"Os meus livros (que não sabem que existo) São uma parte de mim, como este rosto De têmporas e olhos já cinzentos Que em vão vou procurando nos espelhos" Jorge Luis Borges
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segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Albert Cossery
"Cada vez que olhava para aquela paisagem, sentia-se invadido por uma intensa felicidade, como se um destino sagaz lhe tivesse concedido o privilégio de ser a única e insaciável testemunha. Esse delicioso sentimento de orgulho tinha origem numa realidade concreta; com efeito, por todo o lado no resto do mundo, aquela calma encantatória e aquela imutável doçura não passavam de uma lembrança. Por todo o lado no resto do mundo, o despotismo industrial tinha degradado os comoventes espaços da natureza e foi por pouco que aquela paisagem não se transformou também ela numa zona infectada. Para o provar, bastava virar a cabeça para identificar por entre a bruma do calor - cravada no deserto como uma estátua erguida em nome do absurdo - a estrutura metálica de uma torre petrolífera a apodrecer ao sol."
Desassossego (7)
"Nos primeiros dias do outono subitamente entrado, quando o escurecer toma uma evidência de qualquer coisa prematura, e parece que tardámos muito no que fazemos de dia, gozo, mesmo entre o trabalho quotidiano, esta antecipação de não trabalhar que a própria sombra traz consigo, por isso que é noite e a noite é sono, lares, livramento. Quando as luzes se acendem no escritório amplo que deixa de ser escuro, e fazemos serão sem que cessássemos de trabalhar de dia, sinto um conforto absurdo como uma lembrança de outrem, e estou sossegado com o que escrevo como se estivesse lendo até sentir que irei dormir.
Somos todos escravos de circunstâncias externas: um dia de sol abre-nos campos largos no meio de um café de viela; uma sombra no campo encolhe-nos para dentro, e abrigamo-nos mal na casa sem portas de nós mesmos; um chegar da noite, até entre coisas do dia, alarga, como um leque [que] se abra lento, a consciência íntima de dever-se repousar."
Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
Mariano Peyrou
"Pouco mais do que este conhecimento,
inútil porque não o podemos transportar.
Dias e o descuido que associamos
à generosidade. Várias maneiras de o medir:
com alfinetes, com nomes próprios, com dias.
A fidelidade é ampla e mal iluminada,
sobressaí o óbvio, importa
o indemonstrável. Seria bom que desses a tua opinião."
"Tudo se torna signo, alarme
perante o excesso de númeno, solavanco
até ao remoinho sensorial,
a víscera latente e por vezes
manifesta limita-se hoje às suas funções
mais prosaicas. Resumo de eufemismos: o amor
é metáfora de sexo tal como Deus é metáfora
das dúvidas transcendentes e por vezes também
físicas, recordemos em todo o caso o sol
e a chuva, o que equivale a desejar
consciência do seu canto nas sereias
que apesar das minhas meditações hermenêuticas
continuaram a trabalhar e sabem contrapor
algo desejável. Sonhas,
logo existem."
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Telhados de Vidro (8)
"O inferno não está antes da memória do amor. É um lugar sem apelo; só a nossa reverência o vislumbra e respeita, em símbolos que dele traçam uma distância, um temor, quem sabe se não uma saudade? Ninguém vai para o inferno por lapso, por distracção, porque está de acordo ou desacordo, porque se tornou sentido obrigatório. De vertigem em vertigem, vai-se perdendo o passo. E fica-se cego.
Ou então, em vez das pedras, as dunas e os cães abandonados. Ficar ali suspenso sobre o mar. Ali, onde a caixa branca não existia, porque o infinito lhe apagava os contornos e tudo se reunia num enlace mais forte que a morte e a vida. Não precisou de roubar a noite. Criou a noite. A lua sobre a música. A nuvem passa, vagamente, indefinida. E repete-se o passar, a tensão. Aquela nuvem, estes olhos, esta tinta. Até ser música e ter havido um pretexto. A vida nunca dava um romance. nem uma lição. Ou um crime. Nada a declarar. Os vidros, as lâminas, atravessam-lhe a memória e tingem-se de sol. Ilegível essa mistura da noite com o sol."
