
E leu um pedaço de papel sujo com quatro linhas.
- Ai! São tão deprimentes! - disse o redactor. - Reescreve mais uma vez, mas muito mais alegres."

domingo, 8 de maio de 2011

Livros Infanto-Adultos


" Muito tempo depois o menino voltou novamente.
- Desculpa, menino - disse a árvore. Nada mais me resta para te dar. As maças já se foram.
- Os meus dentes são fracos demais para maças - explicou o menino.
- Já não tenho ramos - lamentou a árvore.
- Também já não tenho idade para me balançar em ramos - respondeu o menino.
- Não tenho tronco para tu subires - continuou a árvore.
- Estou muito cansado para isso - disse o menino.
- Desculpa - suspirou a árvore. Gostava de ter algo para te oferecer... mas nada me resta. Sou apenas um velho toco. Desculpa."

560 (2)

sábado, 7 de maio de 2011

Covadlo

"Não lhe custa nenhum esforço reviver o pesadelo, sobretudo porque recorda que, ao sair de Mundossonho, uma vez os olhos abertos, notou que o quarto estava, contra o costume, iluminado pela luz do sol. Deu-se conta de que nessa manhã não o tinham acordado para ir ao colégio. Tinha de ter sucedido alguma coisa grave, o choro da sua mãe e as lamentações do seu pai confirmavam-no. Depois foi a vez dele chorar, quando soube que a tia Elisa tinha morrido na noite anterior. (...) Agora, já não lhe é fácil chorar com lágrimas, apenas pode soltar soluços e beber goles de genebra. Naquele dia, umas horas mais tarde, viu a tia Elisa no seu caixão. Durante anos não soube que ela tinha deixado a vida por vontade própria. A noite tinha-a surpreendido num quarto de uma pensão barata, estava sozinha e decidiu tomar um tubo de pastilhas para dormir. Se ele, neste momento, quisesse fazer o mesmo não poderia: não lhe restava nenhum valium."




*Livros de Areia

The Nightmare Goes On

I cannot shake this notion
It haunts me through the streets
The height is that of giants
The depth is that of seas
The words refuse my tongue
They tear me from my sleep
You ask me why I cry
But i cannot bear to speak

The nightmare goes on
Won't somebody wake me

I cannot bear this notion
Its hand, an icy clasp
I bear its weight at all times
You need not even ask
This sadness in my eyes
The burden drags me down
It shames the storm outside
God knows I have tried and tried



Piano Magic

sexta-feira, 6 de maio de 2011

No words


Naked, my thoughts are creeping

Jorge Roque


Espectáculo 
"Dois ou três nomes para o silêncio. Disse: dois ou três nomes para o silêncio. Riem-se e continuam a conversa. Dor, dor, dor. Disse: dor, dor, dor. Riem-se de novo e continuam a conversa. Espeta uma faca no peito, abre-o de lado a lado e mostra a carne que sangra. Riem-se ainda (a cena do faquir, comentam, com autoridade de conhecedor). Arranca o coração do peito, estende-o nas mãos em sangue. Reclamam algo mais ousado (é muito fácil o sangue de ninguém). Dobra-se sobre si mesmo para morrer, nas mãos apertando o coração inútil (não havia espectáculo afinal). Voltam a rir, enquanto chamam o empregado para limpar o chão (desfecho tão vulgar para o que se anunciava, concluem). De seguida retomam a conversa."


