quarta-feira, 11 de maio de 2011

Ute

Piolho(s)


BiXinho


Bicheiro, um dos apontamentos


"Tal como Holderlin
não tenho onde cair morto 
para poder descansar
absolutamente


o poeta tem duas faces
como a lua e o rosto humano
a lúcida
e a louca
e digo isto de ouvido
pois pessoas importantes
à mesa do café
o disseram


tomei nota
neste livro de apontamentos
onde aponto tudo
o que o outro diz"

terça-feira, 10 de maio de 2011

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (3)

Cliente - Precisava de uma ajuda.
Eu - Claro que sim. Em que posso ajudar?
Cliente - Queria um dicionário de Brasileiro/Português.
Eu - 0_O

Livros Infanto-Adultos (2)



"A aula de desenho tinha terminado, mas a Vera continuava colada à cadeira.


A sua folha estava vazia.


A professora da Vera debruçou-se sobre a folha em branco e comentou:
- Já sei! Um urso polar no meio de uma tempestade de neve.
- Muito engraçado - disse a Vera. - Eu não sei desenhar!
A professora sorriu.
- Tenta fazer uma marca qualquer e vê onde ela te leva.
A Vera agarrou num marcador e, com toda a força, cravou-o em cheio na folha.
- Pronto! Aí tem!"

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro (2)

Cliente - Olhe ando à procura de um livro que se chama O Julgamento, o autor é o Fernando Capa.
Eu - (por momentos o meu cérebro quase estala, mas recupero a força e digo com um sorriso)
 - Bem, esse não tenho. Mas posso sempre mostrar-lhe O Processo de Franz Kafka.
Cliente - (com um sorriso amarelo) - Pois, acho que é esse mesmo!

Confusões, tropeções e demais situações na vida de livreiro

Cliente - Boa tarde. Queria aquele livro que eu não sei qual é. Só me lembro que tem um nome que faz chorar os olhos.
Eu - (Depois de pensar uns segundos digo sem grande convicção e até a medo) - Descascando a Cebola, Gunter Grass?
Cliente - Exacto. É esse mesmo.  

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Helder Moura Pereira (2)




"Sinceramente julgava já ter o luto
feito, mas não tinha o luto feito
coisíssima nenhuma, tal como
Cesariny diz que Álvaro de Campos
fazia, emociono-me - e não consigo
acabar. Bom, isto não é para levar a sério,
às vezes consigo, mas é preciso
não ter nada que me distraia.


Chamar luto a isto é bem visto,
morre o amor como morre uma pessoa.
Mas depois a vida continua, pois
não é verdade, cheia de gente adaptada
às grandes linhas de actuação dos governos.


A propósito de alguma coisa morrer,
hoje tive uma noticia terrível: dois
amigos vão deixar de viver
na mesma cama. Convergiam em tudo 
menos no essencial. No essencial
de agora, que não é o mesmo 
do essencial de outrora. Dizer
que vão deixar de viver 
na mesma cama não é inocente.
Não porque a cama apareça 
a fazer figura de lugar
de grandes actividades sexuais.
Deve ter havido algumas,
mas não é disso que se trata.


A cama era o essencial da união
possível. Ou sonhada. Estava
ali como se fosse um quadro
numa parede, e o amor
podia chegar com admiração
contente de ver o quadro
a mexer-se, a encher-se de pernas
e braços, músculos e abraços."

István Orkény


Balada Sobre o Poder da Poesia


"Na grande avenida havia uma cabine telefónica. A sua porta abria-se e fechava-se continuamente. As pessoas conversavam sobre os seu afazeres, ligavam para a agência de alojamentos, combinavam um encontro, pediam dinheiro emprestado aos seus amigos ou torturavam os namorados (ou as namoradas) com os seus ciúmes. Uma senhora idosa, depois de ter pousado o auscultador, encostou-se à cabine e chorou. Mas um caso como este raramente acontecia.
Numa radiosa tarde de Verão, o poeta entrou na cabina. Ligou para um redactor e disse-lhe assim:
- Já tenho as últimas quatro linhas!
E leu um pedaço de papel sujo com quatro linhas.
- Ai! São tão deprimentes! - disse o redactor. - Reescreve mais uma vez, mas muito mais alegres."

domingo, 8 de maio de 2011

Livros Infanto-Adultos


" Muito tempo depois o menino voltou novamente.
- Desculpa, menino - disse a árvore. Nada mais me resta para te dar. As maças já se foram.
- Os meus dentes são fracos demais para maças - explicou o menino.
- Já não tenho ramos - lamentou a árvore.
- Também já não tenho idade para me balançar em ramos - respondeu o menino.
- Não tenho tronco para tu subires - continuou a árvore.
- Estou muito cansado para isso - disse o menino.
- Desculpa - suspirou a árvore. Gostava de ter algo para te oferecer... mas nada me resta. Sou apenas um velho toco. Desculpa."