Silvina Rodrigues Lopes
*Telhados de vidro nº3 da (fabulosa) Averno
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Elfriede Jelinek
"Erika domina-se até já não sentir uma única pulsão dentro de si. Suspende a existência do seu corpo porque não há ninguém que lhe salte ao caminho, qual pantera, e lhe arrebate o corpo. Ela espera e emudece. Exige do corpo a execução de impiedosas tarefas e ainda consegue elevar a seu bel-prazer o grau de dificuldade, através de armadilhas dissimuladas. Jura a si própria que as pulsões qualquer um as pode seguir, mesmo o ser primitivo, que não se coíbe de as satisfazer ao ar livre. (...)
Nas vitrinas do Cinema Metro acocora-se entretanto a carne descarada a carne rósea nas suas variadas formas, apresentações e categorias de preço. Prolifera e transborda, porque Erika neste momento não pode fazer guarda diante do cinema. O preço dos lugares sentados é normalizado, à frente é mais barato do que atrás, embora a frente se esteja mais perto e se possa ver melhor pelo corpo dentro. Numa mulher escarafuncham unhas extra-longas pintadas de vermelho sangue, na outra escarafuncha por seu lado um objecto esguio que é um chicote de montar. Ela escava um buraco na carne e mostra ao observador quem manda aqui e quem não manda, e também o observador se sente a mandar. Erika experimenta directamente na sua carne aquele escarafunchar, este indica com ênfase o seu lugar no lado dos espectadores. O rosto de uma das mulheres contorce-se de gozo, porque, é claro, o homem só pode saber através da expressão dela quanto prazer lhe está a dar e quanto prazer se desperdiçou, inutilizado."
Breat Easton Ellis
"O escritório do meu pai fica em Century City. Espero por ele, sentado na espaçosa recepção, mobilada com luxo, conversando com as secretárias e namoriscando uma loira excepcionalmente bonita. não me chateia o facto de o meu pai me ter feito esperar meia hora enquanto estava numa reunião, e depois perguntar por que é que cheguei atrasado. Na verdade, hoje não me apetece ir almoçar fora; preferia estar na paria ou a dormir junto à piscina, mas presto-me a tudo como um menino bonito, sorrio e digo que sim a tudo, fingindo que estou a ouvir as perguntas que me faz acerca da Faculdade e respondo com toda a sinceridade. Não fico muito embaraçado quando, a caminho do Ma Maison, ele desce a capota do 450 e põe uma cassete do bob Seger, numa tentativa insólita de estabelecer qualquer espécie de comunicação. Também não me chateia que durante o almoço o meu pai fale com vários homens de negócios, pessoas com quem tem contactos na indústria cinematográfica, que passam junto à nossa mesa e a quem sou apresentado apenas como «o meu filho». A certa altura os homens de negócios parecem-se todos uns com os outros, e começo a desejar ter trazido o resto da coca."
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Flannery O'Connor
"Deteve-se ali, esforçando a vista para a frente, mas o espectáculo desvaneceu-se nas trevas que se iam reunindo. A noite caiu até nada restar além de um fino fio vermelho entre ela e a linha preta da terra, mas, mesmo assim, o rapaz ficou ali. Não mais sentia a sua fome como uma dor, mas sim como uma maré. Sentia-a encher-se dentro de si através dos tempos e das trevas, crescendo ao longo dos séculos, e sabia que crescia numa linha de homens cujas vidas haviam sido eleitas para suportá-la, que estavam fadados a perderem-se pelo mundo, estranhos oriundos daquela terra violenta onde o silêncio nunca se desfaz excepto para se bradar a verdade. Sentia-se aumentar desde o sangue de Abel até ao seu, erguendo-se para engoli-lo. Parecia no mesmo instante levantar-se e volver-se dentro dele. Rodopiou em direcção ao recorte do arvoredo. Ali, subindo e espalhando-se na noite, uma árvore auri-rubra de fogo ascendeu como se fosse consumir as trevas numa só tremenda explosão de chamas. O bafo do rapaz saiu ao encontro dela. Sabia ter sido este o fogo que cercara Daniel, que levantara Elias do chão, que falara a Moisés, e iria dentro de instantes dirigir-se a si. Lançou-se contra o chão e, com o rosto rente à terra da campa, ouviu as palavras de ordem. IDE AVISAR OS FILHOS DE DEUS DA TREMENDA URGÊNCIA DA MISERICÓRDIA. As palavras eram tão silenciosas como sementes a abrirem-se uma a uma no seu sangue."