*Da fabulosa Averno

A Livreira

A livreira ama os livros. Gosta do cheiro do papel, gosta de acariciar as capas, sentir as folhas a passar pelos dedos. Tem uma paixão doentia pela leitura, fica inclusive indignada quando alguém diz que nunca leu. 
A livreira vive num caos organizado de autores, tradutores, ilustradores, títulos, editoras, distribuidoras. 
A livreira leva sempre o trabalho para casa. Por vezes pensa que a sua casa é apenas uma extensão da livraria. 
A livreira deixou tudo para trás, (estudos, carreira, uma vida confortável), porque acredita que os livros alimentam a alma. 
A livreira ouve todos os dias a mesma história de uma família que acha que os livros não se comem. E que assim não se pode viver.
A livreira tem constantemente palavras, frases, páginas de livros dentro da cabeça, coisas que não consegue esquecer.
A livreira dentro da mala não consegue encontrar um comprimido para a dor de cabeça, uma caneta para tirar apontamentos, as chaves de casa... todo o espaço é ocupado por livros que a acompanham por todo o lado, que são para ela mais preciosos que qualquer outra coisa. 
A livreira emociona-se, chora e ri como qualquer humano, mas tem a certeza convicta que o seu coração é feito de papel. 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Gatos

Heinrich Vogeler, "Rapariga com gato", 1914


Gatos de Roma

Os gatos,

não vagabundos mas sem ter um dono,
ao sol adormecidos
em ruas sem passeios,
ou esperando uma mão generosa
talvez entre ruínas,
os gatos
imortais de um modo tão humilde,
desafiam o tempo, permanecem
suportando bons e maus momentos,
nada sabendo da História
que levanta edifícios
ou os deixa abismar-se entre pedaços
belos ainda, agora nobres pedestais
dessas figuras: livres.
Olhar fixo de uns olhos muito verdes,
em solidão, em ócio e luz distante.
Olhos semicerrados, olhos quase chineses,
loira a pele em calma iluminada.
Erguido junto a um mármore,
resto sobrevivente de coluna,
alguém feliz e pulcro
alia-se com a pata bem lambida.
gatos. Frente à História,
sensíveis, sérios, sozinhos, inocentes.
Jorge Guíllen 




A décroisser la lune


Josep M. Rodríguez


ASFALTO
Segunda versão


"Enquanto regresso a casa,
já a meio da noite,
o asfalto estende-se como uma ferida aberta.


Não cicatriza o tempo depois de nós.


(A memória é um poço sem fim,
por isso nunca alcança as origens.)


Bebo um pouco de água.
Não cicatriza o tempo diante de mim.


Enquanto regresso a casa,
o banco ao lado é apenas um vazio.


Os faróis de outros carros iluminam-no." 

Eudora Welty


"Então, a luz mudou a água, até que as árvores em redor pareceram ficar mais altas, no vento que se levantava, e soprar para dentro juntas, tornando-se de súbito negras. A chuva batia pesadamente. Uma cauda gigantesca pareceu fustigar os ares, e o rio quebrou-se numa ferida de prata. Em silêncio, o grupo agachou-se e curvou-se junto ao tronco de uma árvore enorme que, na investida da tempestade, se erguia cheia de uma fragrância e de um peso firmes. No sítio para onde todos olhavam, além daquela árvore, encontrava-se outra árvore, e, depois dessa, outra e outra, ao longo da margem do rio, todas sobranceiras e escurecidas pela tempestade." 

There are things that we will never know

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Flannery



"Era filho dela mas era feio e a mãe nunca lhe deu amor. Esse bebé trazia Jesus dentro(...)Mandou o filho embora e o bebé voltou e tornou a mandá-lo mas ele voltou outra vez e cada vez que o expulsava tornava a aparecer onde ela e o tal homem viviam em pecado. Estrangularam o filho com uma meia de seda e penduraram-no na chaminé."

Our aspirations are wrapped up in books

Helder Moura Pereira

Não sei se me faço entender
"Não sei se me faço entender mas o seu encanto, indiscutível, sereno,
luminoso, e mais não digo, era do género de nos pôr a pensar coisas
absurdas a partir de uma simples observação. Sentados, por exemplo,
a tomar cafés frente à arte popular, quando um ciclista de corrida
passava a treinar dizia que devia dizer-se biciclista ou, na pior
das hipóteses, cicleta. Parece humor mas era uma coisa muito séria.