560 (2)

sábado, 7 de maio de 2011

Covadlo

"Não lhe custa nenhum esforço reviver o pesadelo, sobretudo porque recorda que, ao sair de Mundossonho, uma vez os olhos abertos, notou que o quarto estava, contra o costume, iluminado pela luz do sol. Deu-se conta de que nessa manhã não o tinham acordado para ir ao colégio. Tinha de ter sucedido alguma coisa grave, o choro da sua mãe e as lamentações do seu pai confirmavam-no. Depois foi a vez dele chorar, quando soube que a tia Elisa tinha morrido na noite anterior. (...) Agora, já não lhe é fácil chorar com lágrimas, apenas pode soltar soluços e beber goles de genebra. Naquele dia, umas horas mais tarde, viu a tia Elisa no seu caixão. Durante anos não soube que ela tinha deixado a vida por vontade própria. A noite tinha-a surpreendido num quarto de uma pensão barata, estava sozinha e decidiu tomar um tubo de pastilhas para dormir. Se ele, neste momento, quisesse fazer o mesmo não poderia: não lhe restava nenhum valium."




*Livros de Areia

The Nightmare Goes On

I cannot shake this notion
It haunts me through the streets
The height is that of giants
The depth is that of seas
The words refuse my tongue
They tear me from my sleep
You ask me why I cry
But i cannot bear to speak

The nightmare goes on
Won't somebody wake me

I cannot bear this notion
Its hand, an icy clasp
I bear its weight at all times
You need not even ask
This sadness in my eyes
The burden drags me down
It shames the storm outside
God knows I have tried and tried



Piano Magic

sexta-feira, 6 de maio de 2011

No words


Naked, my thoughts are creeping

Jorge Roque


Espectáculo 
"Dois ou três nomes para o silêncio. Disse: dois ou três nomes para o silêncio. Riem-se e continuam a conversa. Dor, dor, dor. Disse: dor, dor, dor. Riem-se de novo e continuam a conversa. Espeta uma faca no peito, abre-o de lado a lado e mostra a carne que sangra. Riem-se ainda (a cena do faquir, comentam, com autoridade de conhecedor). Arranca o coração do peito, estende-o nas mãos em sangue. Reclamam algo mais ousado (é muito fácil o sangue de ninguém). Dobra-se sobre si mesmo para morrer, nas mãos apertando o coração inútil (não havia espectáculo afinal). Voltam a rir, enquanto chamam o empregado para limpar o chão (desfecho tão vulgar para o que se anunciava, concluem). De seguida retomam a conversa."


*Da fabulosa Averno

A Livreira

A livreira ama os livros. Gosta do cheiro do papel, gosta de acariciar as capas, sentir as folhas a passar pelos dedos. Tem uma paixão doentia pela leitura, fica inclusive indignada quando alguém diz que nunca leu. 
A livreira vive num caos organizado de autores, tradutores, ilustradores, títulos, editoras, distribuidoras. 
A livreira leva sempre o trabalho para casa. Por vezes pensa que a sua casa é apenas uma extensão da livraria. 
A livreira deixou tudo para trás, (estudos, carreira, uma vida confortável), porque acredita que os livros alimentam a alma. 
A livreira ouve todos os dias a mesma história de uma família que acha que os livros não se comem. E que assim não se pode viver.
A livreira tem constantemente palavras, frases, páginas de livros dentro da cabeça, coisas que não consegue esquecer.
A livreira dentro da mala não consegue encontrar um comprimido para a dor de cabeça, uma caneta para tirar apontamentos, as chaves de casa... todo o espaço é ocupado por livros que a acompanham por todo o lado, que são para ela mais preciosos que qualquer outra coisa. 
A livreira emociona-se, chora e ri como qualquer humano, mas tem a certeza convicta que o seu coração é feito de papel. 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Gatos

