"queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos"
in Vago pressentimento azul por cima
"Os meus livros (que não sabem que existo) São uma parte de mim, como este rosto De têmporas e olhos já cinzentos Que em vão vou procurando nos espelhos" Jorge Luis Borges
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Desassossego (19)
"É nobre ser tímido, ilustre não saber agir, grande não ter jeito para viver.
Só o Tédio, que é um afastamento, e a Arte, que é um desdém, douram de uma semelhança de contentamento a nossa.
Fogos-fátuos que a nossa podridão geral, são ao menos luz nas nossas trevas.
Só a infelicidade elementar e o tédio puro das infelicidades contínuas, é heráldico como o são descendentes de heróis longínquos.
Sou um poço de gestos que nem em mim se esboçaram todos, de palavras que nem pensei pondo curvas nos meus lábios, de sonhos que me esqueci de sonhar até ao fim.
Sou ruínas de edifícios que nunca foram mais do que essas ruínas, que alguém se fartou, em meio de construí-las, de pensar em que construía.
Não nos esqueçamos de odiar os que gozam porque gozam, de desprezar os que são alegres, porque não soubemos ser, nós, alegres como eles... Esse sonho falso, esse ódio fraco não é senão o pedestal tosco e sujo da terra em que se finca e sobre o qual, altiva e única, a estátua do nosso Tédio se ergue, escuro vulto cuja face um sorriso impenetrável nimba vagamente de segredo.
Benditos os que não confiam a vida a ninguém."
Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
domingo, 20 de outubro de 2013
sábado, 21 de setembro de 2013
domingo, 30 de junho de 2013
Fernando Guerreiro (2)
Lendo Petrarca
"Gli suspiri al freddo cuore,
alguém o disse, pouco crente
na fiabilidade do sentimento
e deixando ao pintor a tarefa
de reter sob espessas camadas
de tinta o segredo que para si,
defendendo-o do exterior,
guardara o livro. Todos
os mortos têm uma segunda
vida (pensou): pela poesia,
manto que os devolve à luz
numa carne que os torna -
para quem neles acreditou -
ainda mais puros e vivos.
De tuoi sguardi mio ardore,
murmurou, aceitando
viver com as dores que
o defendiam das dúvidas
quanto ao carácter salvífico
do sacrifício. Amara-a
sem necessitar de palavras,
a não ser as que ela lhe
doou, debruadas a sangue
no miolo do precipício.
Era esse o seu legado:
encontrar um significado
para palavras que a paixão
conservou mesmo depois
de exauridas na pequenez
dos seus múltiplos sentidos."
in Telhados de Vidro nº6
"Gli suspiri al freddo cuore,
alguém o disse, pouco crente
na fiabilidade do sentimento
e deixando ao pintor a tarefa
de reter sob espessas camadas
de tinta o segredo que para si,
defendendo-o do exterior,
guardara o livro. Todos
os mortos têm uma segunda
vida (pensou): pela poesia,
manto que os devolve à luz
numa carne que os torna -
para quem neles acreditou -
ainda mais puros e vivos.
De tuoi sguardi mio ardore,
murmurou, aceitando
viver com as dores que
o defendiam das dúvidas
quanto ao carácter salvífico
do sacrifício. Amara-a
sem necessitar de palavras,
a não ser as que ela lhe
doou, debruadas a sangue
no miolo do precipício.
Era esse o seu legado:
encontrar um significado
para palavras que a paixão
conservou mesmo depois
de exauridas na pequenez
dos seus múltiplos sentidos."
in Telhados de Vidro nº6
segunda-feira, 24 de junho de 2013
José Amaro Dionísio (2)
Post - Scriptum
"O arresto de duas palavras para contar apenas o improvável, quando a noite foi ainda capaz de oferecer a luz abatida na face esquerda do seu rosto, o extravio dos seios abandonado à blusa transmissível, e de súbito levanta-se, atravessa a sala, a saia colada ao império de uma mudez deserta.