Thomas Mann
"Era vontade de viajar, nada mais; mas uma vontade que o atacava, atingindo proporções dolorosas, quase de alucinação. A sua ânsia tornou-se visionária, a imaginação, animada ainda pelas horas de trabalho, recriou de uma só vez todas as maravilhas e horrores da Terra: e viu, viu uma paisagem tropical sob um céu espesso, um pântano húmido, opulento e insalubre, um ermo primitivo de ilhotas, pauis e rios de lodo - viu os braços peludos de palmeiras erguerem-se ao longe e de perto por entre a vegetação luxuriante, por entre o solo coberto de plantas que brotavam carnudas, desmedidas e aventureiras, viu árvores estranhamente amorfas com raízes que se desprendiam do tronco e atravessavam o ar para se afundarem na terra ou nas águas estagnadas, onde entre reflexos esverdeados flutuavam enormes flores brancas como leite, grandes como pratos, e pássaros exóticos, com asas em corcunda, bicos informes e pernas altas, olhavam imóveis para o lado, viu por entre as hastes nodosas de um canavial a faísca fosforescente dos olhos de um tigre - e sentiu o coração palpitar de terror, um desejo indecifrável. Depois a visão dissipou-se; e com um leve estremecer da cabeça, Aschenbach retomou o seu caminho ao longo das cercas das marmorarias."
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
John Fante (2)
"Mas Maria, perdida no mundo de fantasia das revistas femininas, fitando entre suspiros as imagens de fogões e ferros de engomar eléctricos, de aspiradores e máquinas de lavar automáticas, só tinha de fechar a revista e olhar em seu redor: as cadeiras duras, os tapetes puídos, as salas frias. Só tinha de examinar as palmas da mãos, calejadas pela tábua de lavar, para compreender que não era, no fim de contas, uma mulher americana. Nada nela, nem a pele, nem as mãos, nem os pés, nem a comida que comia ou os dentes com que mastigava, nada, absolutamente nada, a fazia sentir qualquer ligação às «mulheres americana».
No fundo, Maria não precisava de livros nem revistas. Tinha o seu próprio meio de evasão, o seu caminho privado para a satisfação: o rosário. Aquela fiada de contas brancas, os minúsculos elos gastos em alguns pontos e unidos por fios de linha branca que por sua vez se rompiam com frequência, era, conta após conta, o seu modo discreto de escapar ao mundo. Ave Maria cheia de graça, o senhor é convosco. E Maria seguia o rosário. Conta após conta, a vida e os vivo ficavam para trás. Mergulhava num sonho acordado, embalada por uma paixão sem corpo, por um amor eterno que entoava a melodia da crença. Maria estava longe; era livre, já não era a Maria, americana ou italiana, pobre ou rica, com ou sem máquinas de lavar automáticas e aspiradores eléctricos; chegara à terra de todos os bens. Ave Maria, Ave Maria, interminavelmente, mil e cem mil vezes, oração a oração, o corpo adormecido, o espírito ausente, a morte da memória, o refrigério da dor, o profundo e silencioso devaneio da fé. Ave Maria, Ave Maria. Era a razão da sua vida."
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Desassossego (6)
"Há um sono da atenção voluntária, que não sei explicar, e que frequentemente me ataca, se de coisa tão esbatida se pode dizer que ataca alguém. Sigo por uma rua como quem está sentado, e a minha atenção, desperta a tudo, tem todavia a inércia de um repouso do corpo inteiro. Não seria capaz de me desviar conscientemente de um transeunte oposto. Não seria capaz de responder com palavras, ou sequer, dentro em mim, com pensamentos, a uma pergunta de qualquer casual que fizesse escala pela minha casualidade coincidente. Não seria capaz de ter um desejo, uma esperança, uma coisa qualquer que representasse um movimento, não já da vontade do meu ser completo, mas até, se assim posso dizer, da vontade parcial e própria de cada elemento em que sou decomponível. Não seria capaz de pensar, de sentir, de querer. E ando, sigo, vagueio. Nada nos meus movimentos (reparo por o que os outros não reparam) transfere para o observável o estado de estagnação em que vou. E este estado de falta de alma, que seria cómodo, porque certo, num deitado ou num recumbente, é singularmente incómodo, doloroso até, num homem que vai andando pela rua.
É a sensação de uma ebriedade de inércia, de uma bebedeira sem alegria, nem nela, nem na origem. É uma doença que não tem sonho de convalescer.
É uma morte alacre."