Heinrich Vogeler, "Rapariga com gato", 1914


Gatos de Roma

Os gatos,

não vagabundos mas sem ter um dono,
ao sol adormecidos
em ruas sem passeios,
ou esperando uma mão generosa
talvez entre ruínas,
os gatos
imortais de um modo tão humilde,
desafiam o tempo, permanecem
suportando bons e maus momentos,
nada sabendo da História
que levanta edifícios
ou os deixa abismar-se entre pedaços
belos ainda, agora nobres pedestais
dessas figuras: livres.
Olhar fixo de uns olhos muito verdes,
em solidão, em ócio e luz distante.
Olhos semicerrados, olhos quase chineses,
loira a pele em calma iluminada.
Erguido junto a um mármore,
resto sobrevivente de coluna,
alguém feliz e pulcro
alia-se com a pata bem lambida.
gatos. Frente à História,
sensíveis, sérios, sozinhos, inocentes.
Jorge Guíllen 




A décroisser la lune


Josep M. Rodríguez


ASFALTO
Segunda versão


"Enquanto regresso a casa,
já a meio da noite,
o asfalto estende-se como uma ferida aberta.


Não cicatriza o tempo depois de nós.


(A memória é um poço sem fim,
por isso nunca alcança as origens.)


Bebo um pouco de água.
Não cicatriza o tempo diante de mim.


Enquanto regresso a casa,
o banco ao lado é apenas um vazio.


Os faróis de outros carros iluminam-no." 

Eudora Welty


"Então, a luz mudou a água, até que as árvores em redor pareceram ficar mais altas, no vento que se levantava, e soprar para dentro juntas, tornando-se de súbito negras. A chuva batia pesadamente. Uma cauda gigantesca pareceu fustigar os ares, e o rio quebrou-se numa ferida de prata. Em silêncio, o grupo agachou-se e curvou-se junto ao tronco de uma árvore enorme que, na investida da tempestade, se erguia cheia de uma fragrância e de um peso firmes. No sítio para onde todos olhavam, além daquela árvore, encontrava-se outra árvore, e, depois dessa, outra e outra, ao longo da margem do rio, todas sobranceiras e escurecidas pela tempestade." 

There are things that we will never know

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Flannery



"Era filho dela mas era feio e a mãe nunca lhe deu amor. Esse bebé trazia Jesus dentro(...)Mandou o filho embora e o bebé voltou e tornou a mandá-lo mas ele voltou outra vez e cada vez que o expulsava tornava a aparecer onde ela e o tal homem viviam em pecado. Estrangularam o filho com uma meia de seda e penduraram-no na chaminé."

Our aspirations are wrapped up in books

Helder Moura Pereira

Não sei se me faço entender
"Não sei se me faço entender mas o seu encanto, indiscutível, sereno,
luminoso, e mais não digo, era do género de nos pôr a pensar coisas
absurdas a partir de uma simples observação. Sentados, por exemplo,
a tomar cafés frente à arte popular, quando um ciclista de corrida
passava a treinar dizia que devia dizer-se biciclista ou, na pior
das hipóteses, cicleta. Parece humor mas era uma coisa muito séria.

E profunda. Horas e horas a dissecar, por entre muitos toques ao de leve
no corpo, horas sobre a fraude constante da linguagem, que nos afasta
quando queríamos dizer tanta coisa, ser capazes de dizer tanta coisa.
O melhor é não dizermos nada e sorrirmos de vez em quando como dois
idiotas, ou falar cada um a sua língua, ou brincarmos os dois aos surdos-mudos.

Que pobre a tua ambição de querer companhia à noite, alguém que te apague
a luz e te agarre os cabelos, alguém que se dispa e baixe, finja 
que foge e regresse, alguém que saiba estalar os ossos das tuas mãos.
Que bom aquecermos café, estarmos sempre aos abraços, que bom
já te ter calado com os meus beijos intensos. Passeando, equipados, junto ao tejo,
pedalando, pedalando até suar, a arder, vidrados na curva, duas rodas
que se metiam uma na outra, tu sim, bicicleta, se aparecesses nos boletins 
de voto valia a pena sair de casa para ir votar em ti, para te eleger governo."