E profunda. Horas e horas a dissecar, por entre muitos toques ao de leve
no corpo, horas sobre a fraude constante da linguagem, que nos afasta
quando queríamos dizer tanta coisa, ser capazes de dizer tanta coisa.
O melhor é não dizermos nada e sorrirmos de vez em quando como dois
idiotas, ou falar cada um a sua língua, ou brincarmos os dois aos surdos-mudos.

Que pobre a tua ambição de querer companhia à noite, alguém que te apague
a luz e te agarre os cabelos, alguém que se dispa e baixe, finja 
que foge e regresse, alguém que saiba estalar os ossos das tuas mãos.
Que bom aquecermos café, estarmos sempre aos abraços, que bom
já te ter calado com os meus beijos intensos. Passeando, equipados, junto ao tejo,
pedalando, pedalando até suar, a arder, vidrados na curva, duas rodas
que se metiam uma na outra, tu sim, bicicleta, se aparecesses nos boletins 
de voto valia a pena sair de casa para ir votar em ti, para te eleger governo."

LÁGRIMA
poesia inédita portuguesa

Manuel de Freitas (2)

"Sabes apenas que encontraste
as chaves e que não despiste 
a roupa onde volta a ser teu o corpo.
Mas é-te impossível recordar
os rostos, o que disseram ou calaram,
o preço pago por tanto esquecimento.

Foi uma noite banal, portanto,
Nem amor nem sexo - apenas
a perfídia de seres tu, o espanto
com que ao fim da tarde acordas
e percebes que o mundo
não teve o bom senso de acabar."



A Última Porta

terça-feira, 3 de maio de 2011

Said a prayer, pulled the trigger and cried

Géza Csáth


"O estrondo foi tão grande, tão forte como se alguém tivesse atirado uma caixa cheia de copos de vidro pela janela de um prédio alto. A senhora Witman mexeu-se, virou-se e, a seguir, abriu os olhos, levantou-se e apoio-se nos cotovelos. A sua cara reflectia raiva e uma fúria birrenta. Mas já não teve tempo para abrir a boca, porque o rapaz mais velho chegou num pulo à cama e afundou a faca no peito da mãe."

Melville



"Uma vez mais fiquei sentado a magicar no que deveria fazer. Mortificado como estava com o seu comportamento, e decidido a despedi-lo como vinha quando entrara no escritório, apesar disso senti estranhamente qualquer coisa de supersticioso a bater-me no coração, proibindo-me de levar avante o meu propósito, e acusando-me de ser um patife se me atrevesse a proferir uma só palavra dura contra este homem, o mais abandonado de todos. Por fim arrastando familiarmente a minha cadeira para o interior do biombo, sentei-me e disse-lhe: - Bartleby, deixe, não se preocupe em revelar-me a sua história; mas, como amigo, peço-lhe que obedeça até onde lhe for possível aos usos desta casa. Por exemplo, prometa-me que ajudará a conferir documentos, amanhã ou no dia seguinte; em resumo, garanta-me que dentro de um dia ou dois começará a ser um pouco razoável - diga Bartleby.
- De momento preferia não ser um pouco razoável - foi a sua calma e débil resposta."

Flaubert



"Tudo isso não tinha sido feito para mim. Não invejo os outros, pois todos se queixam de um fardo cuja fatalidade acabrunha; - uns alijam-no até ao fim. E eu, levá-lo-ei?
Mal conheci a vida, houve um nojo imenso na minha alma, levei à boca todos os frutos: pareceram-me amargos; repeli-os e eis que morro de fome. Morrer tão novo, sem esperança no túmulo, sem ter a certeza de dormir, sem saber se a paz é inviolável! Lançarmo-nos nos braços do nada e duvidar de ser recebido!
Sim, morro, pois será viver ver o passado como água escoada para o mar, o presente como uma gaiola, o futuro como uma mortalha?"