Bernardo Soares (Frenando Pessoa)
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Cormac McCarthy (3)
"Descreveu um círculo e regressou, sem nada encontrar. Por fim, cruzou o afluente e desceu ao longo da margem mais distante e logo deparou de novo com pegadas. Seguiu-as até uma pequena clareira, onde os rastos cessavam. Olhou em volta. Parecia ser o mesmo lugar onde as pegadas que subiam pela margem mais próxima haviam desaparecido. Como se aquele que as traçara tivesse encontrado naquela floresta um qualquer alter ego tenebroso com quem se fundira em harmonia química, eclipsando-se da terra sem deixar vestígio. Foi então que ouviu o menino a chorar. Voltou-se com um vago sorriso entre as suíças hirsutas e ásperas. Encontrou-o no outro extremo da clareira, num cálice de musgo, nu e a chorar em surdina, não muito mais alto que um gatinho.
Bem, bem, comentou, ajoelhando-se, és um belo resmungão, pra um pobre diabo como tu. Apalpou o corpito com um dedo estendido, como se fosse um tomate ou um melão. És filhinho das tristes ervas, não é verdade? Parece que alguém queria que tu acabasses os teus dias aqui no meio das brenhas.
Embrulhou a toalha em volta da criaturinha e apanhou-a do chão e, segurando-a contra o peitilho das jardineiras com um braço, começou a descer novamente ao longo da margem do regato."
domingo, 9 de outubro de 2011
Daphne du Maurier (2)
Os Pássaros
"Ao voltar para casa no seu passo pesado através dos campos e pela azinhaga que levava à sua casa, Nat viu que os pássaros continuavam a formar bandos sobre as colinas a oeste, à luz dos derradeiros raios de sol. Não corria vento, e o mar cinzento estava calmo e cheio. Candelárias ainda em flor nas sebes e o ar ameno. Contudo, o lavrador tinha razão, e foi nessa noite que o tempo mudou. O quarto de Nat era virado a leste. Ele acordou pouco depois das duas e ouviu o vento na chaminé. Não a ventania e as rajadas súbitas de um temporal de sudoeste, que traz chuva, mas um vento de leste, frio e seco. Fazia eco na chaminé, e no telhado uma lousa solta batia. Nat pôs-se à escuta, e ouviu o mar a bramir na baía. Até no pequeno quarto o ar arrefecera: uma corrente de ar entrava por baixo da porta e ia directa à cama. (...)
Depois ouviu toques leves na janela. Não havia trepadeiras nas paredes da casa que se soltassem e roçassem nas vidraças. Ficou à escuta e as pancadinhas continuaram, até que, irritado com o som, saiu da cama e foi à janela. Abriu-a e, conforme o fez, qualquer coisa lhe aflorou ao de leve a mão, picando-lhe os nós dos dedos e arranhando a pele. Então viu o bater de asas, que logo desapareceu por cima do telhado, para trás da casa."
"Ao voltar para casa no seu passo pesado através dos campos e pela azinhaga que levava à sua casa, Nat viu que os pássaros continuavam a formar bandos sobre as colinas a oeste, à luz dos derradeiros raios de sol. Não corria vento, e o mar cinzento estava calmo e cheio. Candelárias ainda em flor nas sebes e o ar ameno. Contudo, o lavrador tinha razão, e foi nessa noite que o tempo mudou. O quarto de Nat era virado a leste. Ele acordou pouco depois das duas e ouviu o vento na chaminé. Não a ventania e as rajadas súbitas de um temporal de sudoeste, que traz chuva, mas um vento de leste, frio e seco. Fazia eco na chaminé, e no telhado uma lousa solta batia. Nat pôs-se à escuta, e ouviu o mar a bramir na baía. Até no pequeno quarto o ar arrefecera: uma corrente de ar entrava por baixo da porta e ia directa à cama. (...)
Depois ouviu toques leves na janela. Não havia trepadeiras nas paredes da casa que se soltassem e roçassem nas vidraças. Ficou à escuta e as pancadinhas continuaram, até que, irritado com o som, saiu da cama e foi à janela. Abriu-a e, conforme o fez, qualquer coisa lhe aflorou ao de leve a mão, picando-lhe os nós dos dedos e arranhando a pele. Então viu o bater de asas, que logo desapareceu por cima do telhado, para trás da casa."
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Ana Teresa Pereira (5)
"Devias tapar o espelho com um pano negro, alguém morreu, e não poderá descansar se a sua alma ficar presa nos espelhos. Tentas lembrar-te de quem morreu mas não consegues, ele ou tu, não existe mais ninguém. Dois monstros feridos que há anos escrevem o mesmo livro, duas aranhas debatendo-se na mesma teia (uma casa velha junto ao mar, lilases e pedras, a presença insuportável das gaivotas). Quase não falam um com o outro. Dormem em quartos separados. Estão velhos.