LÁGRIMA
poesia inédita portuguesa

Manuel de Freitas (2)

"Sabes apenas que encontraste
as chaves e que não despiste 
a roupa onde volta a ser teu o corpo.
Mas é-te impossível recordar
os rostos, o que disseram ou calaram,
o preço pago por tanto esquecimento.

Foi uma noite banal, portanto,
Nem amor nem sexo - apenas
a perfídia de seres tu, o espanto
com que ao fim da tarde acordas
e percebes que o mundo
não teve o bom senso de acabar."



A Última Porta

terça-feira, 3 de maio de 2011

Said a prayer, pulled the trigger and cried

Géza Csáth


"O estrondo foi tão grande, tão forte como se alguém tivesse atirado uma caixa cheia de copos de vidro pela janela de um prédio alto. A senhora Witman mexeu-se, virou-se e, a seguir, abriu os olhos, levantou-se e apoio-se nos cotovelos. A sua cara reflectia raiva e uma fúria birrenta. Mas já não teve tempo para abrir a boca, porque o rapaz mais velho chegou num pulo à cama e afundou a faca no peito da mãe."

Melville



"Uma vez mais fiquei sentado a magicar no que deveria fazer. Mortificado como estava com o seu comportamento, e decidido a despedi-lo como vinha quando entrara no escritório, apesar disso senti estranhamente qualquer coisa de supersticioso a bater-me no coração, proibindo-me de levar avante o meu propósito, e acusando-me de ser um patife se me atrevesse a proferir uma só palavra dura contra este homem, o mais abandonado de todos. Por fim arrastando familiarmente a minha cadeira para o interior do biombo, sentei-me e disse-lhe: - Bartleby, deixe, não se preocupe em revelar-me a sua história; mas, como amigo, peço-lhe que obedeça até onde lhe for possível aos usos desta casa. Por exemplo, prometa-me que ajudará a conferir documentos, amanhã ou no dia seguinte; em resumo, garanta-me que dentro de um dia ou dois começará a ser um pouco razoável - diga Bartleby.
- De momento preferia não ser um pouco razoável - foi a sua calma e débil resposta."

Flaubert



"Tudo isso não tinha sido feito para mim. Não invejo os outros, pois todos se queixam de um fardo cuja fatalidade acabrunha; - uns alijam-no até ao fim. E eu, levá-lo-ei?
Mal conheci a vida, houve um nojo imenso na minha alma, levei à boca todos os frutos: pareceram-me amargos; repeli-os e eis que morro de fome. Morrer tão novo, sem esperança no túmulo, sem ter a certeza de dormir, sem saber se a paz é inviolável! Lançarmo-nos nos braços do nada e duvidar de ser recebido!
Sim, morro, pois será viver ver o passado como água escoada para o mar, o presente como uma gaiola, o futuro como uma mortalha?"

Nunca um grafite ficou tão bem numa parede




Nos teus olhos altamente perigosos 
vigora ainda o mais rigoroso amor 
a luz dos ombros pura e a sombra 
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo 
à roda em que apodreço 
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila 
quase medita
e avança mugindo pelo túnel 
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira 
onde passo o dia burocrático 
o dia-a-dia da miséria 
que sobe aos olhos vem às mãos 
aos sorrisos
ao amor mal soletrado 
à estupidez ao desespero sem boca 
ao medo perfilado 
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca 
do modo funcionário de viver 

Não podias ficar nesta casa comigo em
trânsito mortal até ao dia sórdido 
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa 
puríssima da madrugada 
mas da miséria de uma noite gerada 
por um dia igual 

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão 
a esta pequena dor à portuguesa 
tão mansa quase vegetal 

Mas tu não mereces esta cidade não mereces 
esta roda de náusea em que giramos 
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual 
esta nossa razão absurda de ser 

Não, tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente 
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio 
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia 
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal 

Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura por ti 

Um adeus português, Alexandre O'Neill

560

Peyrou



XX
"Silêncio, por fim,
silêncio nos espelhos e nos
livros, silêncio na descida para
o lar. Um filho é o lar mais
órfão, a palavra é um
lar arrendado e alheio,
o esquecimento é um lar sobrepovoado,
o sal nunca existiu e nunca 
será lar. Silêncio perante o vestígio
da aventura, silêncio
a bagagem. A
maior aventura é levantarmo-nos
e desenhar um ser humano nas paredes
da caverna, tocar com novas mãos
a diferença entre o objecto e a sua
representação, derramar e beber a 
criação do conceito. Silêncio
na figura e como fundo o rumor tenso
que o telefone emite em exclusivo para
quem espera inutilmente. Alguém,
é essa a maior aventura,
deveria avisar-me quando se afogar o último
peixe. Então abrirei as portas
de todos os meus lares e que
saia o vento e depois quem
sabe; pelo menos o esquecimento, mais azul
do que branco, mais água do que sal,
daqueles que ficaram mais um instante."

A Arte de Negociar

"Ela: Tu és muito bonita, não és?
Eu: Não acho, mas se tu achas fico muito feliz.
Ela: Tens tantos livros aqui (na mesinha de cabeceira), tu lês tanto.
Eu: Sim, gosto muito de ler.
Ela: É por isso que tens uma livraria.
Eu: Sim, é um dos motivos.
Ela: Agora que já fui simpática e fofinha contigo posso ver o Pocoyo?
Eu: ... O_o"

E a vontade de tocar Baixo...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Dragoslav


"À minha volta, como uma película azulada, o crepúsculo caía. Mas continuava bastante calor: até estava agradável. Algures, ao longe, ouvia-se o canto das rãs, baixinho, hipnotizador, e eu, como no meio de um sono, sentia como se alguém estivesse a fechar um cortinado em cima de mim. Seria possível matar um homem a uma hora assim?"

Willst du bis zum Tod der Scheide sie lieben auch in schlechten Tagen....

Cortázar



Capítulo 7



   " Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano por tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.

     Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua."

Kawabata


"Nunca lhe ocorrera que memórias passadas são meros fantasmas e aparições. Talvez fosse previsível que uma mulher que vivera sozinha durante duas décadas sem amor ou casamento, se devesse satisfazer com as memórias de um amor triste, e que a sua satisfação devesse absorver a cor do egoísmo." 

domingo, 1 de maio de 2011

A plea, a petition, a kind of prayer

John Fante


Sobre a desolação da terra reinava uma indiferença suprema, a simples rotina do novo dia que se sucedia à noite, e, contudo, a intimidade secreta daquelas colinas e o seu mistério consolador e mudo tornava a morte um pequeno facto de pequena importância. Podíamos morrer, mas o deserto guardaria o segredo da nossa morte, sobreviver-nos-ia, cobriria a nossa memória com vento, calor e frio eternos.

Mirada de ciego

Renata Correia Botelho


encosto a face à parede
mais triste do quarto, fiel
guardiã do sol posto.

o coração que me deixaste
é uma casa difícil de habitar

Powerful

Manuel de Freitas





A HUMANIDADE EM AGOSTO


para a Inês, que esteve lá.

Era uma tarde assim, como já sabíamos
ou devíamos, pelo menos, calcular:
insuportável o calor, duvidosa a alegria.
Mas íamos fazer compras e
era Agosto, mês de pouca gente

que viu, como nós, o autocarro
parar bruscamente.
Quatro pequenos cães, de famílias
por certo bem diferentes, atravessavam
num sereno susto o alcatrão. Desconheciam
que tudo (sim, não é apenas o tabaco)
pode matar num dia qualquer os que estão vivos.

Seguiam quase ordeiros, sem caminho.
E não sabiam. Como poderiam saber
que eram as vítimas ocasionais
de umas férias mais tranquilas
para esses mesmos que, na sua excessiva
humanidade, os abandonaram à nenhuma sorte?

E a caravana passou, rodeada de silêncio.
O mais pequeno e farrusco, o que
vinha atrás, parecia não acreditar ainda
que era este o seu destino, nem urbano
nem campestre; simplesmente intolerável.
Doía muito ver-lhe os olhos, e ser humano
como os humanos que ali se libertaram
dele, para garantir a liberdade que não têm.

Pouco tempo depois, o autocarro arrancou.
Chegaremos mais devagar à mesma morte. Mas
chegaremos. Eu sempre achei a humanidade o que
de pior havia sobre a terra. Preferia, às vezes, não ter razão.

Sometimes