Era só isto que queria dizer. Depois da morte hei-de talvez acrescentar que cheguei a amar a perda do que amei, mas será tarde demais, o tempo é afinal uma possibilidade tão inútil como o resto."
domingo, 23 de junho de 2013
Helder Moura Pereira (9)
"Melhor fora que viesses sem saber
de mim o que quer que fosse.
Isso é que seria recomeçar a valer
e não apenas com o que te trouxe.
Para que isto não ficasse viciado
à partida, protegia metade da alma.
A metade que, quando estou deitado,
fica para baixo e me acalma.
Que corpo afectivo e voraz
me deixa assim contente e vivo?
O corpo que sempre me traz
razão activa ao meu ser passivo.
Pediste-me o livro da emoção
e nele não leste nenhum compromisso.
Discutimos antes a decoração,
um de nós tem de ceder nisso."
in Pela Parte Que Me Toca, Assírio & Alvim
de mim o que quer que fosse.
Isso é que seria recomeçar a valer
e não apenas com o que te trouxe.
Para que isto não ficasse viciado
à partida, protegia metade da alma.
A metade que, quando estou deitado,
fica para baixo e me acalma.
Que corpo afectivo e voraz
me deixa assim contente e vivo?
O corpo que sempre me traz
razão activa ao meu ser passivo.
Pediste-me o livro da emoção
e nele não leste nenhum compromisso.
Discutimos antes a decoração,
um de nós tem de ceder nisso."
in Pela Parte Que Me Toca, Assírio & Alvim
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Manuel Gusmão (2)
"Teria talvez mudado a mão do vento; ou súbito seria
um ritmo outro nas árvores invadindo a partitura;
Ou talvez apenas fosse que alguém ali
perto ou longe - tendo podido cantar - então cantasse.
Teriam vibrado os contornos das figuras; a voz
teria posto fogo às páginas que escurecidas
redemoinhavam nos paredões abandonados
junto ao rio, demasiado
fundo, demasiado lento, demasiado antigo."
in Telhados de Vidro nº6, Averno
um ritmo outro nas árvores invadindo a partitura;
Ou talvez apenas fosse que alguém ali
perto ou longe - tendo podido cantar - então cantasse.
Teriam vibrado os contornos das figuras; a voz
teria posto fogo às páginas que escurecidas
redemoinhavam nos paredões abandonados
junto ao rio, demasiado
fundo, demasiado lento, demasiado antigo."
in Telhados de Vidro nº6, Averno
sábado, 29 de dezembro de 2012
Renata Correia Botelho (6)
O Sorriso do Mimo
"Tirou então o creme e olhou em frente.
Depois do trapézio, a vida concedera-lhe
palavras poucas, um espelho,
uma mala gasta onde arrumar as dores.
Primeiro cobriu a testa, da esquerda
para a direita, com a mestria de um cego
que tacteia o seu nome no escuro.
Os olhos e os lábios em seguida,
até nada restar de voo sobre a pele.
O céu poente abrigava um bater de asas,
cortando de penas aquele silêncio crepuscular.
E nós assistimos, sem rede,
ao sorriso primeiro do mimo."
in Revista Grisu nº1
"Tirou então o creme e olhou em frente.
Depois do trapézio, a vida concedera-lhe
palavras poucas, um espelho,
uma mala gasta onde arrumar as dores.
Primeiro cobriu a testa, da esquerda
para a direita, com a mestria de um cego
que tacteia o seu nome no escuro.
Os olhos e os lábios em seguida,
até nada restar de voo sobre a pele.
O céu poente abrigava um bater de asas,
cortando de penas aquele silêncio crepuscular.