Dizes baixinho «I´m old». Chegou o momento de afundares os livros e renunciares à tua magia."
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Rui Nunes (2)
8.
"a repetição é uma forma de violência que me acompanha desde a infância, As pessoas olhavam para mim e repetiam as perguntas, os nomes das coisas, o meu próprio nome. Fixavam-me. E diziam: ele é tão distraído. Ou, com uma espécie de raiva, aproximavam a boca da minha e perguntavam: estás a perceber o que digo? Eu sentia gotas de cuspo nos lábios. Ainda hoje isso em acontece. E só não me rio porque não sei. Por vezes pratico frente ao espelho os movimentos do riso: contraio os músculos da cara, arreganho os dentes, e os olhos ficam duas frinchas. Mas não é riso, é um esgar. Tudo isto a propósito das repetições, das perguntas que se tornavam duras, cada vez mais duras, como um trilho calçado por muitos pés."
*A Mão do Oleiro
Relógio D'Água
"a repetição é uma forma de violência que me acompanha desde a infância, As pessoas olhavam para mim e repetiam as perguntas, os nomes das coisas, o meu próprio nome. Fixavam-me. E diziam: ele é tão distraído. Ou, com uma espécie de raiva, aproximavam a boca da minha e perguntavam: estás a perceber o que digo? Eu sentia gotas de cuspo nos lábios. Ainda hoje isso em acontece. E só não me rio porque não sei. Por vezes pratico frente ao espelho os movimentos do riso: contraio os músculos da cara, arreganho os dentes, e os olhos ficam duas frinchas. Mas não é riso, é um esgar. Tudo isto a propósito das repetições, das perguntas que se tornavam duras, cada vez mais duras, como um trilho calçado por muitos pés."
*A Mão do Oleiro
Relógio D'Água
domingo, 2 de outubro de 2011
Nuno Júdice (3)
Quotidiano
"Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios."
"Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios."
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Rui Miguel Ribeiro
XIII - A Sombra
"Trago comigo mais noite
que a minha própria sombra.
Ela que insiste sempre em ficar
mais rente: ao chão, às quatro
paredes, aos objectos dispostos
que tentam com a sua ocupação
fazer uma leitura dos dias,
ocupar um pouco mais de mim,
tentar o seu regresso para mim,
que apenas ensaio o escuro
nestes dias."
*Da (fabulosa) Averno
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Al Berto (4)
"estou gasto. dei-me sempre mais do que podia. não há nada que me possam roubar, sou um homem espoliado de todos os bens, de todas as doenças, de todas as emoções. sou um corpo pronto para a viagem sem regresso, para o crime e para a morte. sou um corpo que se evita, um homem cujo nome se perdeu e cuja biografia possível está no pouco que escreveu. sou um corpo sem nacionalidade, pertenço às profundidades dos oceanos, ao voo da ave migrante. sou um analfabeto e não sei se terei tempo para me decifrar.
lá fora anoiteceu."
Al Berto
in O Medo
lá fora anoiteceu."
Al Berto
in O Medo
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Desassossego (5)
"Reconheço, não sei se com tristeza, a secura humana do meu coração. Vale mais para mim um adjectivo que um pranto real da alma. O meu mestre Vieira.
Mas às vezes sou diferente, e tenho lágrimas, lágrimas das quentes dos que não têm nem tiveram mãe; e meus olhos que ardem dessas lágrimas mortas ardem dentro do meu coração.
Não me lembro da minha mãe. Ela morreu tinha eu um ano. Tudo o que há de disperso e duro na minha sensibilidade vem da ausência desse calor e da saudade inútil dos beijos de que me não lembro. Sou postiço. Acordei sempre contra seios outros, acalentado por desvio.
Ah, é a saudade do outro que eu poderia ter sido que me dispersa e sobressalta! Quem outro seria eu se me tivessem dado carinho do que vem desde o ventre até aos beijos na cara pequena?
Talvez que a saudade de não ser filho tenha grande parte na minha indiferença sentimental. Quem, em criança, me apertou contra a cara não me podia apertar contra o coração. Essa estava longe, num jazigo – essa que me pertenceria, se o Destino houvesse querido que me pertencesse.