E nós assistimos, sem rede,
ao sorriso primeiro do mimo."
in Revista Grisu nº1
Poesia, Poesia, Poesia... (2)
Nocturno com Aviões
para o Miguel Martins
"Não estejas só. Tu também és
o que já foste e o que esperaste
vir a ser. A manhã que se aproxima
há-de passar, não importa. Para já,
os diligentes aviões de madrugada
sobrevoam o desenho das colinas
de Lisboa - e cá dentro, muito fundo,
numa redoma de música, os amigos
ainda bebem para esquecer
o futuro, que outro remédio
não têm, se a hora não se repete
e a vida é só esta espuma."
Rui Pires Cabral
Quinta da Regaleira
"Por amor, pode-se. Ou quando
se traz no bolso do casaco
um envelope lilás dirigido
a um amigo que não queremos perder.
Por amor - ou por amizade -
pode-se, enfim, descer pela
primeira vez o Poço Iniciático,
sofrer em pleno dia a noite
dos túneis que nos devolverão à luz;
esse chão pisado por americanos
nédios e europeus sem graça.
Mas dispensem-me de razões
e argumentos.O medo foi
o que de mais precioso tive esta manhã.
Ou durante toda a vida."
Manuel de Freitas
A Queda
"Je suis tombée
amoureuse, foi o seu
primeiro encontro
com o chão.
Dessa vez partiu
em cacos o coração.
Os ossos só mais tarde,
um por um,
contra a terra.
C'est fou la vie,
essa derrocada
a que apenas resistem
memória e pássaro,
em voo picado."
Renata Correia Botelho
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Poesia, Poesia, Poesia...
"Nada procuro
senão o sítio
onde atrasar o poema
e aquela sombra sem culpa
de quem leva ao coração
toda a luz que a mão espalha."
José Carlos Soares
"Há um fio branco
com que a luz me prende
ainda à minha sombra.
Rostos sem nome, lugares
arrancados à morte,
manhãs inquietas - de tudo
vi ser salvo, sob o jugo
dos teus dedos, às supremas
leis do tempo
por um estalido seco
de uma máquina dolorosamente
rente à verdade.
A memória demora-se
um pouco mais nos meus
olhos, devolvendo-me
a esta fotografia gasta
onde, à tua esquerda, sou
a mais ditosa das sombras
à espera de um sopro de sol.
como aquela roupa estendida
ao fundo do pátio."
Renata Correia Botelho
1.
"Se algum dia podias supor
No regresso a casa
Ou no bulício do trabalho
Que eu deste lado
Onde os anos idos se acoitam
Tocaria o teu ombro anónimo
Como no fundo dos rios"
João Almeida
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Alfonso Barrocal
"Às vezes paro à porta
com o olhar perdido e habituado ao silêncio,
há mais desertos ainda, dias
e morte noutros olhos.
Com a garganta habituada à sede,
com os pés às feridas,
saio para a rua
e já não há umbrais.
Ando um dia, passo outro,
acabo uma semana de vidros partidos
e tosse mais velha.
Hoje parece que sempre
choveu sobre mim,
e não me importa
se a chuva já não se parece ao esquecimento
e apenas deixa charcos, paredes mais sujas
e fuligem e tristeza nos olhos de rímel,
ainda tenho sede
e não me importa
voltar às coisas más e aos velhos tugúrios
à procura de algo que não encontro nem recordo,
que costuma principiar por um encontro,
talvez por outra palavra
e corre o perigo de crispar-se
até à forma da folha da faca.
Às vezes tudo é tão estranho
que não basta continuar a andar."
in Poesia Espanhola, anos 90, Relógio D´Água
*to J. thanks :)
F.S. Hill (4)
"Tenho os frutos cristalizados
na boca,
já me podes lamber os medos.
Entretanto,
escrevi, no embaciado espelho
retrovisor,
uma lista dos dias em que me esqueci
de viver.
Apaga-me se puderes,
quando chegares.
Gosto que venhas,
como gosto da chuva
e do arroz.
Às vezes limito-me a pensar-te.
Também não é mau
mas prefiro quando dançamos."
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