Disseram-me, mais tarde, que minha mãe era bonita, e dizem que, quando mo disseram, eu não disse nada. Era já apto de corpo e alma, desentendido de emoções, e o falarem ainda não era uma notícia de outras páginas difíceis de imaginar.
Meu pai, que vivia longe, matou-se quando eu tinha três anos e nunca o conheci. Não sei ainda por que é que vivia longe. Nunca me importei de o saber. Lembro-me da notícia da sua morte como de uma grande seriedade às primeiras refeições depois de se saber. Olhavam, lembro-me, de vez em quando para mim. E eu olhava de troco, entendendo estupidamente. Depois comia com mais regra, pois talvez, sem eu ver, continuassem a olhar-me.
Sou todas essas coisas, embora o não queira, no fundo confuso da minha sensibilidade fatal."
Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
William Trevor
Brincadeiras de Crianças
"Gerard e Rebecca tornaram-se irmão e irmã depois de um turbilhão de emoções angustiadas. Cada qual assistira a tudo de um ponto de vista diferente, Gerard numa casa, Rebecca noutra. Dois anos de discussões ardentes, desaguisados e anuências, regressos à estaca zero, fracassos e reconciliações, até uma apoteose de insultos e rejeição, constituíram o espectáculo que ambos viram desfilar pelo buraco da fechadura. (...)
Numa tarde quente, uma quarta-feira, o dia em que o puro-sangue Quest for Fame venceu o Derby, a mãe de Gerard casou com o pai de Rebecca. Em seguida, alinharam-se os quatro, de pálpebras franzidas por causa da luz forte do sol, enquanto alguém lhes tirava uma fotografia. As duas crianças eram quase da mesma idade, Gerard com dez anos, Rebecca com nove. Gerard tinha o cabelo escuro, era muitíssimo magro e usava óculos. O cabelo arruivado de Rebecca formava-lhe curvas em volta das bochechas redondas. Tinha olhos muito vivos, de um tom escuro de azul. Os de Gerard, castanhos, eram graves.
Não nutriam quaisquer sentimentos um pelo outro, sem afecto nem aversão de uma parte ou outra: não se conheciam bem. Gerard era um intruso na casa que pertencera a Rebecca, mas ter visto partir a mãe fora para ela bem mais penoso.
- Eles vão-se adaptar - murmurou o pai de Rebecca numa casa de chá, depois do casamento.
Observando as duas crianças, sentadas em silêncio lado a lado, a sua nova esposa disse que esperava que sim.
E adaptaram-se mesmo. Reunidos, nos termos do acordo de paz, como partes interessadas mas impotentes, tornaram-se companheiros. Tinham saudades do passado; o ressentimento e a orfandade aproximava-os. Conversavam acerca das duas pessoas que visitavam ao domingo, e do modo como aqueles dois, outrora no centro do mundo, estavam agora vencidos e deslocados.
No topo da casa, a zona do sótão tinha sido remodelada para formar uma só divisão de tecto baixo, com janelas rasgadas até ao chão, e um soalho novo de tacos que parecia estender-se a perder de vista. As paredes eram de uma tonalidade deslavada de amarelo-esverdeado, e colunas de luz de sol faziam com que o freixo alvacento dos tacos parecesse quase branco. Não havia ali mobília. Duas lâmpadas eléctricas nuas pendiam do longo tecto inclinado. Era nesta terra-de-ninguém que Gerard e Rebecca encenavam o seu jogo de casamento e divórcio. Converteu-se numa brincadeira secreta, com as palavras a morrerem-lhes nos lábios quando alguém entrava, as boas maneiras a disfarçarem o embuste."
domingo, 25 de setembro de 2011
John Cheever (2)
"Esta é uma história para ler na cama, numa casa velha, numa noite de chuva. Os cães dormem e os cavalos de sela - Dombey e Trey - fazem-se ouvir nos estábulos do outro lado da rua suja, para lá do pomar. A chuva é suave e necessária, mas não desesperadamente. Os lençóis de água estão num nível satisfatório, o rio que corre perto está cheio, os jardins e os pomares - estamos num virar de estação - estão convenientemente irrigados. Quase todas as luzes estão apagadas na pequena aldeia perto da cascata onde, antigamente, o moinho produzia riscado de algodão.
As paredes de granito do moinho ainda estão de pé, nas margens do rio largo, e a casa do dono do moinho com as suas quatro colunas coríntias ainda encima o único monte do lugar."
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